Como este casal construiu um negócio de R$ 20 milhões ensinando pessoas a perderem o medo de voar

“A asa do avião está remendada com fita adesiva”. Com uma única frase, Mila Seidl conseguiu instaurar uma confusão durante um voo de trabalho, com comissários chamados por vários passageiros para ouvir o suposto problema.
O medo se repetia em outras decolagens e pousos, que muitas vezes ela precisava fazer à trabalho. Em 2014, ela encontrou o blog “Aviões e Músicas”, escrito por Lito Sousa, mecânico de aeronaves que trabalhou por 25 anos na United Airlines.
“Ele escrevia em uma linguagem simples sobre assuntos técnicos. Na hora que eu li aquelas linhas, me deu até uma vontade de comprar uma passagem de avião para testar e ver se faria efeito”, diz Mila.
O impacto foi tão grande que ela decidiu marcar um skype com ele para perder de vez o medo de voar. Mais tarde, o encontro virou namoro, depois casamento, e, por fim, uma parceria de negócios.
Juntos, eles criaram a Lito Group que faturou R$ 20 milhões nos últimos 12 meses. A empresa conta com conteúdos digitais para redes como YouTube e Instagram, cursos para perder medo de avião e até mesmo uma universidade para pilotos.Para 2026, a expectativa é chegar ao faturamento de R$ 25 milhões, impulsionado pela Lito RMO, nova frente que será lançada este ano para oferecer manutenção de aviões.
O encontro
Lito Sousa criou o seu blog de forma despretensiosa no início dos anos 2000. Além de mecânico de aviões, ele trabalhava como DJ. No site, escrevia sobre dúvidas relacionadas ao mundo da aviação e criava mix de músicas para compartilhar.
Após Mila descobrir o blog, o primeiro encontro deles foi via Skype. “Ele passou mais de três horas me explicando tudo com paciência. No fim, disse que eu podia viajar tranquila e até brincou que eu traria uma encomenda para ele”, diz. “Nessa reunião eu fiquei completamente apaixonada pelo Lito”, afirma.
17 anos mais nova e morando em cidades diferentes, Mila considerava a paixão platônica. Mas ela investiu mesmo assim, e ele topou um encontro presencial. Em 2015, já namoravam e moravam juntos. Com cinco meses de namoro, eles se casaram.
Mais do que um marido por quem era apaixonada, Mila via potencial no trabalho do mecânico como comunicador e começou a incentivá-lo a migrar para o YouTube.O casal estudou a plataforma, fez cursos oferecidos pelo próprio YouTube e testou formatos. Eles compraram uma câmera, começaram a organizar episódios, pensar em thumbnails e criar quadros mais acessíveis para o público geral — não apenas para entusiastas de aviação.
Neste momento, Mila deixou o seu antigo trabalho para se dedicar ao que viria a ser o Lito Group. Ela cuidando da parte estratégica e comercial, e ele sendo o comunicador do negócio.
“Ele começou a transformar em conteúdo perguntas que eu fazia, como ‘quantos parafusos tem um avião?’. As dúvidas de uma pessoa leiga passaram a inspirar os vídeos e ajudaram a tornar o conteúdo menos técnico e mais acessível”, diz.
Em um ano e oito meses, o canal já somava 1 milhão de seguidores.“Tudo era muito calculado. A gente entendia que determinados temas traziam mais audiência e convertiam novos inscritos, então existia uma estratégia de volume, frequência e consistência.”
Da audiência aos produtos
A primeira vez que saíram do digital foi por meio do lançamento de um e-commerce, com blusas personalizadas da marca.
“As pessoas começaram a mandar fotos com as camisetas da marca e a gente passou a mostrar algumas nos vídeos. Isso incentivava tanto as vendas quanto a audiência”, afirma Mila.
Depois, lançaram o primeiro livro escrito por Lito. A obra nasceu a partir de uma experiência do criador de conteúdo no Zaire, atual República Democrática do Congo, nos anos 1990, quando trabalhou na manutenção de aeronaves em meio a um esquema ligado ao tráfico de diamantes. A comunidade já acompanhava trechos da história nas redes e aguardava o lançamento do livro.
Sem editora, o casal decidiu investir na publicação independente e usou a própria audiência para divulgar o projeto.
A primeira tiragem, de 5 mil exemplares, esgotou em apenas um dia. O evento de lançamento, realizado no Campo de Marte, em São Paulo, reuniu mais de mil pessoas, e foi realizado dentro de aviões.
O livro alcançou cerca de 150 mil cópias vendidas e chegou ao topo das vendas na Amazon, consolidando mais uma frente de negócios do grupo.
Também no presencial, passaram a oferecer cursos de como perder medo de avião comandados por Lito Sousa. As vagas esgotavam muito rápido, porque o público queria ter contato direto com ele.
Com o crescimento da procura, o casal apostou na escassez e precificação. Mesmo assim, as turmas lotavam e perceberam que o modelo não escalaria apenas presencialmente.
Desenvolveram formatos digitais e produtos online voltados para quem tem medo de voar — numa época em que o mercado de infoprodutos ainda era pouco explorado. Hoje, essa frente representa entre 10% e 15% do faturamento do grupo.
A aposta na formação técnica
Com a pandemia, a empresa passou por dois pontos de virada. A saída de Lito Sousa da United Airlines para se dedicar totalmente ao negócio e a criação de uma nova frente.
“Eu fazia o cálculo da hora-homem do Lito o tempo inteiro. Chegou um momento em que o tempo dele valia mais nos nossos negócios do que no emprego formal”, diz Mila.
A idealização da nova frente, nomeada de Lito Aviation Academy, veio da percepção de que o setor aéreo enfrentaria uma escassez de profissionais com o fim da pandemia.
“A aviação ia precisar contratar feito louco”, afirma Mila. “Sabíamos que faltariam profissionais e resolvemos estruturar uma escola antes da retomada dos voos.”
O projeto levou cerca de dois anos para ser desenvolvido. Antes do lançamento, o grupo ouviu companhias aéreas, executivos do setor e especialistas para entender quais profissionais estavam em falta. A principal aposta foi a formação de mecânicos de aeronaves, carreira do próprio Lito.
“Todo mundo pensa em piloto, mas a gente viu que o mercado precisava mesmo era de mecânicos. Então, precisávamos mostrar que ser mecânico de aeronaves também podia ser uma carreira de sucesso”, diz.
A escola foi planejada para oferecer um padrão próximo ao de centros internacionais de formação, com peças reais de aeronaves, laboratórios e equipamentos usados pelo setor – mas com um melhor custo-benefício.
A primeira turma reuniu cerca de 1,5 mil alunos. Hoje, a Lito Aviation Academy também oferece cursos para pilotos, comissários e engenheiros aeronáuticos. “Muitas empresas abrem vagas exclusivas para os nossos alunos porque sabem o nível de formação que entregamos”, afirma Mila.
Atualmente, essa é a maior frente do negócio – com uma média de 35% do faturamento total.
Risco aplicado a outros setores
O Lito Group ainda conta com uma frente corporativa. A ideia é aplicar metodologias da aviação em empresas de diferentes setores, com foco na mitigação de riscos, controle de falhas humanas e melhoria de processos em ambientes de alta complexidade. O braço representa cerca de 20% do faturamento total.
Apesar da participação expressiva na receita, a operação ainda é limitada porque requer a participação de Lito nas dinâmicas. Empresas como Petrobras, Nestlé e Grupo Boticário já contrataram o serviço para treinamentos e palestras.
“É uma frente muito concentrada no Lito. Se a gente conseguisse que o dia tivesse mais horas, talvez a participação na receita fosse maior, pois a demanda existe”, diz.
Expansão e novos projetos na aviação
Para 2026, o grupo projeta uma nova fase de expansão com a criação da Lito MRO. A iniciativa pode impulsionar o faturamento total para cerca de R$ 25 milhões.
A nova frente, que deve ser lançada ainda este ano, é voltada à manutenção de aeronaves, com foco específico em componentes e peças de aviões, atuando na etapa de diagnóstico e inspeção técnica. A expectativa é de que a MRO fortaleça a vertical técnica do negócio e amplie sua participação na cadeia da aviação.
A empresa reconhece, porém, que o cenário está sujeito a oscilações externas. O principal fator de atenção é o preço do combustível, que impacta a dinâmica das companhias aéreas e, consequentemente, a demanda por serviços e treinamentos.
“É uma meta audaciosa. Não é algo simples dentro da aviação, porque dependemos muito de fatores externos que impactam até mesmo nossos cursos de capacitação”, afirma Mila. “Às vezes a gente precisa subir preço, descer, então é um desafio de planejamento”, diz.
