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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
26/09/2026
6 min

Como este padre tirou uma universidade do vermelho e a levou para o clube do bilhão

Após anos de desequilíbrio financeiro, PUC-Rio implementou plano de gestão, ampliou receitas de pesquisa, fortaleceu governança e dobrou o superávit para R$ 80,9 milhões em 2025

Como este padre tirou uma universidade do vermelho e a levou para o clube do bilhão
RESUMO +

A universidade PUC-Rio encerrou 2025 com receita bruta de R$ 1,285 bilhão e superávit de R$ 80,9 milhões, o dobro de 2024. Sob a gestão do padre e reitor Anderson Antonio Pedroso, o resultado reverteu um desequilíbrio estrutural de cerca de R$ 60 milhões anuais registrado entre 2015 e 2021. A recuperação combinou governança, pesquisa patrocinada e expansão social.

Quando o padre Anderson Antonio Pedroso assumiu a reitoria da PUC-Rio, em 2022, encontrou uma universidade com uma história de excelência acadêmica, mas diante de um desafio financeiro. Entre 2015 e 2021, a atividade acadêmica da instituição acumulava um desequilíbrio estrutural de aproximadamente R$ 60 milhões por ano. 

A pandemiaagravou um cenário já desafiador para o ensino superior, que passava por mudanças no perfil dos estudantes, pressão financeira e necessidade de adaptação tecnológica.

Três anos depois, os números mostram uma transformação. A PUC-Rio encerrou 2025 com receita bruta de R$ 1,285 bilhão, crescimento de 15,3%, e registrou superávit de R$ 80,9 milhões, o dobro do resultado positivo obtido em 2024, de R$ 40,3 milhões.

Para chegar até aqui, o reitor diz que a universidade não buscou simplesmente aplicar uma lógica empresarial, mas incorporar práticas de gestão capazes de garantir sustentabilidade para cumprir sua missão.

“Nós não somos uma empresa de lucro. Nós somos uma instituição de ensino sem fins lucrativos, comunitária, em que o impacto social é o mais importante. O dinheiro, as finanças não são o fim, só são o meio para que nós possamos cumprir nossa missão social”, afirma o padre e reitor.

O resultado financeiro veio acompanhado de uma expansão da atuação social.

Em 2025, a universidade concedeu 4.204 bolsas, alcançando 44,9% do corpo discente, além de investir cerca de R$ 3 milhões no Programa Institucional de Permanência Estudantil (FESP), que atende alunos em situação de vulnerabilidade com apoio em alimentação, transporte e tecnologia. No ano, foram ainda viabilizadas 100 mil refeições para estudantes.

Da auditoria ao planejamento: a reconstrução da gestão

A mudança começou com diagnóstico. Segundo o reitor, uma das primeiras medidas foi contratar uma auditoria externa para entender a situação financeira da universidade e construir um plano de reorganização.

“A universidade veio da pandemia, e todas as universidades tiveram um baque com isso. Já antes, o sistema universitário estava manifestando a necessidade de uma renovação”, disse.

A partir desse diagnóstico, a PUC-Rio estruturou o Planejamento Estratégico 2024-2030 e um plano diretor financeiro voltado para reorganizar contas, investimentos e prioridades.

A universidade também criou novas estruturas de governança, incluindo: novo modelo de compras; políticas internas de contratos; escritório de processos; programa de integridade e compliance.

Para o reitor, a profissionalização da gestão foi fundamental para recuperar a confiança de parceiros e financiadores.

“O maior mérito dessa gestão, que não é só minha, mas de toda a equipe, é o ganho de confiança. Como nós ganhamos confiança? Com transparência e aplicando as melhores práticas”, afirma.

Pesquisa vira uma das principais fontes de crescimento

Uma das mudanças mais relevantes na estrutura financeira da universidade veio da expansão das pesquisas patrocinadas.

Em 2025, essa área gerou R$ 400,5 milhões em receitas, crescimento de 29,2%, segundo a instituição.

A lógica, explica padre Anderson, não é transformar pesquisa em uma fonte de lucro, mas criar uma estrutura capaz de sustentar a própria universidade.

“As pesquisas patrocinadas não trazem para nós lucro. Elas trazem overhead (parcela de um recurso financeiro destinada a cobrir os custos indiretos de uma operação). Então, a pesquisa ajuda que se mantenha a universidade no sentido da sua estrutura”, afirma.

A PUC-Rio tem tradição em áreas de pesquisa aplicada, especialmente relacionadas a setores como energia, petróleo, gás e transição energética. O reitor afirma que essa característica diferencia a instituição de outras universidades da rede jesuíta.

“A PUC é mais pesquisa e pesquisa de alta complexidade. Petróleo, gás, transição energética é o nosso foco”, diz.

Quem é o reitor da PUC-Rio

A trajetória do reitor ajuda a explicar a combinação entre tradição religiosa e gestão moderna.

Jesuíta, padre Anderson tem doutorado em História da Arte Contemporânea e Estética Filosófica pela Sorbonne, em Paris, e concluiu em 2026 o General Management Program (GMP), formação executiva da Harvard Business School voltada a líderes seniores.

Antes de assumir a reitoria, ele chegou à PUC-Rio em 2020 como vice-reitor e professor do Departamento de Artes & Design. Desde 2022, lidera a universidade.

Ele afirma que sua formação em design thinkinginfluenciou sua forma de administrar.

“O design me ajudou muito porque eu imagino cenários. Partir da realidade e buscar os melhores meios para resolver os problemas”, afirma.

A própria formação jesuíta, segundo ele, trouxe uma visão de disciplina financeira e prestação de contas.

Durante a formação religiosa, conta, aprendeu a controlar despesas até nos pequenos detalhes. “Eu acho que a nota fiscal do cafezinho de R$ 1,25 hoje me ajuda a entender e administrar a renda bruta da PUC, que é de R$ 1 bilhão e 250 milhões”, diz.

A aposta no humano em tempos de inteligência artificial

Com a reorganização financeira, a universidade passou a ampliar investimentos em novas áreas.

A PUC-Rio tem aproximadamente 12 mil alunos, sendo cerca de 9 mil na graduação e 3 mil na pós-graduação, e oferece 45 cursos de graduação. Entre as novas formações estão Inteligência Artificial, Farmácia e Sustentabilidade.

Outra aposta é a área de saúde. A universidade pretende iniciar sua graduação em Medicina em 2027, ampliando uma trajetória que começou em 1953 com sua atuação em pós-graduação médica.

Também está em desenvolvimento o Instituto PUC-Behring de Inteligência Artificial, com uma nova sede própria voltada a laboratórios, pesquisa e ensino.

Mesmo com a expansão tecnológica, o reitor afirma que a principal aposta da universidade continua sendo a formação humana.

“Em tempos de IA, é preciso investir em informação humanista, porque as máquinas vão fazer o trabalho. Mas o ser humano vai ser valorizado pelo profissional que é capaz de pensar essa complexidade”, afirma.

Para ele, o desafio das universidades não é apenas formar profissionais tecnicamente preparados, mas pessoas capazes de interpretar problemas complexos.

“Formar a pessoa por inteiro”, resume.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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