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NegóciosMPOL
28/07/2026
8 min

Como este publicitário vai faturar R$ 15 mi transformando receitas culinárias em dados para marcas

Fundada em Maringá, no Paraná, plataforma combina audiência, conteúdo para marcas e inteligência artificial

Como este publicitário vai faturar R$ 15 mi transformando receitas culinárias em dados para marcas

A busca por uma receita no portal Receiteria começa antes de alguém abrir o Google e digitar “bolo de cenoura”, “frango assado” ou “sobremesa de Natal”. Em Maringá, no interior do Paraná, analistas avaliam o histórico de pesquisas, identificam pratos com potencial de audiência e entregam as sugestões a uma equipe de culinaristas. A receita é então preparada, fotografada passo a passo, revisada e só depois publicada. 

A operação produz cerca de 300 novas receitas por mês, com a participação de mais de 15 "culinaristas". O acervo já ultrapassa 7 mil preparos autorais e testados — um processo que a empresa considera sua principal barreira contra concorrentes e contra a proliferação de conteúdos culinários produzidos automaticamente.

“Um site de receitas tem que cozinhar. A gente identificou que precisava fazer de verdade aquilo que ensinava às pessoas”, afirma Felipe Lazarini, sócio do Receiteria. “As receitas são preparadas, fotografadas passo a passo e testadas. Esse é o nosso principal ativo.”

A cozinha, porém, tornou-se apenas uma parte do negócio. Criado como um portal voltado às buscas da internet, o Receiteria passou a vender publicidade, licenciar conteúdo, produzir projetos para marcas e usar o comportamento de seus usuários para desenvolver pesquisas sobre alimentação.

Com a diversificação, a companhia espera faturar perto de R$ 15 milhões em 2026, ante R$ 9 milhões no ano passado. O braço de produção para marcas cresceu aproximadamente 85% no primeiro semestre, enquanto a audiência avançou mais de 62% na comparação anual.

Qual é a origem do Receitaria

O Receiteria surgiu em 2016 dentro do Grupo Contteudo, empresa de produtos digitais fundada há cerca de duas décadas. O grupo chegou a criar mais de 20 sites temáticos, acompanhando os assuntos que ganhavam espaço nas buscas dos brasileiros.

Durante os primeiros anos, o portal culinário funcionou principalmente como uma curadoria de receitas disponíveis na internet. A transformação começou há cinco anos, quando Lazarini se tornou sócio do grupo e ajudou a reposicionar a marca.

Publicitário de formação, ele trabalhou no setor de energia e passou 10 anos no UOL, na área de parcerias e desenvolvimento de negócios para publishers. Também teve uma passagem pela Webedia, onde trabalhou com planejamento de conteúdo para marcas e acompanhou de perto a operação do portal TudoGostoso, líder do segmento de receitas no país.

A aproximação com os fundadores do Grupo Contteudo ocorreu durante a relação comercial entre as empresas e se intensificou na pandemia. Lazarini deixou o UOL e ingressou na sociedade para ampliar a vertente de negócios do grupo.

“Quando cheguei, o Receiteria ainda estava muito concentrado no produto. Fizemos um rebranding, criamos um posicionamento de marca e começamos a desenvolver todo o ecossistema”, diz.

A principal mudança foi abandonar gradualmente a curadoria e assumir a produção das próprias receitas. Para decidir o que será preparado, a equipe combina dados históricos de pesquisa, tendências emergentes e o potencial de retorno de cada conteúdo.

A empresa mantém 25 profissionais contratados diretamente e cerca de 15 culinaristas externos. A sede em Maringá inclui um estúdio para a gravação de vídeos e a produção de materiais para redes sociais e clientes.

Três negócios dentro do mesmo portal

A maior parte dos usuários ainda chega ao Receiteria pelo Google. Segundo Lazarini, as buscas orgânicas respondem por 80% da audiência. A publicidade programática exibida durante essas visitas continua sendo uma fonte relevante de receita.

O modelo, no entanto, deixou de depender exclusivamente do volume de acessos. Hoje, está sustentado por três frentes.

A primeira é o licenciamento de receitas e outros materiais, tendo o UOL como principal parceiro de distribuição. A segunda reúne publicidade, mídia e projetos especiais patrocinados. A terceira é o Receiteria On Demand, que produz fotos, vídeos, receitas e outros conteúdos próprios para empresas.

Esse último braço já desenvolveu projetos para marcas como Quatá, Santa Helena, Kim e Sul Minas. Seu faturamento avançou quase 85% no primeiro semestre de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior.

A expansão ocorre enquanto as marcas aumentam os investimentos em canais digitais. O mercado brasileiro de publicidade digital movimentou R$ 42,7 bilhões em 2025, avanço de 12,7% em um ano, segundo o Digital Adspend 2026, estudo do IAB Brasil em parceria com o Ibope.

Para o Receiteria, a oportunidade está em oferecer às empresas não apenas um espaço publicitário, mas conteúdo conectado ao instante em que o consumidor decide o que preparar e quais ingredientes comprar.

“Nos últimos anos, as marcas deixaram de procurar somente mídia. Elas querem conteúdo proprietário, ligado ao momento de consumo”, diz Lazarini. “Nós reunimos audiência, produção editorial e conhecimento sobre comportamento alimentar.”

Da busca por receitas à venda de dados

A mesma audiência que sustenta a publicidade passou a alimentar outra frente do negócio: o Observatório Receiteria.

A iniciativa realiza pesquisas com os usuários e cruza suas respostas com sinais de navegação, tendências de busca e categorias de interesse. A proposta é produzir levantamentos sobre hábitos alimentares e mudanças no comportamento de consumo para empresas de alimentos, varejoe bens de consumo.

Segundo Lazarini, a tecnologia permite realizar pesquisas em poucas horas e identificar desde o crescimento do interesse por um ingrediente até alterações na forma como as famílias planejam as refeições.

“Conseguimos entender o comportamento da audiência dentro de determinadas categorias e gerar estudos para marcas, identificar tendências e acompanhar o que as pessoas estão procurando”.

A estratégia aproxima o Receiteria de uma empresa de inteligência de mercado. Em vez de monetizar apenas a visualização de uma página, o grupo pretende usar os sinais gerados durante a escolha de uma receita para interpretar o que pode chegar às listas de compras.

A audiência que decide o cardápio

O público do portal é formado majoritariamente por mulheres. Elas representam, segundo a empresa, cerca de 85% dos usuários e estão concentradas na faixa a partir dos 35 anos.

São pessoas que normalmente cozinham para mais de dois ou três integrantes da família e, em muitos casos, respondem pelas decisões de compra de alimentos dentro de casa.

Essa característica faz a audiência variar conforme o horário e o calendário. Os acessos aumentam antes do almoço e no começo da noite, quando os usuários decidem o que cozinhar. Aos domingos, o site chega a registrar entre 18 mil e 20 mil pessoas simultaneamente por volta das 11 horas.

A sazonalidade é ainda mais evidente no Natal. No dia 24 de dezembro, de acordo com Lazarini, o Receiteria já passou um dia inteiro com mais de 50 mil usuários simultâneos procurando pratos fora da rotina.

Ao longo de 2025, a companhia contabilizou mais de 130 milhões de visualizações e 46 milhões de pessoas alcançadas em seu ecossistema. Além do site, a operação reúne mais de 20 canais temáticos no WhatsApp. Na entrevista, Lazarini afirmou que esses canais somam aproximadamente 4 milhões de participantes, embora o Google continue sendo a principal porta de entrada.

Diminuir essa dependência é uma das prioridades. O grupo investe em redes sociais, perfis próprios, ferramentas para salvar receitas e mecanismos que estimulem a recorrência dos usuários.

Quais serão os próximos passos da empresa

A inteligência artificialganhou espaço na operação nos últimos dois anos. A empresa afirma utilizar mais de dez aplicações apoiadas pela tecnologia sobre sua base de receitas.

Os sistemas ajudam a calcular informações nutricionais, organizar avaliações, identificar tendências no Google e no TikTok, preparar roteiros e estruturar ferramentas para planejamento de cardápios. O Receiteria recebe cerca de 1.500 avaliações de receitas por dia, que também são processadas para aperfeiçoar o conteúdo.

A IA é utilizada ainda para responder a dúvidas, organizar comentários e sugerir melhorias. O limite estabelecido pela empresa está na preparação dos pratos: a tecnologia pode acelerar os processos ao redor da receita, mas não substitui o teste na cozinha.

“Já identificamos que ninguém quer consumir receitas que não foram testadas de verdade”, diz Lazarini. “A inteligência artificial entra para qualificar o conteúdo que temos, e não para eliminar a etapa humana.”

O objetivo é transformar o portal em uma plataforma usada durante toda a rotina alimentar. Entre as ferramentas em desenvolvimento estão cálculo nutricional, criação de cardápios semanais, favoritos, perfis e espaços para comentários.

“O Receiteria está deixando de ser um site em que a pessoa entra para ver uma receita e está virando um ecossistema”, afirma o sócio.

A próxima expansão, curiosamente, será fora das telas. Apesar de 95% da audiência acessar o conteúdo pelo celular, a empresa prepara seu primeiro livro impresso, previsto para o fim de 2026 ou o começo de 2027.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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