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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
04/09/2026
8 min

Como estes cearenses transformaram R$ 500 em um império do açaí com 80 lojas, fazenda e indústria

Criada a partir de um carrinho em Fortaleza, a Puro.Açaí aposta na verticalização e em uma segunda marca para chegar a novos consumidores e mercados

Como estes cearenses transformaram R$ 500 em um império do açaí com 80 lojas, fazenda e indústria

Quando o cearense Franklin Vieira começou a vender açaí em um carrinho de lanches, em Fortaleza, há 15 anos o produto ainda era uma novidade para boa parte dos consumidores da cidade. Ele tinha R$ 500 emprestados pelo irmão e uma ideia simples: vender um açaí sem o tradicional pó de guaraná. “Quando eu fiz o açaí puro, caiu na boca do povo”, lembra Vieira. O que veio depois foi uma rede de mais de 80 unidades, uma fazenda de 1.250 hectares no Pará e uma indústria própria.

A cifra de R$ 106 milhões representa o faturamento da rede de Puro.Açaí. A receita da própria companhia foi de R$ 45 milhões em 2025. Para 2026, a previsão é alcançar R$ 132 milhões na rede, chegando às 100 unidades. A diferença entre os números ajuda a explicar o modelo de negócio: além de vender diretamente ao consumidor, a Puro.Açaí fornece produtos para sua rede e vem ampliando a operação industrial.

Foi também nessa fase que Vieira conheceu Ana Paula Santos, esposa atual CEO da Puro.Açaí, então executiva de uma empresa de administração. O relacionamento pessoal acabou se transformando em sociedade. “Começamos a namorar, eu raptei ela da empresa”, brinca Vieira. Em 2012, Santos deixou o emprego e passou a trabalhar na estruturação do negócio.

A mudança aconteceu em um momento em que a empresa já recebia procura de potenciais franqueados, mas ainda não tinha estrutura para crescer.

“Financeiramente não tínhamos nem condições para abrir um ponto físico, por conta dos custos operacionais”, diz Ana Paula. Foi ela quem buscou o Sebrae para formatar o modelo de franquia, organizar os processos administrativos e transformar a operação em um negócio replicável.

Como a empresa nasceu

Antes de existir a Puro.Açaí, Vieira vendia pastéis, sucos e outros lanches em uma praça no bairro Cidade 2000, em Fortaleza. O açaí entrou no cardápio quase como um teste. O empreendedor, porém, não gostava do produto que encontrava no mercado, geralmente misturado com pó de guaraná. “Aquele tempo tinha muito pó de guaraná misturado com essas polpinhas de açaí. Então foi quando eu decidi fazer um açaí puro mesmo”, conta.

A solução foi desenvolver a própria receita. Com os R$ 500 emprestados pelo irmão, comprou as polpas e passou a testar combinações de ingredientes. A proposta era vender um açaí mais próximo do fruto e com maior concentração de sólidos. O produto ganhou clientes e o carrinho deu lugar a um quiosque em outro bairro da cidade.

“Eu consegui desenvolver várias formas. Só que eu ainda não estava bem satisfeito com as formas que eu tinha desenvolvido”, afirma Vieira. A busca pela formulação acabou criando o produto que seria a base da empresa. Depois de deixar a primeira praça, ele levou a operação para outro ponto em Fortaleza e, segundo o empreendedor, a demanda cresceu rapidamente.

O crescimento trouxe uma consequência que Vieira ainda não conhecia: interessados em abrir unidades começaram a procurá-lo. “Eu não sabia nem o que era franquia”, contou. Os primeiros franqueados entraram no negócio ainda naquele período e continuam na rede.

Foi também nessa fase que Vieira conheceu sua esposa. O relacionamento pessoal acabou se transformando em sociedade. “Começamos a namorar, eu raptei ela da empresa”, brinca Vieira. Em 2012, Santos deixou o emprego e passou a trabalhar na estruturação do negócio.

A mudança aconteceu em um momento em que a empresa já recebia procura de potenciais franqueados, mas ainda não tinha estrutura para crescer.

“Financeiramente você não tinha nem condições para abrir um ponto físico, por conta dos custos operacionais”, diz Ana Paula. Foi ela quem buscou o Sebrae para formatar o modelo de franquia, organizar os processos administrativos e transformar a operação em um negócio replicável.

A primeira estrutura de franquia foi desenvolvida com apoio do Sebrae, que subsidiava 80% do custo da formatação na época. O crescimento veio rapidamente. Segundo Vieira, a empresa chegou a franquear cerca de 20 a 25 unidades em Fortaleza antes de partir para uma nova etapa da estratégia.

Da loja à fazenda

A expansão pelas franquias levou a uma nova questão: como garantir produto suficiente e manter o padrão à medida que a rede crescia? Em 2018, Vieira decidiu levar parte da operação para o Pará. A empresa já produzia mais de 1 milhão de quilos de açaí por ano, e o empreendedor comprou uma fazenda de 1.250 hectares para instalar também uma indústria.

Hoje, a propriedade tem mais de 600 mil pés de açaí, na região do Baixo Tocantins. A empresa também mantém uma fábrica própria. A capacidade comercializada chega a 1,2 mil toneladas de açaí por ano, sem contar os demais produtos, como cremes. A indústria deve faturar R$ 23 milhões em 2026, ante R$ 20 milhões no ano anterior, segundo a companhia.

A verticalização mudou a lógica do negócio. Em vez de ser apenas uma franqueadora que compra o produto de terceiros, a Puro.Açaí passou a controlar etapas que vão do cultivo ao processamento e à distribuição. Para Ana Paula, o ganho está tanto na padronização quanto na escala.

“O aumento da demanda de produtos aumenta dentro da indústria. Isso faz com que eu tenha mais competitividade e consiga fornecer mais garantia para o meu franqueado”, afirma.

A estratégia também busca reduzir o custo do produto fornecido às lojas. “Eu reduzo mais o custo do meu produto e vou entregar um produto ainda mais barato para o meu franqueado”, diz Ana Paula. A lógica, segundo ela, é aproveitar o crescimento da indústria para ganhar escala sem criar uma concorrência direta com os próprios franqueados.

O açaí continua sendo o principal produto das unidades, responsável por cerca de 70% das vendas. Mas a rede também ampliou o portfólio para cremes, gelatos, picolés e outros itens. O açaí sem açúcar, por exemplo, vem crescendo entre 10% e 12% ao ano, segundo Ana Paula. O creme de ninho e o de cupuaçu também estão entre os produtos mais vendidos depois do açaí.

Uma segunda marca para crescer além das lojas

A próxima etapa é menos dependente do ponto físico. O grupo criou a Marana, marca voltada para atacado e varejo. A estratégia é alcançar consumidores em cidades menores e em canais nos quais o modelo tradicional da Puro.Açaí não necessariamente funciona.

A lógica é também preservar o território das franquias. Enquanto a Puro.Açaí permanece concentrada nas lojas, a Marana pode chegar a supermercados, atacadistas e distribuidores. A companhia já opera com a marca em Cascavel, no Ceará, e está estruturando uma distribuidora em São Luís, além de novas operações na região metropolitana de Fortaleza.

“A nova marca não compete com o meu franqueado. Na verdade, a nova marca é um canal a mais de venda para o meu franqueado”, afirma Ana Paula. A intenção é permitir que um mesmo operador tenha acesso a diferentes formatos de negócio e públicos. Em cidades menores, a Marana pode atingir consumidores que não necessariamente teriam uma unidade da Puro.Açaí.

O desenho permite ao grupo atacar públicos diferentes sem necessariamente colocar uma marca contra a outra. Nas cidades menores, por exemplo, a ideia é oferecer ao mesmo franqueado a possibilidade de operar os dois negócios. “Eu estou levando algo a mais para ele, um plus a mais no negócio dele”, diz Ana Paula.

Qual é o próximo passo da empresa

A internacionalização é outra frente em teste. A companhia já abriu uma distribuidora em Lisboa, em Portugal, para comercializar os produtos da Marana e também exportar a Puro.Açaí. A entrada no mercado europeu será feita com uma proposta diferente da utilizada no Nordeste: posicionar o produto como uma espécie de superfood, explorando atributos como composição e origem.

A escolha do posicionamento parte de uma diferença entre os mercados. No Nordeste, onde o consumo de açaí está associado a complementos como leite em pó, cupuaçu, granola e castanhas, a marca cresceu ligada ao hábito de consumo local. Em Portugal, a aposta será apresentar o produto pela composição e pela origem.

“Eu vou entrar com puro açaí, que é um produto muito mais sem conservante, sem lactose. É um produto muito mais puro”, afirma Vieira. A empresa pretende trabalhar esse argumento para conquistar espaço no varejo português, inclusive com uma versão destinada ao público infantil.

A expansão internacional também é uma extensão da estratégia de verticalização construída no Brasil. “Nós selecionamos os nossos produtos, nós produzimos o nosso produto, nós mandamos a logística com o nosso produto. Então, assim, nós temos a cadeia completa, a gente tem a verticalização feita”, diz Ana Paula.

Para chegar a 100 lojas, porém, o modelo continuará dependendo das franquias. O investimento estimado para uma unidade de rua parte de R$ 150 mil, enquanto uma loja de shopping exige cerca de R$ 180 mil, incluindo a taxa de franquia. Segundo a companhia, as unidades têm margem líquida de 19% a 21% e payback estimado em 18 meses. As lojas de rua empregam, em média, cinco funcionários; as de shopping, quatro.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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