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InvestMercadosACS
20/10/2026
7 min

Como Ibovespa e dólar reagiram à vitória de Lula em 2022?

Bolsa subiu e dólar caiu após os dois turnos de 2022, mas incertezas fiscais pesaram o cenário

Como Ibovespa e dólar reagiram à vitória de Lula em 2022?

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais de 2022 foi acompanhada de fortes oscilações no mercado brasileiro. Apesar das incertezas sobre a política econômica do novo governo, o primeiro pregão após a confirmação do resultado terminou com o Ibovespa em alta e o dólar em queda.

Em 31 de outubro daquele ano, um dia após o segundo turno, o Ibovespa avançou 1,31%, aos 116.037 pontos, enquanto a moeda americana recuou 2,54%, para R$ 5,16. O resultado veio depois de uma sessão marcada por forte volatilidade e perdas expressivas das ações de estatais, como Petrobras (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3).

A reação positiva, porém, não começou com a vitória de Lula. Quatro semanas antes, no primeiro pregão após a votação de 2 de outubro, o Ibovespa havia registrado sua maior valorização diária em mais de dois anos, enquanto o dólar despencou mais de 4%.

1º turno: Ibovespa dispara 5,54% e dólar cai mais de 4%

O primeiro turno das eleições presidenciais aconteceu em 2 de outubro de 2022. Lula terminou à frente, com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Bolsonaro, segundo os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A diferença entre os dois candidatos foi menor do que a indicada por parte das pesquisas eleitorais. Além disso, o desempenho de políticos de direita e centro-direita nas eleições para o Congresso surpreendeu investidores.

Na segunda-feira, 3 de outubro, o mercado respondeu com uma forte valorização dos ativos brasileiros.

O Ibovespa saltou 5,54%, aos 116.134 pontos, na maior alta diária desde abril de 2020. O dólar comercial, por sua vez, caiu 4,09%, encerrando o pregão a R$ 5,174, também em um dos movimentos mais expressivos do câmbio naquele ano.

A interpretação predominante entre analistas era de que um Congresso mais conservador poderia funcionar como contrapeso a políticas de expansão dos gastos públicos em uma eventual administração petista.

À época, durante um "morning call" realizado após o primeiro turno, Jerson Zanlorenzi, então head da mesa de ações e derivativos do BTG Pactual, do mesmo grupo controlador da EXAME, avaliou que o desempenho dos aliados de Bolsonaro no Congresso havia animado os investidores.

O economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, também avaliou que a composição do Congresso poderia limitar iniciativas de expansão fiscal de um eventual governo Lula.

A reação foi especialmente intensa entre as estatais, e as ações preferenciais da Petrobras (PETR4) avançaram 7,99%, enquanto os papéis ordinários da companhia (PETR3) subiram 8,86%. O Banco do Brasil (BBAS3) ganhou 7,63%.

O capital estrangeiro também ajudou a sustentar o movimento. Segundo dados da B3 divulgados pela EXAME, investidores internacionais colocaram, aproximadamente, R$ 2,4 bilhões líquidos em ações brasileiras no primeiro pregão após a votação.

Entre os dois turnos, cautela voltou a dominar o mercado

O entusiasmo inicial, todavia, não eliminou a volatilidade das semanas seguintes. Com a aproximação do segundo turno, marcado para o dia 30 de outubro de 2022, os investidores passaram a reduzir posições e buscar proteção contra possíveis oscilações.

Embora o mercado acompanhasse as pesquisas eleitorais, também pesavam nos negócios a trajetória dos juros americanos, o desempenho das commodities e as preocupações com a atividade econômica chinesa.

Na última semana antes da votação, o Ibovespa acumulou queda de cerca de 4,5%, enquanto o dólar avançou quase 3%. Na sexta-feira, 28 de outubro, último pregão antes da decisão presidencial, o índice fechou aos 114.539 pontos, com leve recuo de 0,09%. O dólar terminou próximo de R$ 5,30.

A vitória de Lula ainda era considerada o cenário mais provável por parte do mercado, mas persistiam dúvidas sobre a composição de seu governo e o futuro dapolítica fiscal.

2º turno: vitória de Lula derruba estatais, mas bolsa fica em alta

Lula venceu o segundo turno realizado em 30 de outubro de 2022com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro. Foi uma das disputas presidenciais mais apertadas da história brasileira.

A primeira reação dos mercados, na segunda-feira seguinte, foi negativa. O Ibovespa abriu em queda, pressionado principalmente por ações de companhias estatais, e chegou a recuar 2,12% durante o pregão. O dólar também começou o dia em forte valorização, chegando a ser negociado a R$ 5,409.

Mas ao longo das negociações o cenário mudou, com os investidores passando a considerar a possibilidade de uma transição de governo sem grandes rupturas e de uma equipe econômica mais moderada.

A perspectiva de participação de Geraldo Alckmin, vice-presidente eleito, na coordenação da transição contribuiu para essa leitura. O Ibovespa reverteu as perdas e encerrou o dia com alta de 1,31%, aos 116.037,08 pontos, segundo dados da B3.

O dólar também virou para o terreno negativo e fechou em queda de 2,54%, cotado a R$ 5,165.

Só que as ações preferenciais da Petrobras (PETR4) despencaram 8,47%, refletindo o temor de mudanças na política de preços dos combustíveis e na estratégia da companhia. O Banco do Brasil (BBAS3) recuou 4,64%.

Companhias ligadas ao consumo doméstico, como turismo e educação, foram beneficiadas, por outro lado, pelas expectativas de políticas voltadas ao aumento da renda e à ampliação do crédito. A CVC (CVCB3) avançou 9,63%, enquanto a Alpargatas (ALPA4) subiu 9,04%.

No acumulado de outubro, o Ibovespa avançou 5,45%, de acordo com dados da B3, enquanto o dólar caiu 4,24%.

Após a eleição, preocupações fiscais voltaram a pressionar a bolsa

O alívio observado no primeiro pregão após a eleição não durou sem interrupções. Conforme a transição avançava, os investidores passaram a acompanhar mais de perto a possibilidade de ampliação dos gastos públicos, as mudanças nas regras fiscais e os nomes cotados para comandar a economia.

Declarações de Lula questionando a prioridade dada à responsabilidade fiscal, somadas às discussões sobre gastos fora do teto e à participação do ex-ministro Guido Mantega na equipe de transição, provocaram forte reação negativa nos ativos brasileiros.

No dia 10 de novembro de 2022, o Ibovespa caiu 3,35%, aos 109.775 pontos, enquanto o dólar comercial disparou 4,14%, encerrando o pregão a R$ 5,397; movimento na contramão das bolsas americanas, que registravam fortes ganhos após a divulgação de dados de inflação abaixo das expectativas nos Estados Unidos.

As preocupações continuaram nas semanas seguintes, especialmente em torno da chamada Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Transição, proposta para abrir espaço no Orçamento de 2023, e da escolha do futuro ministro da Fazenda.

O Ibovespa terminou novembro com queda acumulada de 3,1% e voltou a recuar em dezembro, quando perdeu 2,45%.

Como Ibovespa e dólar fecharam 2022?

Apesar das oscilações provocadas pelas eleições e pela transição presidencial, o mercado brasileiro terminou 2022 com um saldo positivo para a bolsa e de desvalorização da moeda americana.

No último pregão do ano, em 29 de dezembro, o Ibovespa fechou aos 109.734,60 pontos, acumulando valorização de 4,69% em 2022, segundo as estatísticas históricas da B3.

Já o dólar comercial terminou o período cotado a R$ 5,2860, registrando queda de 6,96% no ano.

O saldo positivo do Ibovespa contrastou com o desempenho negativo de importantes bolsas internacionais, pressionadas pelo avanço da inflação global, pela elevação dos juros americanos e pelos impactos econômicos da guerra na Ucrânia.

No Brasil, a entrada de recursos estrangeiros e o desempenho das empresas ligadas a commodities contribuíram para sustentar parte dos ganhos do índice ao longo do ano. Já a trajetória dos ativos entre outubro e dezembro mostra como o humor dos investidores mudou após as eleições.

Do fechamento do primeiro pregão após a vitória de Lula até o encerramento de 2022, o Ibovespa perdeu cerca de 5,4%, enquanto o dólar voltou a subir em torno de 2,2%.

*Com informações de agências e de reportagens publicadas anteriormente pela EXAME.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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