Como investir em renda fixa e ações agora que o Copom parou de cortar juros
Com a Selic mantida em 13,75%, especialistas apontam oportunidades e divergências sobre investimentos

O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 13,75% ao ano na quarta-feira, 4, interrompendo uma sequência de cinco cortes consecutivos. Com os juros ainda elevados, especialistas ouvidos pela EXAME apontam oportunidades na renda fixa pós-fixada, mas divergem sobre o momento de investir em ações.
Enquanto alguns recomendam aplicações de menor risco, outros defendem manter a bolsa na carteira, priorizando empresas sólidas e boas pagadoras de dividendos.A decisão do Banco Central de interromper a redução da taxa básica confirmou a expectativa predominante no mercado após as eleições. A manutenção ocorreu em meio à piora das projeções de inflação, à desvalorização do real e às incertezas sobre a condução das contas públicas nos próximos anos.
O que muda para os investimentos após o Copom?
Para o estrategista de investimentos do Santander, Arley Matos da Silva Júnior, a manutenção dos juros já era o cenário esperado pelo departamento econômico da instituição. Mas a decisão não elimina oportunidades, ao invés, reforça a necessidade de acompanhar os indicadores econômicos e seus efeitos sobre os mercados.
O Santander considera que a renda variável continua relevante em uma carteira diversificada, principalmente para investidores de longo prazo. A estratégia exige disciplina e exposição compatível com o perfil de risco de cada pessoa, "especialmente para investidores com horizonte de longo prazo."
Raphael Figueredo, estrategista de ações da XP, também avalia que os juros elevados não devem levar o investidor a abandonar a bolsa. O mercado brasileiro reúne companhias capazes de apresentar bons resultados mesmo em períodos de política monetária restritiva.
O especialista ressalta que o efeito de uma mudança pontual na Selic é limitado diante das incertezas fiscais. Antes da decisão, ele avaliava que até mesmo uma redução de 0,25 ponto percentual teria impacto marginal sobre os preços dos ativos.
A preocupação do mercado é econômica diante do próximo governo.
Além do patamar nominal da taxa básica, o Brasil continua apresentando juros reais elevados. Segundo levantamento da MoneYou e da Lev Intelligence divulgado pela EXAME na quarta-feira, 4, o país permanece na liderança do ranking mundial de juros reais, com taxa estimada de 9,05%, descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses.
Renda fixa pós-fixada continua atrativa após o Copom?
Com os juros mantidos em patamar elevado, investimentos atrelados à Selic e ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), como Tesouro Selic, Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e fundos DI, continuam oferecendo remuneração atrativa.
O CEO do Bradesco Asset, Bruno Funchal, apresenta uma das avaliações mais conservadoras entre os entrevistados. Para ele, a pressão sobre os juros futuros e a falta de sinalizações fiscais consistentes devem continuar favorecendo a procura por aplicações de menor risco.Ao comentar o cenário anterior à decisão, Funchal destacou a preferência dos investidores pela remuneração oferecida pela renda fixa, especialmente por produtos que acompanham o CDI.
A estratégia consiste em aproveitar o rendimento acumulado dessas aplicações ao longo do tempo, sem depender de uma valorização das ações. Algo que a BB Asset compartilha, avaliando favoravelmente aos pós-fixados.
A instituição destaca que essas aplicações oferecem uma combinação interessante de rentabilidade, liquidez e menor oscilação, mesmo diante da possibilidade de mudanças futuras na política monetária. "Os investimentos pós-fixados, que acompanham a Selic, permanecem como uma alternativa interessante para liquidez e menor oscilação", diz.
A atratividade desses produtos depende, no entanto, das condições de cada aplicação. O Tesouro Selic oferece liquidez diária em dias úteis, enquanto CDBs e outros títulos bancários podem ter prazos de carência ou permitir o resgate apenas no vencimento.
Artur Horta, head de análise da GTF Capital, por exemplo, também considera o CDI uma das principais alternativas diante da manutenção dos juros restritivos. Para o especialista, a renda fixa pós-fixada deve continuar oferecendo rendimentos acima da inflação. "Então faz muito sentido ter CDI na carteira", afirma Horta.
Tesouro IPCA+ e prefixados ainda valem a pena?
Além dos pós-fixados, os títulos indexados à inflação continuam oferecendo taxas consideradas interessantes. No entanto, os especialistas alertam que essas aplicações exigem atenção ao prazo e à possibilidade de venda antes do vencimento.
A BB Asset destaca que os papéis ligados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) permitem proteger o poder de compra ao longo do tempo, mas os vencimentos mais longos são particularmente sensíveis às expectativas fiscais, à inflação e aos juros internacionais.
Nos títulos do Tesouro IPCA+, o investidor contrata uma remuneração composta pela variação da inflação mais uma taxa real. Se mantiver o papel até o vencimento, nas condições contratadas, preserva essa remuneração. Entretanto, o valor de mercado do investimento pode oscilar significativamente ao longo do período.
Esse movimento ocorre por causa da marcação a mercado. Quando as taxas exigidas pelos investidores sobem, o preço dos títulos já emitidos tende a cair. Quando recuam, o valor desses papéis tende a subir.
A volatilidade ficou evidente depois das eleições, com a disparada dos juros futuros provocando fortes oscilações nos preços do Tesouro Direto e interrupções temporárias nas negociações.
Horta, da GTF, considera que os títulos indexados à inflação podem ajudar na diversificação, mas adota uma postura mais restritiva em relação aos prefixados.A falta de visibilidade sobre quando a taxa básica voltará a cair reduz a atratividade de assumir esse risco agora.
"Mas no momento eu ficaria fora dos pré-fixados porque a gente não tem expectativa de novas quedas da Selic no futuro, a gente não consegue ver à frente quando é que a Selic vai cair", afirma Horta.
Isso não significa que os prefixados deixaram de oferecer taxas elevadas. Em outubro, os títulos públicos prefixados com vencimento em 2031 chegaram a apresentar taxas de 15,79% ao ano em leilões do Tesouro Nacional. O desafio é avaliar se o investidor consegue manter a aplicação até o vencimento.
Vale a pena investir em ações após a decisão do Copom?
Se existe convergência entre as recomendações de renda fixa, o mesmo não acontece com a bolsa de valores. As fontes divergem sobre o momento de aumentar a exposição às ações brasileiras, principalmente diante dos juros elevados e das incertezas econômicas.
Para Raphael Figueredo, estrategista de ações da XP, vale a pena manter investimentos em renda variável independentemente da reunião do Banco Central, pois as ações representam participação em negócios reais que podem repassar parte dos efeitos da inflação aos preços e preservar a capacidade de geração de resultados.
Na avaliação do estrategista, empresas com alta qualidade operacional, baixa alavancagem e dividendos consistentes podem oferecer retornos atrativos ao longo dos anos, mesmo em cenários de juros elevados.
O Santander também considera que a bolsa continua tendo espaço nas carteiras. Matos da Silva Júnior destaca que o investimento deve ser orientado pelo longo prazo, com diversificação e escolha de empresas capazes de atravessar diferentes ciclos econômicos.
Bruno Funchal, do Bradesco Asset Management, apresenta uma visão mais pessimista sobre a demanda por ações no atual ambiente. Antes do anúncio do Copom, o executivo afirmou que a remuneração elevada da renda fixa e a preferência por menor risco deveriam limitar o interesse.
A bolsa brasileira chega a esse momento depois de um período de forte volatilidade. Em outubro, apenas 12 das 76 ações que compõem o Ibovespa encerraram o mês com valorização, segundo levantamento da EXAME. As perdas foram especialmente expressivas entre empresas mais sensíveis aos juros e ao desempenho da economia doméstica.
Eleven e UBS recomendam cautela com a bolsa brasileira
Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, considera que a decisão pontual do Copom tem pouco potencial para alterar o desempenho das ações. Para ele, o mercado já havia incorporado a expectativa de manutenção dos juros, enquanto o resultado das eleições e a perspectiva de condução da política econômica passaram a exercer maior influência sobre os preços.
"Nossa visão é que, neste momento, com os juros mais altos, o real se depreciando e uma incerteza um pouco maior do que o normal sobre a política econômica nos próximos anos, faz mais sentido os investidores serem um pouco mais cautelosos na Bolsa", explica Siqueira.
Já Ronaldo Patah, estrategista de investimentos para Brasil no UBS GWM, apresenta uma avaliação mais cautelosa. A instituição deixou de recomendar uma exposição acima da referência às ações brasileiras, diante das incertezas fiscais e da perspectiva de juros reais elevados por mais tempo.
"Removemos a posição overweight em ações brasileiras", afirma Patah. Isto, é o UBS reduziu seu otimismo com a bolsa brasileira, mas isso não significa uma recomendação de vender todas as ações. O banco prefere aguardar maior clareza sobre a política econômica antes de reavaliar sua posição.
A instituição considera que a perspectiva política após as eleições enfraqueceu fatores que anteriormente sustentavam uma visão mais favorável ao mercado acionário, como queda dos juros reais, recuperação da confiança e crescimento mais sustentável dos lucros.
A cautela já aparecia em análise do UBS divulgada após a reeleição de Lula, que apontava a necessidade de medidas fiscais concretas para recuperar a confiança dos investidores.
Queda das ações pode abrir oportunidades de compra?
Apesar do ambiente desafiador, a forte desvalorização recente da bolsa também é vista como uma possível oportunidade para investidores com capacidade de assumir risco e horizonte mais longo. A BB Asset considera que a queda dos preços pode ter criado uma janela de entrada em ações.
No entanto, a gestora ressalta que a decisão não deve depender apenas do resultado de uma reunião do Copom, mas da qualidade das empresas, da capacidade de gerar resultados e do prazo de investimento."Em um ambiente de maior incerteza, tanto local quanto internacional, a melhor estratégia continua sendo uma carteira diversificada, construída de forma gradual e compatível com o perfil de risco de cada investidor e de cada objetivo de vida", afirma a BB Asset.
O diretor de investimentos da Suno Consultoria, João Arthur Almeida, também reconhece que a queda da bolsa tornou os preços de diversos ativos mais interessantes. Entretanto, prefere empresas com balanços sólidos e capacidade de atravessar períodos turbulentos.
A distinção é importante porque ações que caíram muito não necessariamente representam boas oportunidades. É preciso avaliar se a desvalorização decorre de um movimento generalizado do mercado ou de uma deterioração dos fundamentos da companhia.
Quais ações podem resistir melhor aos juros elevados?
Embora os especialistas divirjam sobre a intensidade da exposição à bolsa, existe uma convergência importante na escolha das empresas: a preferência por negócios financeiramente sólidos, com baixo endividamento, geração consistente de caixa e capacidade de enfrentar um ambiente econômico mais restritivo.
Para Arley Matos da Silva Júnior, do Santander, empresas resilientes devem continuar no radar. O estrategista também destaca exportadoras e companhias com receitas dolarizadas como alternativas de diversificação, por reduzirem a dependência exclusiva do desempenho da economia brasileira.
Na XP, Raphael Figueredo destaca especialmente os setores financeiro e de utilidade pública. Segundo ele, a combinação de lucros consistentes, valorização das ações e distribuição de dividendos pode permitir retornos competitivos mesmo em períodos de juros elevados.
Siqueira, da Eleven, adota uma abordagem com maior destaque para exportadoras. Entre os segmentos observados estão papel e celulose, siderurgia, mineração e algumas empresas industriais. O estrategista também menciona o setor de petróleo.
Além disso, Siqueira recomenda atenção a companhias defensivas, principalmente do setor elétrico e de consumo, como a Ambev (ABEV3), que podem apresentar maior resistência a um cenário econômico adverso.
Essa estratégia se relaciona à avaliação de especialistas sobre quais ações podem sofrer mais ou resistir melhor com a perspectiva de juros elevados após as eleições. Empresas exportadoras e seguradoras aparecem entre as alternativas consideradas mais defensivas.
O que pode mudar se a Selic voltar a cair?
Mesmo com a interrupção dos cortes, a possibilidade de retomada da flexibilização monetária permanece relevante para os investimentos. O efeito de uma nova redução, porém, dependerá das condições econômicas que sustentarem a decisão.
Na XP, Raphael Figueredo considera que um ajuste pontual de 0,25 ponto percentual na próxima reunião teria efeito limitado sobre o mercado, já que os juros continuariam em nível restritivo. Para o estrategista, as definições fiscais terão influência mais significativa sobre o desempenho dos ativos.
O desempenho recente da bolsa reforça a importância de observar fatores além da política monetária. Nessa quarta-feira, o Ibovespa encerrou o pregão em alta de 1,23%, aos 167.563,47 pontos, impulsionado pelo ambiente externo mais favorável.
O fechamento ocorreu antes da divulgação da decisão do Banco Central.
