Como o 11 de setembro mudou a forma que o dinheiro circula no mundo
Patriot Act, KYC, FATCA e novas ferramentas de monitoramento transformaram bancos em parte da engrenagem de controle financeiro dos EUA

O 11 de Setembro mudou a história dos Estados Unidos e também mudou a história do dinheiro. Os ataques de 2001 paralisaram Wall Street e deram impulso a uma transformação que se espalharia pelo sistema financeiro global: bancos e governos passaram a acompanhar de muito mais perto quem movimentava recursos, de onde eles vinham e para onde iam.
A advogada Fabíola Bueno, diretora-executiva da The Group Research e especialista em mobilidade e planejamento internacional,estava em Nova York naquele dia. Então Investment banker do Credit Suisse, ela trabalhava em um prédio próximo ao Flatiron Building, em Manhattan, quando viu o segundo avião atingir o World Trade Center.
Primeiro, ela recebeu a informação de que havia acontecido um acidente e subiu para olhar. Na segunda colisão, porém, a dúvida acabou. O calor daexplosão chegou ao vidro do prédio onde trabalhava. Uma pessoa ao seu lado desmaiou. Depois vieram a poeira e os papéis que voavam pelas ruas.
"Os papéis começaram a cair, aqueles papéis que pareciam flocos de neve", relembra. Para Fabíola, que trabalhava justamente com informações e relatórios de mercado, aquela imagem ganhou um significado particular. "Meu Deus, olha todo o meu trabalho aí. Eu trabalho com isso".
O mercado financeiro, naquele momento, também parou. Wall Street não abriu naquele 11 de setembro. As bolsas de Nova York só retomaram os negócios na segunda-feira, 17, uma semana depois dos ataques. No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo encerrou o pregão depois de apenas uma hora e quinze minutos, com queda de 9,17%. O dólar comercial subiu 2,03%, para R$ 2,66, então um recorde do Plano Real.
Quando os mercados americanos voltaram, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq registraram quedas de 14,1%, 11,6% e 16%, respectivamente, na semana dos ataques. O sistema financeiro precisou, antes de tudo, recuperar a capacidade de funcionar.
Fabíola lembra que, mesmo com o mercado fechado, havia uma preocupação entre os profissionais de Wall Street de que era preciso fazer o mercado voltar a existir. Havia compradores e vendedores, mas a confiança havia desaparecido. "Se não está ninguém lá, não tem quem compra e quem vende, não tem mercado. Acabou. Essa responsabilidade de fazer o mercado existir", diz.
A retomada, segundo ela, não foi instantânea. Na sua percepção, levou cerca de um mês para que a operação voltasse à velocidade anterior. E aquele período também expôs uma característica que hoje parece distante: boa parte do mercado ainda dependia fisicamente de pessoas, papéis e estruturas que poderiam ser interrompidas por um evento como aquele. A partir dali, porém, a transformação não ficou restrita ao pregão.
O banco deixou de olhar apenas para o dinheiro
Antes dos atentados, explica Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos, o papel tradicional do banco era relativamente simples: captar recursos de quem tinha dinheiro e emprestar para quem precisava. "Rastrear a origem do dinheiro não era uma função central do banco", afirma.
Isso não significa que o combate à lavagem de dinheiro nasceu em 2001. Os Estados Unidos já tinham desde 1970 o Bank Secrecy Act, que criou obrigações de registro e comunicação de informações financeiras. Ao longo das décadas seguintes, outras leis ampliaram esse arcabouço. Mas o que mudou depois do 11 de Setembro foi a escala e a prioridade dada ao financiamento do terrorismo.
Os terroristas que realizaram os ataques haviam utilizado o sistema financeiro para movimentar recursos que, em boa parte, chegaram aos EUA por canais aparentemente legais. A conclusão para o governo americano foi que seguir o dinheiro poderia ser tão importante quanto seguir armas, pessoas ou comunicações.
Cerca de um mês e meio depois dos ataques, os Estados Unidos aprovaram o USA PATRIOT Act, a Lei Patriota dos estadunidenses.
O Título III da lei, dedicado ao combate à lavagem de dinheiro e aofinanciamento do terrorismo, reforçou a identificação de clientes, ampliou as exigências de diligência sobre determinados relacionamentos bancários e aumentou o compartilhamento de informações entre instituições financeiras e governo.
Além disso, criou mecanismos para dificultar o acesso de bancos estrangeiros considerados problemáticos ao sistema financeiro americano. Na avaliação de Davi, o banco ganhou uma segunda função.
Além de intermediar o dinheiro, passou a ajudar a identificar de quem era aquele dinheiro, qual era sua origem e se havia algo suspeito na operação.
O conceito que hoje parece banal, o KYC, Know Your Customer, ou “conheça seu cliente” na tradução literal, ganhou centralidade nessa arquitetura. Na prática, uma conta bancária passou a exigir muito mais do que nome e assinatura, mas identidade, endereço, documentação, origem dos recursos e, em determinadas estruturas, o beneficiário final passaram a fazer parte da análise.
"O dinheiro que circulava livre antes começou a ter que se identificar, passar por esse raio-X, por esse detector", afirma Lelis. O especialista e sócio da Valor Investimentos observa que o movimento acabou criando um padrão global e elevando as "réguas e os níveis de segurança" do sistema financeiro.
"É como no aeroporto", compara. "Antes você simplesmente entrava no avião. Depois vieram o raio-X, a revista, o controle de identidade".
O dólar virou uma infraestrutura de vigilância
Essa transformação ganhou alcance global porque havia uma infraestrutura que nenhum outro país controlava da mesma maneira: o dólar. Juliana Benvenuto, coordenadora de Allocation e Intelligence da Avenue, afirma que o 11 de Setembro alterou estruturalmente a relação entre a moeda americana e o sistema financeiro internacional.
O que os ataques fizeram, de acordo com a especialista, foi mostrar ao governo americano que a posição central do dólar poderia ser usada também como instrumento de monitoramento.
Um dos pontos centrais foi o acesso a informações financeiras internacionais. Benvenuto destaca o papel do SWIFT, sistema de mensagens utilizado pelos bancos para comunicar transações. Ele já existia antes do 11 de setembro, o que mudou foi a intensidade com que os mecanismos financeiros passaram a ser utilizados para rastrear fluxos e combater o financiamento do terrorismo.
"Esse programa, batizado de Terrorist Finance Tracking Program, começou dias depois dos ataques e segue ativo até hoje", afirma a especialista da Aveue.
A lógica se tornou especialmente poderosa porque uma transação em dólar nem sempre precisa acontecer entre uma instituição americana e outra instituição americana para entrar no alcance do sistema financeiro dos Estados Unidos. Muitas operações internacionais passam por bancos correspondentes nos EUA. Com isso, uma operação entre duas instituições estrangeiras pode, dependendo da estrutura usada, passar pelo sistema financeiro americano.O Patriot Act reforçou justamente essa capacidade. A legislação deu ao Tesouro americano instrumentos para exigir informações, impor medidas especiais e restringir o acesso ao sistema financeiro dos EUA de instituições e jurisdições consideradas de alto risco para lavagem de dinheiro.
Na prática, acessar o sistema financeiro americano passou a exigir que instituições de outros países também cumprissem padrões de transparência e controle e o efeito foi além do território americano.
Sigilo bancário passou a ficar 'cada vez mais raro'
A mudança chegou ao cotidiano de quem nunca teve qualquer relação com terrorismo ou lavagem de dinheiro. Abrir uma conta, fazer uma transferência internacional ou estabelecer uma relação bancária passou a exigir mais documentos e mais explicações. Osbancos também passaram a perguntar de onde vinha o dinheiro, quem era o beneficiário final de uma estrutura e qual era a finalidade de determinada operação.
O resultado foi uma combinação que define o sistema financeiro atual com mais controle e mais tecnologia para processar esse controle.
Essa lógica se aprofundou ainda mais com a criação, em 2010, do O FATCA, Foreign Account Tax Compliance Act, que é uma lei dos EUA criada para evitar que cidadãos americanos evadam impostos usando contas e investimentos no exterior.
"Os bancos estrangeiros passaram a ter dois caminhos: aderir às exigências de transparência americanas ou perder acesso ao próprio sistema financeiro em dólar. A maioria dos países optou por assinar acordos bilaterais de troca de informação tributária com o Tesouro americano", afirmou Benvenuto.
"E as exigências foram ficando mais rígidas também em relação à origem do dinheiro e a quem é o beneficiário final de cada operação. O sigilo bancário, como a gente conhecia, foi ficando cada vez mais raro depois de 2001".
Depois da crise financeira de 2008, do subprime, os mecanismos de monitoramento das operações se tornaram ainda mais sofisticados. As questões como negociação de alta frequência e manipulação de mercado passaram a ser acompanhadas com ferramentas tecnológicas capazes de observar um volume de transações impossível de ser monitorado apenas por pessoas.
A pandemia, anos depois, consolidou ainda mais a dependência de processos digitais, de acordo com Bueno. "O mercado ficou menos dependente de papel e de estruturas físicas justamente quando passou a produzir uma quantidade muito maior de informação sobre cada operação".
25 anos depois: o dinheiro passou a carregar mais informação
Vinte e cinco anos depois, a mudança provocada pelo 11 de Setembro pode ser vista em uma operação banal.
Uma pessoa abre uma conta, apresenta documentos, informa endereço, explica a origem do patrimônio. Enquanto, do outro lado, o banco verifica o beneficiário final de uma empresa, um sistema cruza nomes com listas de sanções e uma transferência internacional passa por diferentes instituições antes de chegar ao destino. Quase tudo isso parece rotina.
Mas a rotina é resultado de uma transformação iniciada — ou, mais precisamente, acelerada — depois de setembro de 2001.
"Estamos num mundo conectado e um mundo mais frágil do ponto de vista de sigilo. Isso pode ser usado pelo governo para fazer políticas. É uma questão de saber quem está ali monitorando. Nenhuma câmera na rua identificando a nossa cara pode ser usada para o bem, pode ser usada para o mal", afirma a diretora-executiva da The Group Research e especialista em mobilidade e planejamento internacional.
Para a coordenadora de Allocation e Intelligence da Avenue, o efeito mais importante foi transformar o dólar em algo maior do que uma moeda de reserva ou meio de pagamento. A moeda americana passou a ser também uma ferramenta de política externa.
"Isso reacendeu o debate sobre desdolarização, mas vale contextualizar. A participação do dólar nas reservas internacionais caiu de cerca de 65% em 2016 para algo perto de 57% hoje. Parte dessa queda é real, mas parte também é efeito de variação cambial na conversão dos dados. Até agora, nenhuma moeda tem a liquidez e a profundidade de mercado necessárias para substituir o dólar em escala global".
