Como o agro virou moeda de troca nas negociações entre Trump e o Irã

O agronegócio dos Estados Unidos ganhou protagonismo nas negociações diplomáticas entre Washington e o Irã, em meio às tratativas para um possível acordo envolvendo o fim das tensões entre os dois países.
Segundo informações da Progressive Farmer, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou que a gestão de Donald Trump defende o uso de recursos iranianos atualmente congelados no exterior para a compra de produtos agrícolas americanos, como soja, trigo e milho. A ideia teria sido sugerida por Jared Kushner, genro de Trump.
Durante coletiva de imprensa na Suíça, Vance disse que a proposta poderia beneficiar tanto produtores rurais americanos quanto a população iraniana. O Irã tem bilhões de dólares em ativos congelados em diferentes países, incluindo cerca de US$ 6 bilhões mantidos no Catar, segundo informou o Wall Street Journal.
“Se os ativos iranianos forem descongelados, isso enriquecerá os agricultores americanos e ajudará a alimentar o povo iraniano”, afirmou o vice-presidente, segundo a publicação.
O presidente Donald Trump também declarou apoio à proposta, segundo o jornalista Dan Mangan, da CNBC.
Em conversa com repórteres, ele afirmou que eventuais recursos liberados em um memorando de entendimento entre os dois países seriam direcionados à compra de alimentos dos Estados Unidos.
“Os alimentos serão comprados exclusivamente dos Estados Unidos, de nossos agricultores. Milho, soja, tudo o que eles precisarem será comprado de nossos agricultores”, disse Trump. “Então, nossos agricultores estão muito felizes”.
Trump também afirmou que o Irã deveria utilizar eventuais receitas do petróleo para compra de alimentos, e não para fins militares.
A discussão ocorre em um momento de pressão sobre o setor agrícola americano. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) projeta que os custos de produção no país podem atingir níveis recordes até 2027.
Além disso, tarifas comerciais e tensões com a China contribuíram para a perda de espaço da soja americana no mercado global, com aumento das compras chinesas de fornecedores como Brasil e Argentina.
Segundo dados da American Farm Bureau Federation, os pedidos de falência no agronegócio dos EUA cresceram 46% em 2025 na comparação com o ano anterior.
Apesar das declarações americanas, autoridades iranianas negam qualquer obrigação de direcionar compras agrícolas aos Estados Unidos.
O governador do Banco Central do Irã, Abdolnaser Hemmati, afirmou à agência Tasnim que os acordos firmados não impõem restrições desse tipo. “Com base nas notas assinadas, não há obrigação de comprar insumos agrícolas dos EUA”, disse.
Agro dos EUA
Os Estados Unidos mantêm exportações agrícolas limitadas para o Irã há mais de duas décadas. O pico ocorreu em 2008, quando as vendas somaram cerca de US$ 593 milhões. Em 2018, o Irã importou US$ 318 milhões em soja americana.
Desde então, o comércio perdeu força. Hoje, o Brasil ocupa posição central no fornecimento de grãos ao Irã, especialmente milho.
Em 2025, o país se consolidou como principal destino do milho brasileiro, respondendo por cerca de 22% das exportações do cereal. O mercado iraniano importou aproximadamente 9 milhões de toneladas de milho, movimentando cerca de US$ 3 bilhões.
Em meio às negociações, na terça-feira, 23, o Senado dos EUA aprovou uma medida que determina que Trump suspenda as ações militares contra o Irã ou busque autorização prévia do Congresso para dar continuidade ao conflito.
Apesar da aprovação, a resolução tem caráter majoritariamente simbólico. Mesmo após aval das duas Casas legislativas, o texto não será encaminhado à Casa Branca para sanção presidencial e, portanto, não possui força de lei.
A proposta foi aprovada por 50 votos a 48, com apoio de alguns senadores republicanos que se uniram à bancada democrata. Em resposta, o presidente criticou a iniciativa na noite de terça-feira, classificando a resolução como “inoportuna e sem sentido”.
