Como o dono do Spoleto e Casa do Pão de Queijo chegou a R$ 2,4 bilhões e cresce acima do mercado

O setor de restaurantes vive um momento curioso. O faturamento continua crescendo, mas cada vez menos impulsionado pelo aumento do número de clientes. Em 2025, o food service brasileiro movimentou 223,5 bilhões de reais, recorde histórico, mas esse avanço veio principalmente pelo aumento do ticket médio. No mesmo período, o número de visitas aos estabelecimentos caiu 5%, segundo a pesquisa CREST, do Instituto Foodservice Brasil (IFB).
Na contramão desse movimento, o Grupo Trigo, holding por trás de Spoleto, China in Box, Gendai, Gurumê e Casa do Pão de Queijo, fechou 2025 com 2,43 bilhões de reais em faturamento do ecossistema, alta de 11% sobre o ano anterior.
O valor inclui tanto as receitas próprias da companhia quanto as vendas realizadas pelos restaurantes franqueados e reforça o tamanho da operação. A empresa afirma também ter ampliado faturamento e número de transações nas mesmas lojas, desempenho acima dos indicadores acompanhados pelo IFB.
O resultado marca uma nova fase para a companhia. Depois de consolidar aquisições importantes nos últimos anos, o grupo concentra esforços na integração da Casa do Pão de Queijo, inicia um novo ciclo de expansão nos Estados Unidos e amplia investimentos em tecnologia e dados para extrair mais receita da base atual de clientes, em vez de depender apenas da abertura de novas lojas.
"Quando a gente olha os indicadores de mercado, o segmento de restaurantes teve queda em transações na mesma base. E o Grupo Trigo cresceu tanto em faturamento quanto em pedidos", afirma Tom Moreira Leite, presidente do Grupo Trigo.
Por trás dos 2,43 bilhões de reais do ecossistema, a holding registrou receita própria de 700,5 milhões de reais em 2025, alta de 11% sobre 2024. Para este ano, projeta atingir 837 milhões de reais em receita e superar 150 milhões de reais de Ebitda. Entre janeiro e abril, a companhia ficou cerca de 4 milhões de reais acima da meta de Ebitda prevista para o período.
A estrutura do Grupo Trigo
Os 2,43 bilhões de reais representam todo o faturamento gerado pelo ecossistema da companhia, incluindo as vendas realizadas pelosrestaurantes franqueados. Já os 700,5 milhões de reais correspondem às receitas próprias do Grupo Trigo.
Diferentemente de boa parte das redes de franquias, a empresa captura valor em praticamente todas as etapas da cadeia. Além dos royalties pagos pelos franqueados, o grupo obtém receita com sua fábrica, distribuidora e importadora próprias, responsáveis pelo abastecimento das marcas, além dos restaurantes próprios que opera.
Na prática, cada novo restaurante inaugurado aumenta não apenas a arrecadação de royalties, mas também o volume movimentado pela cadeia de suprimentos. Quanto maior a rede, maior a escala industrial e logística da companhia.
"A gente consegue prestar um serviço melhor para os franqueados e gerar mais valor para a própria companhia", afirma Leite.
Essa lógica ganhou ainda mais força depois das aquisições realizadas pelo grupo. Ao incorporar novas marcas, a companhia passa a compartilhar fornecedores, logística, processos operacionais e tecnologia, reduzindo custos e aumentando eficiência em todo o ecossistema.
A aposta em dados para vender mais
Embora continue expandindo a rede, o principal motor de crescimento hoje está dentro das lojas que já existem.
O Grupo Trigo reúne aproximadamente 10 milhões de consumidores identificados em seus programas de fidelidade. A base permite acompanhar frequência de compra, preferências de consumo, horários de maior movimento e comportamento por região. Essas informações alimentam campanhas de CRM e ajudam tanto a aumentar recorrência quanto a orientar decisões sobre novos produtos.
Segundo a companhia, consumidores engajados no programa deixam, ao longo de um ano, sete vezes mais margem do que clientes que não participam da plataforma.
Hoje, cerca de 80% das transações das marcas acontecem por algum meio digital, seja delivery, aplicativos próprios ou totens de autoatendimento. Além de facilitar a operação, esses canais geram um volume crescente de dados sobre o comportamento dos consumidores.
"Esse conjunto de ferramentas tem permitido aprender mais sobre os clientes, aumentar a frequência de consumo e também lançar produtos de forma mais assertiva", afirma Leite.
Crescer com quem já conhece a operação
Em 2025, o Grupo Trigo inaugurou 81 restaurantes. Mas o dado que mais chama atenção não é o número de aberturas, e sim quem está por trás delas.
Segundo a companhia, aproximadamente 70% dos novos contratos foram assinados por franqueados que já operavam alguma marca do grupo.
Em vez de buscar continuamente novos investidores, a estratégia passou a ser desenvolver operadores experientes para que eles ampliem sua presença dentro do sistema. Isso reduz curva de aprendizado, acelera a maturação das novas unidades e melhora a qualidade da operação.
Para sustentar esse movimento, o grupo mantém uma escola própria voltada à formação de multifranqueados.
"A gente quer que os melhores franqueados cresçam conosco. Esse é um pilar estratégico da companhia", afirma Leite.
O Spoleto, rede de culinária italiana, continua sendo a principal marca da companhia em faturamento. Já o Koni, especializado em culinária japonesa, aparece como a operação que mais cresce proporcionalmente nas mesmas lojas. O Gurumê, restaurante de gastronomia japonesa que opera com unidades próprias, também segue entre os destaques.
A integração da Casa do Pão de Queijo
Ao longo dos últimos anos, o Grupo Trigo montou um dos maiores portfólios do food service brasileiro com aquisições como China in Box, Gendai e, mais recentemente, Casa do Pão de Queijo.
Agora, o foco mudou. Em vez de buscar novas compras, a prioridade de 2026 será integrar essas operações.
No caso da Casa do Pão de Queijo, adquirida com aproximadamente 150 franquias, o grupo trabalha para implantar a mesma infraestrutura tecnológica já utilizada nas demais marcas. O plano inclui CRM, programa de fidelidade, inteligência de dados e integração da cadeia de suprimentos.
"A agenda tecnológica ainda não existia na Casa do Pão de Queijo. Agora estamos trazendo isso para dentro da operação", afirma Leite.
Ao mesmo tempo, a companhia revisa o cardápio da rede. Quatro unidades já testam um novo portfólio. "A gente mudou até o próprio pão de queijo", diz.
O primeiro passo para crescer fora do Brasil
Outro movimento recente foi a primeira aquisição internacional da história do Grupo Trigo.
Em 2026, a companhia comprou a rede americana Deep Purple, especializada em açaí, com 12 lojas em Chicago, além da sanduicheria italiana Lizzano.
O plano para os Estados Unidos foge do modelo tradicional das franquias brasileiras. Em vez de crescer prioritariamente por franquias, o grupo pretende abrir lojas próprias.
Segundo Leite, o modelo exige baixo investimento inicial, opera com apenas um funcionário por turno e apresenta retorno entre oito e dez meses.
"A equação de retorno sobre investimento é muito positiva porque o custo operacional é muito baixo", afirma.
A companhia também desenvolve novos negócios dentro de casa. A 2V, rede de lojas de conveniência com refeições prontas, a Asa Açaí, marca de produtos e restaurantes voltada a superalimentos da Amazônia, e a Pizzaria Spoleto, novo conceito especializado em pizzas, são alguns exemplos de marcas que estão em fase de testes no Rio de Janeiro.
Ao mesmo tempo, a companhia acompanha transformações que podem alterar o setor nos próximos anos, como a popularização dos medicamentos GLP-1 e a possível revisão da escala 6x1.
Para Leite, o objetivo permanece o mesmo: continuar crescendo acima da média do mercado usando tecnologia, ganho de escala e integração operacional como principais vantagens competitivas.
