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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
29/06/2026
5 min

Como o iFood chegou a R$ 10 bilhões apostando em negócios além do delivery

Como o iFood chegou a R$ 10 bilhões apostando em negócios além do delivery

O iFood entrou na nova guerra do delivery sem depender apenas do delivery. A empresa fechou o ano fiscal de 2026 com receita líquida de R$ 10,1 bilhões, alta de 29%. Pela primeira vez, um terço da receita já vem de negócios fora da entrega de comida. Crédito para restaurantes, supermercado, farmácia e software de gestão passaram a dividir espaço com o negócio que deu origem a companhia há 15 anos.

O movimento acontece em um momento de maior pressão competitiva no setor. Desde o ano passado, a 99Food voltou a investir na operação brasileira, enquanto a chinesa Keeta, da Meituan, tem um plano bilionário para o Brasil.

No ano fiscal encerrado em março de 2026, a empresa movimentou R$ 150 bilhões em volume transacionado, alta de 57% em relação ao período anterior. A receita líquida alcançou R$ 10,1 bilhões, alta de 29% e o EBITDA chegou a R$ 2,2 bilhões, crescimento de 43%.

"Conseguimos demonstrar que o iFood é muito mais do que um negócio de food delivery. Hoje, categorias como supermercado, farmácia, bebidas, conveniência, software para restaurantes e a frente de fintech têm uma contribuição cada vez maior para o resultado", afirma Pedro Pereira, CFO do iFood.

Um dos motores dessa transformação é o iFood Pago. O braço financeiro já responde por cerca de um quarto da receita do ecossistema, reúne mais de 166 mil contas ativas e movimenta R$ 4 bilhões por mês. A operação oferece conta digital, antecipação de recebíveis, crédito e soluções de pagamento para restaurantes parceiros.

Segundo Pereira, o crescimento é resultado de uma estratégia iniciada anos atrás. "Crédito é um negócio de risco. Fizemos isso de forma bastante paulatina para aprender antes de ganhar escala. Agora esse negócio começa a mover o ponteiro dos resultados", diz.

Além dos serviços financeiros, a empresa vem ampliando sua atuação em categorias como mercado, farmácia, bebidas, pet shop e conveniência. Segundo o executivo, esses mercados representam oportunidades de receita tão grandes quanto (ou até maiores) do que o próprio delivery de refeições.

Hoje, o iFood estima atuar em um mercado endereçável superior a R$ 500 bilhões por ano considerando todas essas verticais.

O plano para ampliar o mercado

A aposta do iFood não é apenas conquistar consumidores dos concorrentes. A empresa quer aumentar o próprio mercado de delivery.

Esse é o objetivo do Hits, área do aplicativo que reúne refeições a partir de R$ 15 com entrega gratuita. Lançado nacionalmente no ano passado após um longo período de testes, o produto busca atender consumidores que antes consideravam o delivery caro para o dia a dia.

"O ticket médio do delivery ainda é relativamente elevado no Brasil, acima de R$ 50. Quando conseguimos servir, de forma sustentável, pedidos de menor valor, destravamos uma ocasião de consumo para milhões de pessoas", afirma Pereira.

Segundo ele, o Hits ainda representa menos de 10% dos pedidos da plataforma, mas já amplia em pelo menos 25% o mercado potencial atendido pelo iFood.

"O Hits não tira participação do restante da plataforma. Ele aumenta o mercado endereçável porque traz consumidores que antes não estavam usando delivery naquela frequência", diz Pereira.

Outra frente considerada estratégica é o Turbo, modalidade de entregas em até 20 minutos para refeições, mercado, farmácia e conveniência. Assim como o Hits, o produto faz parte do grupo de iniciativas que receberão investimentos acelerados ao longo do ano fiscal de 2027.

Depois de gerar R$ 2,2 bilhões de EBITDA no último exercício, o iFood pretende reinvestir parte desse caixa para acelerar as frentes que já demonstraram potencial de escala.

"O ano fiscal de 2027 será um ano de investimento acelerado. Vamos direcionar capital para produtos que já provaram ter fit de mercado e economia saudável, como Hits, Turbo, iFood Pago e categorias", afirma Pereira.

Concorrência aumenta e o mercado cresce

Os resultados chegam em um momento em que o mercado de delivery voltou a ganhar novos competidores. Mas, na avaliação da consultoriaGalunion, a disputa tem ampliado o mercado, e não apenas redistribuído clientes entre as plataformas.

Segundo pesquisa realizada pela consultoria em abril de 2026, 76% dos consumidores afirmaram ter feito pedidos pelo iFood nos três meses anteriores. A99Food aparece na sequência, com 36% de penetração.

"O que vimos foi um aumento do bolo. A 99 cresceu, mas isso ainda não reduz a liderança do iFood. Mais do que uma simples disputa por participação de mercado, observamos uma expansão do ecossistema de delivery", afirma Simone Galante, CEO da Galunion.

Na avaliação da consultora, parte dessa vantagem competitiva vem justamente da ampliação dos serviços oferecidos aos restaurantes.

"Eles ampliaram vários serviços que ajudam justamente a máquina da promoção e também a preferência do restaurante pela plataforma", diz.

A pesquisa também mostra que a decisão do consumidor está cada vez mais pulverizada. Para 35% dos entrevistados, promoções e cupons são o principal fator de escolha. Outros 34% escolhem primeiro o restaurante e apenas 31% decidem inicialmente pelo aplicativo.

Para Pereira, o maior desafio agora não é apenas responder aos concorrentes, mas continuar inovando.

"A gente foi muito ágil em transformar inovação em produtos tangíveis. O desafio agora é continuar na vanguarda da tecnologia. Com inteligência artificial, esse ritmo de mudança ficou ainda mais acelerado", afirma.

É justamente nessa combinação entre delivery, serviços financeiros, inteligência artificial e novas categorias que o iFood aposta para sustentar o crescimento nos próximos anos, mesmo em um mercado que voltou a ficar mais disputado.

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
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