Como o Ueno Bank, comparado ao Banco Master, cresceu e quebrou no Paraguai
Banco digital chegou a quase 3 milhões de clientes, expôs US$ 850 milhões em recursos públicos e derrubou o presidente do BC

O Ueno Bank, instituição financeira que chegou a reunir quase três milhões de clientes no Paraguai, entrou em processo de resolução em 2 de novembro, após a autoridade monetária do país identificar insuficiência de capital, ou seja, seu índice de solvência estava abaixo da metade do mínimo exigido por lei.
Sem capital suficiente para absorver prejuízos, o banco passou ao controle do regulador, que busca proteger os depositantes. O caso tem sido comparado ao do Banco Master no Brasil.
A crise atingiu depositantes, expôs cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos administrados pelo banco e provocou a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo.
Qual é a origem do Ueno Bank?
A história do Ueno começou em 1976, com a fundação da Financiera El Comercio. Em 2021, a instituição foi adquirida pelo Grupo Vázquez, conglomerado empresarial paraguaio controlado por Federico Miguel Vázquez Villasanti, conforme os demonstrativos financeiros do banco.
A marca Ueno foi lançada em fevereiro de 2022. Em novembro de 2023, a instituição recebeu autorização do Banco Central do Paraguai (BCP) para operar como banco. No ano seguinte, incorporou o Visión Banco, ampliando sua carteira de clientes e operações.
Segundo dados publicados pelo próprio Ueno, o número de clientes passou de 2,16 milhões em dezembro de 2024 para 2,94 milhões em junho de 2026. No mesmo período, os depósitos cresceram de 10,26 trilhões para 17,31 trilhões de guaranis.
Como o Ueno cresceu tão rapidamente?
O banco apostou na abertura digital de contas, na oferta de cartões, em descontos e na devolução de parte do valor de compras. Também ampliou sua presença comercial por meio de patrocínios esportivos e campanhas publicitárias.
Em entrevista à imprensa internacional em setembro de 2026, o ex-ministro da Fazenda Dionisio Borda destacou a expansão da instituição. "Em pouco tempo, este banco se posicionou entre os mais importantes dos 16 bancos do sistema", afirmou.
Borda também chamou atenção para os benefícios comerciais oferecidos pelo Ueno, incluindo devoluções de até 40% do valor de compras, e para a concentração de depósitos do governo e do Instituto de Previdência Social (IPS).
O que aconteceu com o banco?
Em 3 de novembro, o BCP anunciou o início do procedimento de resolução do Ueno, decidido no dia anterior, após identificar um índice de solvência inferior à metade do mínimo exigido pela regulamentação.
Em comunicado oficial sobre a resolução do Ueno Bank, o regulador informou que a medida foi tomada após ajustes nos demonstrativos financeiros da instituição.
A resolução é um regime especial previsto na legislação paraguaia para instituições financeiras em situação de insolvência. Nesse procedimento, o Banco Central assume o controle do banco para reorganizar seus ativos e passivos, que podem ser transferidos a outras instituições, e liquidar o restante, com o objetivo de proteger os depositantes e evitar que os problemas contaminem o sistema financeiro.
O BCP também relatou a identificação de empréstimos a empresas relacionadas ao grupo controlador. Segundo a autoridade, o banco havia sido notificado em 5 de junho para adequar essas operações aos limites legais.
Antes da resolução, o Ueno negava a existência de irregularidades comprovadas e afirmava que colaboraria com as investigações.
Quais são as conexões políticas do Ueno?
O presidente paraguaio, Santiago Peña, foi acionista do grupo controlador do Ueno até março de 2025. Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central desde 2023, também havia comandado a instituição antes de ela se tornar banco.
O BCP afirmou que Carvallo não participava das decisões relacionadas ao Ueno. Ele renunciou à presidência da autoridade monetária em 3 de novembro, a pedido de Peña.
A crise levou parlamentares da oposição a apresentar um pedido de impeachment contra Peña. Oito pessoas ligadas ao banco foram detidas nas investigações.
Por que o Ueno é comparado ao Banco Master?
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. A instituição e seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, são investigados pela Polícia Federal por suspeitas de fraudes em operações financeiras.
A comparação com o Ueno se apoia em vários pontos em comum. Os dois bancos cresceram muito rápido em poucos anos, com estratégias agressivas para atrair recursos. O Master oferecia CDBs com remuneração bem acima da média do mercado, apoiado na garantia do FGC. Já o Ueno conquistou clientes com abertura digital de contas, descontos e devolução de até 40% do valor das compras.
Outro ponto em comum é a concentração de dinheiro público. No Brasil, regimes próprios de previdência de estados e municípios aplicaram cerca de R$ 1,9 bilhão no Master, valor que não tem cobertura do FGC. No Paraguai, o Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões de órgãos públicos, incluindo recursos do IPS.
Nos dois casos há ainda suspeitas sobre operações de crédito e proximidade com o poder político. No Ueno, o BCP identificou empréstimos a empresas ligadas ao grupo controlador, do qual o presidente Santiago Peña foi acionista até março de 2025. No Master, um dos pontos centrais foi a tentativa de compra pelo BRB, banco público do Distrito Federal, que o Banco Central barrou em 2025.
A maior diferença é o peso de cada banco no seu país. Em valores absolutos o Master era maior, com R$ 86,8 bilhões em ativos, mas respondia por cerca de 0,55% das captações do sistema brasileiro. O Ueno tinha cerca de US$ 3,75 bilhões em ativos e concentrava 9,1% dos depósitos do Paraguai, por isso a crise atinge uma parcela muito maior da população.
Qual é o impacto da crise no Paraguai?
O BCP informou que a garantia legal cobre até 75 salários mínimos, equivalentes a 228,3 milhões de guaranis por depositante e instituição. Também anunciou um pagamento inicial de até 10 milhões de guaranis aos clientes, com recursos do Fundo de Garantia de Depósitos."Para quantificar os custos para os depositantes públicos e privados, é importante observar a situação patrimonial final. Isso trará clareza", afirmou o economista Jorge Garicoche.
Em análise de 4 de novembro, o economista e escritor Adley Piovesan afirmou que "os fundamentos econômicos permanecem favoráveis, os avanços sociais são relevantes e a crise do Ueno representa um teste sério para a credibilidade institucional".
O Banco Central paraguaio classifica o episódio como um caso isolado, que não reflete um problema generalizado do sistema financeiro. O impacto definitivo sobre os depositantes e os recursos públicos ainda depende do levantamento patrimonial que será feito durante a resolução.
*Com agências internacionais
