Como os brasileiros mudaram o jeito que o mundo busca no Google
Ao completar 28 anos, gigante de tecnologia destaca como hábitos de uso do país ajudaram a desenvolver o Search Live e o novo Modo IA do buscador

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A empresa de tecnologia Google completa 28 anos neste domingo, 27, data adotada como aniversário oficial desde 2006. Fundado por Larry Page e Sergey Brin em 1998, o buscador evoluiu para dezenas de produtos e agora aposta em voz e agentes de IA; segundo o CEO Sundar Pichai, equipes brasileiras ajudaram a desenvolver o Search Live.
O Google completa 28 anos neste domingo, 27 — data que a empresa adotou como aniversário oficial desde 2006, embora tenha sido incorporada, formalmente, em 4 de setembro de 1998, por dois estudantes de doutorado da Universidade Stanford, Larry Page e Sergey Brin.
Da garagem emprestada em Menlo Park, na Califórnia, ao posto de uma das empresas mais valiosas do mundo, o buscador que começou catalogando páginas da internet hoje decide, em boa parte, como bilhões de pessoas encontram informação todos os dias — e, segundo seu CEO, parte dessa evolução recente tem uma origem inesperada: o Brasil.
Em entrevista exclusiva à EXAME em junho, Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, revelou que equipes brasileiras ajudaram a desenvolver elementos-chave do Search Live, recurso lançado em 2025 que permite conversar com a busca do Google por voz, em tempo real, dentro do chamado Modo IA.
De volta ao topo: como o Google virou o jogo na corrida da IA"Aprendemos muito observando como os brasileiros usam nossos produtos, com o uso da voz como a principal forma de interagir com a informação, por exemplo", disse Pichai.
Em vez de digitar uma pergunta e ler uma lista de links, o usuário fala com o buscador e recebe a resposta em áudio, podendo seguir a conversa com novas perguntas — um comportamento que, segundo o executivo, já era comum entre brasileiros antes mesmo de a empresa desenhar o produto.
O capítulo de BH
Se a virada foi possível, foi porque o Google conhece como ninguém quem usa a internet. Décadas de Busca, Gmail, Maps e YouTube lhe deram um retrato vivo do que bilhões de pessoas procuram, assistem e escrevem — e a capacidade de testar e espalhar novidades quase no mesmo dia.
O Brasil é talvez a melhor janela para ver essa estratégia funcionando: um mercado em que a empresa está há mais de 20 anos, aprende rápido e devolve ao mundo o que descobre por aqui.
A história começou, como as das boas do setor, numa sala pequena. Em 2005, em Belo Horizonte,12 engenheiros passaram a trabalhar para uma empresa americana cujo nome boa parte dos brasileiros ainda nem sabia pronunciar.
Vinham da compra da Akwan Information Technologies, startup de buscas criada por professores e alunos da Universidade Federal de Minas Gerais. Foi a primeira aquisição do Google na América Latina, e o grupo ficou conhecido internamente como Google Zero.
Os engenheiros brasileiros ajudaram a moldar o algoritmo de ranqueamento da busca, ferramentas de acessibilidade adotadas no mundo todo e os sistemas antirroubo de celular do Android, concebidos e testados primeiro nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde o problema é agudo, antes de escalar para Londres e Índia.
O Brasil virou laboratório de soluções que o planeta adotaria depois, e é essa a credencial que Fábio Coelho, presidente do Google Brasil, usa para explicar por que o país pesa mais do que seu PIB sugeriria.
“O Brasil tem uma combinação única: um escritório de engenharia com caso de sucesso já estabelecido, que produz tecnologia do Brasil para o mundo, associado a um mercado de volume grande de produção e de negócios”, diz.
Ele cita o recurso que bloqueia o aparelho assim que alguém o arranca da mão do usuário: nasceu de uma parceria entre as engenharias local e global para resolver um problema brasileiríssimo e, depois de aprovado aqui, escalou para outros mercados. Para Coelho, porém, o trunfo brasileiro não está só no passado.
“Os tipos de problemas que resolvemos aqui têm a ver com uma economia criativa forte, com a necessidade de trabalhar a segurança cibernética, com um setor agrícola que pode se beneficiar da IA e com uma matriz energética limpa”, diz. “São condições que permitem ao Brasil ser não apenas um excelente consumidor de tecnologia, mas também um produtor de tecnologia de alta qualidade, que funciona para mercados parecidos com o nosso e pode ser global.”
Em 2024, segundo a consultoria Access Partnership, o Google movimentou R$ 215 bilhões na economia brasileira.
Trinta produtos depois
Da fundação até aqui, o Google se multiplicou de um único mecanismo de busca em dezenas de produtos que hoje moldam o dia a dia digital de bilhões de pessoas: o Gmail chegou em 2004, o Google Maps em 2005, o Android em 2008 — sistema que, segundo a própria história da empresa, praticamente definiu a era dos smartphones fora do universo Apple.
Em 2004, a empresa abriu capital, movimento que ajudou a financiar a expansão que viria a seguir; em 2015, reorganizou-se sob o guarda-chuva da Alphabet, holding criada para separar o negócio de buscas de apostas mais arriscadas, como carros autônomos e biotecnologia.
Hoje, a aposta mais recente da empresa é justamente essa transição para a voz e para agentes de IA que interagem com o usuário em tempo real — e o Brasil, segundo Pichai, não é apenas mais um mercado consumidor desse movimento, mas um dos lugares que ajudaram a moldar como ele vai funcionar para o resto do mundo. "O país está na vanguarda da adoção de novas tecnologias."
