Como os data centers podem definir as eleições dos EUA — e o futuro de Trump
Campeão dos data centers, Trump defende a implementação dos complexos, mas seu entusiasmo não se traduz na política

Os data centers, vistos como símbolos da expansão tecnológica dos Estados Unidos, ganharam peso político e podem desempenhar papéis decisivos na política do país, apura novo estudo do think tank Brookings Institution, como divisores de água nas eleições de meio-mandato em novembro. A crescente rejeição às instalações acompanha seu prestígio e influencia as campanhas, reposicionando candidatos e dividindo eleitores.
Em Ohio, por exemplo, o democrata Sherrod Brown explora o tema em um dos anúncios de sua campanha ao Senado, classificando o republicano Jon Husted como a “face dos data centers”. Como vice-governador, Husted apoiou incentivos fiscais e apresentou as instalações como uma oportunidade econômica para o estado.
A ofensiva - apenas uma de dezenas pelos EUA - mostra como a percepção pública mudou rapidamente.
Em setembro de 2025, uma pesquisa Heatmap apontava uma divisão relativamente equilibrada: 44% dos entrevistados apoiavam a construção de data centers, enquanto 42% eram contrários a esses empreendimentos.
Em 2026, porém, o cenário se tornou mais negativo — uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que, atualmente, 64% dos americanos não consideram positiva a construção acelerada dessas instalações, enquanto 77% temem que a expansão dos data centers provoque um aumento nos preços da eletricidade.
A resistência atravessa as divisões partidárias tradicionais e também se manifesta em diferentes regiões do país. Moradores rurais questionam a transformação de áreas em grandes complexos industriais, enquanto comunidades urbanas reclamam de ruído, consumo de recursos naturais e impactos ambientais.
Data centres e política
Defesa de Trump por data centers não reflete clima político dos EUA
A mudança já alterou o discurso eleitoral, tornando-se munição para o discurso democrata, contrário à atual administração.
No Texas, a democrata Gina Hinojosa passou a explorar o apoio do governador republicano Greg Abbott à expansão dos data centers, defendendo um equilíbrio maior entre o desenvolvimento tecnológico e os interesses das comunidades afetadas.
Na Pensilvânia, o governador democrata Josh Shapiro também mudou de posição após ter sido criticado por favorecer empresas de tecnologia. O estado passou a adotar novas regras para a instalação de data centers, com mecanismos adicionais de controle e restrições ao desenvolvimento desses projetos.
Segundo pesquisa conduzida pelo jornal Washington Post, candidatos de ambos os partidos também passaram a falar de forma mais negativa sobre os empreendimentos.
As críticas incluem o aumento dos custos de energia, o consumo de água, o uso de grandes áreas de terra e a escassez de empregos permanentes. O fenômeno está diretamente ligado ao debate sobre custo de vida, uma das principais preocupações dos eleitores americanos.
Os data centers passaram a ser associados ao risco de contas de energia mais altas, permitindo que candidatos apresentem a expansão tecnológica como parte de um problema mais amplo de inflação e perda de poder de compra.
A questão para Trump
A mudança de humor da população coloca a administração Donald Trump em uma posição particularmente delicada.
A aceleração da construção de data centers se tornou uma das prioridades de seu governo, que, no ano passado, assinou uma ordem executiva para agilizar licenças federais, facilitar construções em terras do governo e permitir que projetos elegíveis tenham acesso a incentivos financeiros.
O republicano também transformou a expansão da infraestrutura de inteligência artificial em uma vitrine política, aponta o Post.
O presidente recebeu líderes do setor de tecnologia no Salão Oval para celebrar acordos de bilhões de dólares destinados a novos data centers e, mesmo diante da crescente resistência dentro do próprio Partido Republicano, continua defendendo publicamente o avanço dessas instalações.
“Se eu fosse prefeito de uma cidade ou governador de um estado e tivesse a oportunidade de receber uma grande fábrica, uma fábrica de IA ou um data center, eu certamente iria querer, porque os empregos são enormes e o dinheiro pago, os impostos pagos, são realmente enormes”, afirmou Trump na semana passada, cercado por líderes da indústria de criptomoedas.
“E, se você não aceitar, ficará para trás, porque há muitos lugares que querem isso”, acrescentou o presidente.
A declaração sintetiza a aposta de Trump de que os benefícios econômicos dos investimentos tecnológicos devem superar as críticas relacionadas aos custos e impactos locais.
O futuro da IA
Barômetro político pode decidir futuro da implementação da inteligência artificial nos EUA (Magnific/Reprodução)
A questão, por natureza, também se conecta ao avanço da inteligência artificial. Para muitos americanos, os data centers representam a dimensão física de uma transformação tecnológica que não é universalmente aceita, associada à substituição de empregos, à perda de controle sobre decisões automatizadas e ao temor de que os benefícios da IA fiquem concentrados em grandes empresas.
No tópico, um artigo da Brookings Institution, escrito pelos especialistas Nicol Turner Lee e Darrell M. West, aponta que essa transformação política pode ter consequências importantes para a expansão da infraestrutura de inteligência artificial.
O debate local sobre data centers, segundo os pesquisadores, pode influenciar diretamente decisões regulatórias e eleitorais.
O movimento também ocorre em meio ao crescimento de uma reação contra o poder das grandes empresas de tecnologia. A concentração de riqueza, a proximidade entre bilionários do setor e autoridades políticas e as discussões sobre tributação alimentam um “techlash” que transforma os data centers em símbolo de disputas econômicas mais profundas.
O resultado das eleições de 2026 poderá determinar se essa reação se traduzirá em novas moratórias, auditorias e restrições à construção de instalações. Estados e municípios que já adotaram pausas poderiam servir de modelo para outras regiões, reduzindo o ritmo de expansão da infraestrutura necessária para a IA.
As consequências não ficariam restritas ao setor tecnológico, apontam Lee e West. As grandes empresas americanas já investiram centenas de bilhões de dólares na corrida pela inteligência artificial e dependem de uma expansão acelerada da capacidade computacional para sustentar suas projeções de crescimento e retorno.
É nesse ponto que os data centers podem se transformar em um problema também para Donald Trump, avaliam os autores do estudo.
A estratégia do governo de fortalecer a liderança americana em inteligência artificial depende de investimentos rápidos em infraestrutura, mas a resistência política pode limitar esse avanço justamente em um momento decisivo para a competitividade dos EUA.
Assim, instalações que pareciam ser apenas parte da paisagem da economia digital passaram a ocupar o centro de uma disputa política maior. O resultado das eleições poderá definir não apenas onde novos data centers serão construídos, mas também o ritmo da revolução da IA e a capacidade de Trump de sustentar sua agenda tecnológica.
