Como os EUA podem tentar impedir a reconstrução militar do Irã

Após meses de conflito — e apesar de recentes incertezas —, a guerra do Irã parece estar chegando a um fim. Negociações de paz resultaram em concessões de ambos os lados, e a mediação acalmou o conflito adjacente no Líbano.
Agora, os países calculam os danos. O fechamento de Ormuz gerou uma crise energética intensa. Todavia, o Irã foi o palco da maior destruição física: alvo de bombardeios incessantes por semanas e de diversos ataques conjuntos de Irã e Israel com forças armadas consideravelmente mais avançadas, muito de sua infraestrutura está totalmente desabilitada.
Nesse contexto, o think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), dedicado à análise de assuntos globais, avalia, em um artigo, a questão da reparação da capacidade militar iraniana e o que o país deveria priorizar em sua retomada. Além disso, também ilustra as maneiras pelas quais os EUA poderiam limitar o fluxo de recursos vitais para esse fim: entender os próximos passos pode nos dar um vislumbre quanto ao cenário geopolítico pós-crise de Ormuz.Enquanto um pacote US$ 300 bilhões para a reconstrução do país foi proposto pela Casa Branca, esse orçamento, obviamente, não cobre uma retomada do poder militar. Afinal, aspectos militares do Irã — como suas ambições nucleares — estiveram entre os principais estopins da guerra.
Tamanho dos danos: o que foi perdido?
Israel, Estados Unidos e Irã estão em guerra (FADEL itani / AFP/Getty Images)
Embora ainda incompletas, as evidências disponíveis apontam para uma degradação significativa da capacidade militar iraniana após o recente conflito. Imagens de satélite comerciais confirmam a destruição de praticamente toda a frota convencional de superfície da Marinha de Teerã, além de danos adicionais aos principais estaleiros militares e bases navais do país. Parte dessas instalações tornou-se parcialmente inoperante devido ao afundamento de embarcações que bloquearam áreas de atracação militares.
Os registros por satélite também revelam danos a instalações de produção de armamentos e a fábricas de munições localizadas acima do solo, indicando que os ataques atingiram não apenas a capacidade operacional imediata do Irã, mas também sua infraestrutura de reposição de equipamentos militares.
Há, contudo, divergências quanto à extensão do desgaste do arsenal iraniano. Desde o início da guerra, Teerã lançou 6.770 drones e mísseis, segundo estimativas até 1º de abril, uma semana antes do cessar-fogo que perdura até hoje.
Avaliações recentes do governo dos Estados Unidos, divulgadas pelos jornais americanos The New York Times e The Washington Post, indicam que o país ainda mantém cerca de 70% do estoque de mísseis existente antes da guerra, mas dispõe de apenas 40% do arsenal de drones. Além das próprias munições empregadas, os ataques teriam atingido locais de produção de mísseis de cruzeiro e balísticos iranianos, instalações de fabricação de propelentes e os veículos especializados de transporte, elevação e lançamento (TELs) utilizados para os disparos.A extensão total dos danos à capacidade de produção é difícil de avaliar a partir de fontes abertas, uma vez que grande parte da fabricação e do armazenamento de mísseis do Irã ocorre em instalações subterrâneas fortificadas. Embora os danos na superfície sejam visíveis, a extensão dos danos no subsolo permanece desconhecida.
Com base nesses números, os especialistas do CSIS estimam que, embora o Irã mantenha uma capacidade relevante de dissuasão por meio de seus mísseis, sua aptidão para sustentar campanhas prolongadas baseadas em veículos aéreos não tripulados pode ter sido substancialmente reduzida.
Além disso, a frota convencional de superfície do Irã — composta pelos chamados "navios cinza" da Marinha da República Islâmica do Irã (IRIN) e da Marinha do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGCN) — sofreu perdas expressivas durante o conflito, comprometendo severamente a capacidade naval. Os estaleiros responsáveis pela construção e reparo dessas embarcações também foram atingidos, dificultando qualquer tentativa de reconstrução rápida do poder marítimo iraniano.
As consequências, porém, vão além da dimensão militar. Diversos dos principais portos iranianos permanecem parcialmente bloqueados por embarcações afundadas, o que impede a retomada plena das operações portuárias. Enquanto esses destroços não forem removidos, os terminais terão dificuldades para voltar à normalidade, inclusive no desembarque de cargas a granel e na importação de equipamentos, matérias-primas e componentes considerados essenciais à reconstituição da base industrial de defesa do país.
O cenário sugere que os danos infligidos à infraestrutura marítima iraniana podem produzir efeitos de longo prazo, limitando não apenas a capacidade operacional da Marinha, mas também a velocidade com que Teerã conseguirá reconstruir seu complexo militar-industrial e recompor suas capacidades estratégicas.
Lista de compras: o que o Irã deve priorizar
Nesse âmbito, o artigo realça quatro itens principais que os autores consideram como prioridades.
- Equipamentos de salvamento marítimo: a desobstrução dos portos iranianos exigirá equipamentos altamente especializados. Os autores apontam, entre eles, airbags de salvamento marítimo de compartimento fechado, bombas hidráulicas submersíveis de alta capacidade e guindastes de grande porte.
- Máquinas: para recompor sua capacidade de produção militar, o Irã precisará adquirir uma ampla gama de máquinas, desde equipamentos básicos, como lixadeiras e esmerilhadeiras, até instrumentos de calibração e acabamento de precisão e tornos e fresadoras de controle numérico computadorizado (CNC). Embora a dimensão das perdas nesse segmento ainda seja desconhecida, os ataques direcionados às instalações de produção provavelmente atingiram equipamentos essenciais para a fabricação de drones, mísseis, propelentes, lançadores móveis (TELs) e outras munições.
- Componentes para drones: a reposição da frota de veículos aéreos não tripulados dependerá de um fluxo contínuo de componentes importados, estima o estudo. Documentos vazados de uma visita de uma delegação russa, em novembro de 2022, indicavam que o Irã tinha capacidade para produzir cerca de 5 mil motores e 500 fuselagens do drone Shahed-136 por ano. Para manter esse ritmo, porém, o país necessita de um fornecimento constante de peças do exterior, especialmente componentes eletrônicos e motores. Além disso, Teerã deverá buscar reconstruir parte de sua capacidade produtiva doméstica, importando não apenas peças prontas, mas também equipamentos e materiais necessários para recuperar sua relativa autossuficiência industrial.
- Motores e caixas de transmissão marítimas: a reconstrução da frota assimétrica da Marinha da Guarda Revolucionária (IRGCN) exigirá a aquisição e adaptação de um grande número de pequenas embarcações de ataque rápido, além da conversão de navios de carga para fins militares. Nesse contexto, motores marítimos — especialmente unidades a diesel de alta potência e turbinas a gás — tendem a se tornar uma prioridade permanente nas estratégias de aquisição do Irã.
Disrupção: o que os EUA e seus aliados podem fazer a respeito?
Donald Trump, presidente dos EUA. Washington deve limitar acesso iraniano à matérias-primas necessárias para a reconstrução de sua base de defesa (Chip Somodevilla/Getty Images/Getty Images)
As sanções ocidentais contra o Irã são muitas, mas variam em alcance e rigor. Os Estados Unidos mantêm um embargo praticamente total sobre produtos comerciais e de uso dual — que podem ter aplicações civis e militares —, enquanto a União Europeia e o Japão, mais alinhados ideologicamente aos EUA, historicamente adotaram regras mais flexíveis.
Nos últimos anos, porém, europeus e japoneses endureceram as restrições, ampliando os controles sobre itens como componentes para drones, máquinas, circuitos integrados e equipamentos ligados aos setores de energia e construção naval.
A principal diferença entre os regimes de sanções está no alcance das medidas. As restrições americanas têm caráter extraterritorial, permitindo que Washington controle até produtos fabricados em outros países que utilizem tecnologia ou componentes dos Estados Unidos. Já as regras da União Europeia e do Japão, em geral, se limitam à exportação inicial.
Especialistas do CSIS argumentam que, diante dos riscos representados pelo Irã, europeus e japoneses poderiam adotar mecanismos mais próximos do modelo americano. A União Europeia já criou instrumentos para impedir que mercadorias cheguem à Rússia por meio de países intermediários, mas ainda não existe um sistema equivalente voltado especificamente ao Irã.
