Como os sapatos chineses de US$ 4,50 estão pressionando a indústria brasileira de calçados

Um par de calçados importado da China chegou ao Brasil em 2025 por um preço médio de apenas US$ 4,50.
Pode parecer apenas mais uma estatística do comércio exterior, mas o número ajuda a explicar por que a indústria brasileira de calçados terminou o ano produzindo menos, empregando menos pessoas e perdendo espaço tanto no mercado interno quanto no exterior.
Enquanto fabricantes nacionais enfrentavam juros elevados, desaceleração do consumo e aumento da concorrência internacional, as importações avançaram 20,6% e alcançaram 43,2 milhões de pares, o maior volume registrado pelo país na última década.
O resultado foi um cenário pouco comum para um setor tradicionalmente forte na indústria brasileira: mesmo com o preço dos calçados subindo cerca de 4% em 2025, a produção nacional recuou 1,9%, para 847,5 milhões de pares.
Os dados fazem parte da 11ª edição do Relatório Indústria de Calçados – Brasil 2026, divulgado pela Abicalçados.
"O ano de 2025 foi de muitos desafios para a indústria calçadista brasileira", afirma Haroldo Ferreira, presidente-executivo da entidade.
Segundo ele, o setor viveu praticamente dois anos em um. O primeiro semestre foi impulsionado pela atividade econômica e pelas exportações. O segundo trouxe desaceleração do consumo, aumento do endividamento das famílias e um cenário internacional mais adverso.
O avanço dos asiáticos
A pressão veio principalmente da Ásia. China, Vietnã e Indonésia responderam por 78,5% dos pares importados pelo Brasil em 2025. Em valor, Vietnã, Indonésia e Itália concentraram 82,5% das compras externas.
O movimento não é novo, mas ganhou velocidade nos últimos anos. Desde 2021, as importações crescem de forma contínua.
A diferença de preço ajuda a entender por quê. Os calçados chineses chegaram ao país com valor médio de US$ 4,50 por par, um patamar difícil de ser acompanhado por fabricantes brasileiros, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao preço.
Além dos tradicionais exportadores asiáticos, novos concorrentes começam a ganhar espaço. As importações vindas do Paraguai cresceram 76,1% em 2025. As Filipinas avançaram 122,6% em valor, enquanto o Equador registrou alta de 52,5% em volume.
No último mês, o governo Lula anunciou o fim do imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, o que deve aquecer (ainda mais) a compra de produtos importados.
Menos produção e fábricas mais vazias
O avanço dos importados ocorreu justamente em um momento de enfraquecimento da demanda. O consumo aparente de calçados no Brasil, indicador que considera produção, importações e exportações, caiu 1,9% em 2025, para 786,7 milhões de pares.
Em um mercado menor, a disputa por espaço ficou mais intensa.
A produção nacional recuou para 847,5 milhões de pares e a utilização da capacidade instalada caiu para 73%, o menor nível dos últimos três anos.
Na prática, uma em cada quatro máquinas das fábricas brasileiras ficou parada.
O varejo de tecidos, vestuário e calçados avançou apenas 1,3% em volume no ano, abaixo do desempenho do comércio como um todo.
Com famílias mais endividadas e renda crescendo em ritmo menor do que em 2024, parte dos consumidores priorizou a compra de bens duráveis e reduziu gastos com itens como roupas e calçados.
O impacto chegou ao emprego
A desaceleração da atividade acabou chegando ao mercado de trabalho. A indústria calçadista encerrou 2025 com 271,4 mil empregos formais, queda de 1,1% em relação ao ano anterior. Foram cerca de 3 mil vagas a menos em todo o país.
ORio Grande do Sul, principal polo exportador do setor e responsável por mais de um quarto dos empregos da indústria, registrou a maior retração: 5,7%.
Já estados mais focados no mercado interno tiveram desempenho melhor. Bahia e Paraná cresceram 7,1% em empregos, enquanto a Paraíba avançou 3,3%.
Hoje, o Nordeste responde por 50,5% de toda a produção nacional de calçados em pares.
Nem as exportações escaparam
Se o mercado doméstico ficou mais competitivo, o cenário externo também se deteriorou. Em 2025, os Estados Unidos ampliaram as tarifas sobre produtos brasileiros, atingindo também o setor calçadista.
Segundo a Abicalçados, a medida provocou uma queda de aproximadamente um terço nas exportações mensais destinadas ao mercado americano em apenas quatro meses.
Os EUA continuaram sendo o principal destino em receita para o calçado brasileiro, com US$ 211,7 milhões em compras, mas o resultado ficou 2,1% abaixo do registrado em 2024.
No total, as exportações encerraram o ano em US$ 958 milhões, queda de 1,8%.
"As exportações só não tiveram uma performance pior porque tivemos um incremento importante no primeiro semestre de 2025", afirma Ferreira.
O desafio de 2026
A perspectiva para este ano segue cercada de incertezas. No cenário mais pessimista da Abicalçados, a produção nacional pode cair mais 1,2%. No mais otimista, avançará apenas 1,4%.
As exportações devem continuar pressionadas pelas tarifas americanas, pela desaceleração da Argentina e pelos efeitos do aumento dos custos logísticos globais.
Para uma indústria que movimenta cerca de R$ 40 bilhões por ano e emprega mais de 271 mil pessoas, o desafio vai além de voltar a crescer.
A questão agora é quanto espaço os fabricantes brasileiros conseguirão preservar em um mercado cada vez mais disputado por concorrentes estrangeiros, muitos deles vendendo um par de sapatos por menos de US$ 5.
