Como pequena fruta virou símbolo do maior torneio de tênis do mundo

Uma reclamação tomou conta de Wimbledon na edição de 2026. Os preços do morango com chantilly aumentaram quinze centavos de libra neste ano, para 2,85 libras (R$ 19,8 na cotação atual). A queixa chamou a atenção uma vez que a fruta é um dos principais snacks consumidos no maior torneio de tênis do mundo.
Há quase 150 anos, a combinação acompanha o torneio e se tornou uma vitrine da agricultura britânica, movimentando centenas de toneladas da fruta a cada edição.
O Reino Unido não figura entre os principais produtores globais de morango, posição ocupada por Estados Unidos e China, com 3,4 milhões de toneladas e 1,3 milhão de toneladas, respectivamente, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O país britânico produz cerca de 120 mil toneladas por ano.
Mas mesmo não estando entre os maiores produtores globais, a indústria de frutas vermelhas, da qual o morango faz parte, está avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões (R$ 14,7 bilhões) no país. A projeção é de que esse setor cresça a uma taxa anual de 4% e atinja US$ 3,42 bilhões até 2031, de acordo com estimativas da Mordor Intelligence.
Além da fruta, o país produz trigo, cevada e aveia, enquanto na pecuária o Reino Unido é globalmente reconhecido pela criação extensiva e produção em larga escala de carne bovina, ovina e laticínios, como leite e queijos.
Um dos motivos do consumo no torneio de Wimbledon é o período. O evento, que acontece entre o fim de junho e o início de julho, coincide com o auge da safra de morangos no Reino Unido — a escolha não foi por acaso.
Quando o torneio foi criado, em 1877, o morango já era considerado uma fruta típica do verão inglês e era amplamente consumido pela aristocracia durante eventos sociais.
Com o passar das décadas, a tradição ganhou escala. Segundo o All England Lawn Tennis Club (AELTC), organizador de Wimbledon, são consumidas, em média, cerca de 190 mil porções de morangos com creme durante o torneio.
Para atender à demanda de Wimbledon, o evento utiliza aproximadamente 38,4 toneladas de morangos e cerca de 7 mil litros de creme fresco ao longo das duas semanas de competição.
Do campo às quadras
O fornecimento da fruta em Wimbledon é feito por produtores do condado de Kent, região conhecida como o 'jardim da Inglaterra' por sua tradição agrícola.
Uma das principais fornecedoras é a Hugh Lowe Farms, empresa familiar que abastece Wimbledon há mais de três décadas.
A logística é um dos diferenciais da operação. Os morangos são colhidos ainda na madrugada e entregues ao All England Club poucas horas depois, preservando sabor, textura e frescor.
Segundo a fazenda, apenas frutos da variedade premium e que atendem a rigorosos padrões de tamanho, coloração e qualidade são selecionados para o torneio.
Essa rastreabilidade tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de cadeia curta de abastecimento no agronegócio britânico.
Segundo o Department for Environment, Food & Rural Affairs (Defra), a produção britânica de morangos supera 120 mil toneladas por ano, tornando a fruta a principal soft fruit cultivada no país.
Hoje, grande parte da produção ocorre em túneis cobertos (polytunnels), sistemas que protegem as plantas das chuvas, ampliam a produtividade e permitem maior controle da qualidade.
Além disso, técnicas como irrigação por gotejamento, cultivo em substratos elevados e monitoramento climático elevaram significativamente a eficiência das propriedades.
Dados da British Berry Growers, associação que representa o setor, apontam que os morangos respondem por cerca de metade do mercado britânico de pequenas frutas.
O consumo também permanece elevado. Estima-se que mais de 90% das famílias britânicas comprem morangos ao menos uma vez por ano.
