Como um caminhoneiro de SC virou dono de uma empresa de logística que vai faturar R$ 360 milhões

Aos 12 anos, o empresário Jean Carlos Rocha passava os dias na transportadora do avô, em Joinville, no interior de Santa Catarina, ajudando em tarefas operacionais e observando o funcionamento de uma empresa de transporte de cargas. Com o tempo, o negócio deixou de existe, mas Rocha manteve-se no setor de outras formas.
Três décadas depois, ele está à frente da ELO Soluções Logísticas Integradas, companhia sediada em Itajaí, cidade a 90 quilômetros de Florianópolis, que projeta faturar R$ 360 milhões em 2026, opera cerca de 700 clientes por mês, 300 funcionários e 11 filiais distribuídas pelo país.
Fundada em 2018, a ELO atua na gestão da cadeia logística de ponta a ponta, oferecendo serviços que vão do transporte rodoviário à armazenagem alfandegada, cabotagem, frete internacional e locação de contêineres.
A aposta, agora, é acelerar o crescimento com expansão no Mercosul, investimentos em tecnologia própria e a abertura de um escritório em São Paulo.
“Queremos entregar uma solução completa. Quando conseguimos reunir todos os serviços em uma única operação, o cliente deixa de administrar vários fornecedores e passa a ter um único parceiro para a cadeia logística inteira”, afirma Rocha.
Como Jean passou de caminhoneiro a empresário
A relação de Rocha com a logística começou cedo. Aos 12 anos, ele passou a trabalhar na transportadora do avô, uma empresa de transporte rodoviário que chegou a ter 32 caminhões, 60 carretas e cerca de 60 agregados.
Ainda jovem, aos 17 anos, casou-se e, aos 18, adquiriu seu primeiro caminhão. A transportadora do avô, porém, veio a fechar na década de 1990, quando perdeu seu principal cliente, uma fabricante de eletrodomésticos de Joinville.
“Foi o primeiro ensinamento mais duro que tive. A empresa dependia de um único cliente e, quando ele saiu, tudo ficou muito difícil. Hoje, na ELO, fazemos questão de ter uma carteira pulverizada justamente por causa dessa experiência”, diz.
Em 2001, ele decidiu empreender por conta própria e abriu uma pequena indústria de plásticos. A iniciativa não prosperou. Três anos depois, voltou ao setor que conhecia desde a infância.
Em 2004, restavam apenas seis caminhões na antiga empresa do avô. Rocha assumiu a direção de um deles e passou cerca de um ano e dois meses viajando pelo país.
“Eu literalmente fui para a boleia do caminhão. Aquela experiência me deu uma visão muito prática da operação, dos problemas e das necessidades do setor.”
A experiência abriu novas portas. Ele foi convidado por uma cooperativa para administrar uma filial em Santos e, posteriormente, assumiu a gerência de uma transportadora em Itajaí. Depois de pouco mais de dois anos na função, tornou-se sócio de uma nova empresa do setor, na qual permaneceu por quase uma década.
Como nasceu a ELO
Em 2018, Rocha e outros três sócios decidiram começar de novo. A ELO nasceu em uma sala de 40 metros quadrados, com quatro pessoas e uma proposta diferente da que ele havia vivido em experiências anteriores.
“Sabíamos exatamente onde queríamos chegar e o que queríamos entregar ao mercado. Entendíamos que havia lacunas na forma como a logística era feita e acreditávamos que poderíamos construir algo mais completo.”
A principal oportunidade identificada pelo grupo era a fragmentação da cadeia logística brasileira. Em muitos casos, empresas precisam contratar diferentes fornecedores para armazenagem, transporte, despacho aduaneiro e outras etapas da operação.
A proposta da ELO foi integrar esses serviços sob um único operador.
Em 2019, a companhia comprou seu primeiro caminhão. No ano seguinte, adquiriu os primeiros veículos pesados e ampliou as parcerias com terminais logísticos.
O crescimento ganhou velocidade. Hoje, a empresa opera de Rio Grande (no sul do Rio Grande do Sul) a Vila do Conde (no norte do Pará), mantém cerca de 10 mil metros quadrados de armazenagem, realiza entre 70 e 80 viagens por dia e atende 700 clientes por mês.
Crescimento apoiado em tecnologia e expansão geográfica
Para sustentar a expansão, a empresa vem investindo em tecnologia desenvolvida internamente. Uma das apostas é o ELO360, plataforma que integra sistemas e permite acompanhar operações logísticas em tempo real.
“A gente enxerga que o crescimento futuro passa pelo uso inteligente da tecnologia. Queremos que as pessoas sejam cada vez mais técnicas e menos dedicadas a atividades repetitivas.”
A companhia também iniciou operações de frete rodoviário internacional no Mercosul, atendendo fluxos entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, e passou a oferecer serviços de cabotagem para o transporte de cargas ao longo da costa brasileira.
Outra frente de crescimento é comercial. A empresa está inaugurando um escritório em São Paulo e pretende abrir novas operações em Minas Gerais e no Rio de Janeiro ainda neste ano.
Segundo Rocha, a expansão se apoia em uma característica que ele considera central na companhia: a capacidade de oferecer soluções integradas.
“Não temos muro. Não estamos limitados a uma estrutura específica. Podemos desenhar a operação no formato que faz mais sentido para cada cliente.”
Hoje, a ELO movimenta cerca de 2 mil contêineres por mês em operações de armazenagem alfandegada. Ainda assim, o executivo afirma que a participação da empresa no mercado é pequena.
“Estamos falando de algo em torno de 0,1% de participação. Isso mostra o tamanho da oportunidade que ainda existe para crescer.”
A meta de R$ 1 bilhão
Em 2025, a empresa registrou faturamento de R$ 292 milhões. Para este ano, a projeção é alcançar R$ 360 milhões em receita.
Os investimentos também devem continuar. A companhia iniciou a compra dos primeiros caminhões movidos a gás natural e planeja renovar cerca de 20% da frota e ampliar em outros 20% o número de veículos. O investimento previsto apenas nessa frente é de aproximadamente R$ 50 milhões.
A opção pelo gás, segundo o empresário, está ligada principalmente às metas ambientais.
“Não é uma escolha por economia financeira. O ganho está na redução das emissões. O gás é significativamente menos poluente do que o diesel.”
No horizonte de cinco anos, a ambição é ainda maior. A empresa pretende atingir R$ 1 bilhão em faturamento. O objetivo, inicialmente, era alcançar essa marca em três anos, mas a companhia decidiu alongar o prazo para equilibrar o ritmo de expansão com a necessidade de investimentos.
“Percebemos que era importante olhar não apenas para o faturamento, mas também para o caixa e para a capacidade de sustentar esse crescimento. Preferimos avançar de forma responsável.”
