Como um campo abandonado virou refúgio para milhares de orquídeas
Estudo acompanhou por 11 anos a recuperação natural de um terreno que duplicou a diversidade de plantas sem receber sementes

Um antigo campo agrícola no Reino Unido se transformou em um prado de flores silvestres ao longo de pouco mais de uma década. Durante o período, a diversidade de plantas aumentou e milhares de orquídeas apareceram espontaneamente na área.
A transformação foi acompanhada por pesquisadores durante 11 anos, entre 2011 e 2022. O estudo mostrou que a quantidade média de espécies encontradas nas parcelas analisadas praticamente dobrou no período.
Os resultados foram publicados na revista Restoration Ecology e levantam a possibilidade de usar a regeneração natural como uma estratégia para recuperar áreas agrícolas e ampliar a biodiversidade.
Como o campo agrícola se recuperou
A área estudada fica em Bodham, no condado de Norfolk, na Inglaterra, e possui cerca de dois hectares. O cultivo agrícola terminou após a última colheita, em 2005. Depois disso, o local não recebeu misturas comerciais de sementes para criar um prado de flores. A principal intervenção foi um corte anual para produção de feno, enquanto a vegetação se desenvolvia naturalmente.
A equipe acompanhou as mudanças na composição das plantas a cada dois ou três anos. Para isso, os pesquisadores registraram as espécies encontradas em todo o terreno e fizeram levantamentos em parcelas permanentes.
Em 2011, cada parcela tinha, em média, cerca de 10 espécies de plantas. Em 2022, esse número havia chegado a quase 20 espécies. A área também passou a abrigar espécies consideradas raras na região, incluindo diferentes tipos de orquídeas.
Milhares de orquídeas surgiram sem plantio
Com o avanço da recuperação, milhares de orquídeas se estabeleceram no local sem que fossem plantadas pelos pesquisadores. Entre as espécies registradas está a orquídea-dos-pântanos-do-sul, além de outras plantas características de prados ricos em espécies. O aumento das populações de erva-de-São-João também foi registrado durante o acompanhamento.
Os pesquisadores consideram a presença dessas plantas um sinal da recuperação da vegetação do prado. A equipe também levanta a possibilidade de que algumas espécies tenham chegado ao terreno por meio da dispersão natural de sementes. Animais selvagens, como veados, podem ter contribuído para esse processo, embora essa hipótese não determine a origem de todas as plantas encontradas.
Restauração sem sementes comerciais
Os resultados questionam a ideia de que a recuperação de pastagens com alta diversidade de plantas necessariamente exige o plantio de sementes comerciais. Segundo os pesquisadores, permitir a regeneração natural pode ser uma alternativa em determinadas áreas. Nesse processo, plantas que já estão adaptadas às condições locais podem se estabelecer sem a introdução de sementes de outras regiões.
A abordagem também pode preservar adiversidade genética das populações vegetais locais, segundo os autores. O pesquisador Carl Sayer, um dos responsáveis pelo estudo, destacou que a experiência mostra o potencial de uma estratégia baseada na recuperação espontânea da vegetação.
Recuperação natural leva tempo
Os pesquisadores destacam que estudos desse tipo são incomuns porque dependem de monitoramento durante vários anos. Nesse caso, a evolução da vegetação só pôde ser observada porque a área foi acompanhada regularmente.
O resultado também mostra que a recuperação não ocorreu de forma imediata. Foram necessários anos para que a composição vegetal mudasse e espécies mais características de prados ricos em biodiversidade se estabelecessem.
Para os autores, a experiência pode ajudar a orientar estratégias de restauração de áreas degradadas, especialmente em regiões onde governos buscam ampliar a biodiversidade.
