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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
08/10/2026
12 min

Como um hospital abandonado virou polo bilionário de gastronomia, cultura e luxo no coração de SP

Com mais de R$ 3 bilhões investidos, complexo Mata São Paulo, no Cidade Matarazzo, reúne hotel, restaurantes, arte, moda e novas atrações na Bela Vista

Como um hospital abandonado virou polo bilionário de gastronomia, cultura e luxo no coração de SP
RESUMO +

O empresário francês Alexandre Allard transformou o antigo Hospital Matarazzo, fechado em 1993, no Cidade Matarazzo, complexo de hotelaria, gastronomia, arte, moda e negócios que já recebeu mais de R$ 3 bilhões em investimentos. Após a compra do terreno por R$ 117 milhões em 2011, o endereço passou a reunir operações como Rosewood São Paulo, Soho House e Casa Bradesco. 

A 200 metros da Avenida Paulista, é possível atravessar, em poucos minutos, mais de um século da história de São Paulo. 

O caminho começa entre edifícios que receberam pacientes e recém-nascidos durante boa parte do século 20, passa por uma capela que chegou a ser suspensa durante uma obra subterrânea e termina diante de restaurantes, lojas, galerias, árvores, apartamentos milionários e um hotel frequentado por alguns dos visitantes mais endinheirados da cidade.

Nem sempre foi assim.

Por quase duas décadas, parte desse terreno na Bela Vista permaneceu fechada. Ali funcionaram o Hospital Umberto I — conhecido pelos paulistanos como Hospital Matarazzo — e a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo.

O hospital encerrou as atividades em 1993. A área passou pelas mãos da Previ, recebeu uma edição da CASACORem 2003 e foi alvo de diferentes projetos que nunca saíram do papel.

Até que um empresário francês decidiu que queria construí-los. Alexandre Allard, também conhecido como Alex, chegou ao terreno em meados dos anos 2000. Em 2007, segundo conta, apresentou a primeira proposta para comprá-lo. A negociação levou anos. Em julho de 2011, o Grupo Allard fechou a aquisição por R$ 117 milhões, em parceria com o fundo WWI.

“Seria exagerado dizer que eu tive uma visão clara. Eu tive um chamado”, disse Allard durante visita da EXAME ao complexo nesta semana. Ele afirma que o racional não era o de um incorporador em busca do melhor terreno para erguer metros quadrados. O mercado imobiliáriobrasileiro combinava juros altos, dificuldades de execução e margens pouco atraentes. O que o convenceu foi justamente o que tornava o lugar complicado: sua história. 

Quase 20 anos depois da primeira investida de Allard, o conjunto tornou-se o Mata São Paulo, complexo no Cidade Matarazzo. O ecossistema reúne hoje hotelaria, gastronomia, arte, moda, beleza, design e negócios. Entre as operações estão Rosewood São Paulo, Soho House, Casa Bradesco, Mata Lab, AYA Earth Partners e restaurantes como Mata Città, Lavva e Preta Maria. A proposta inicial já previa cerca de 30 mil metros quadrados dedicados a diferentes experiências.

Os investimentos já ultrapassaram R$ 3 bilhões. Em entrevista à Casual EXAME publicada em 2024, quando boa parte do complexo ainda estava para abrir, ele estimava que o projeto total completo chegaria a R$ 3,5 bilhões.

A transformação também mudou o fluxo de pessoas dentro dos antigos muros. Allard fala atualmente em até 20 mil visitantes por dia.

Alexandre Allard: fundador da Mata Company diz que a Cidade Matarazzo nasceu mais da história do terreno do que de uma aposta imobiliária (Leandro Fonseca /Exame)

Como o hospital foi parar nas mãos de um francês

A história do terreno começou muito antes de Allard.

O Hospital Umberto I foi criado pela comunidade italiana de São Paulo e inaugurado em 1904, tendo entre seus principais apoiadores o industrial Francesco Matarazzo. A instituição nasceu para atender principalmente a crescente população de imigrantes italianos da cidade. Nas décadas seguintes, o conjunto ganhou novos edifícios, entre eles a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo, inaugurada na década de 1940.

O hospital entrou em crise financeira ao longo dos anos 1980 e fechou definitivamente em outubro de 1993. Os edifícios, já tombados pelo Condephaat desde 1986, permaneceram sem uma função permanente. Em 1996, a Previ comprou o imóvel por R$ 42 milhões e tentou diferentes destinos comerciais para a área, sem sucesso.

O lugar chegou a ter momentos de vida durante o período de abandono. Em 2003, por exemplo, a antiga maternidade recebeu a Casa Cor. A mostra ocupou cerca de 14.500 metros quadrados, reuniu mais de uma centena de ambientes e levou quase 103 mil visitantes para dentro dos edifícios históricos.

Mas a retomada permanente só começou com a chegada de Allard. A aquisição pelo grupo foi concluída em 2011. Um ano depois, um acordo judicial encerrou um impasse sobre o uso do patrimônio e permitiu avançar com o projeto, desde que respeitadas as restrições dos imóveis tombados.

Patrimônio recuperado: área comprada em 2011 por R$ 117 milhões já recebeu mais de R$ 3 bilhões em investimentos (Leandro Fonseca /Exame)

As obras efetivas ganharam força em 2015. Foi aí que surgiu um dos maiores problemas de engenharia do projeto: como criar um empreendimento de grande escala sem simplesmente demolir os prédios que faziam o lugar ser especial.

“De jeito nenhum eu queria tocar esses prédios incríveis. Cada um tem uma história e uma energia. A única opção era para baixo”, diz Allard.

A solução foi escavar.

Sob os edifícios históricos, foram criados estacionamentos, áreas técnicas, circulação e novos espaços. A intervenção produziu uma das imagens mais conhecidas da obra: a antiga capela temporariamente sustentada enquanto o terreno sob ela era escavado. O resultado é uma espécie de segunda cidade subterrânea, que conecta diferentes operações sem apagar as construções originais.

“Tem uma vida embaixo desses prédios”, diz Allard.

Debaixo da história: preservação dos edifícios tombados levou o projeto a criar grande parte de sua infraestrutura no subsolo (Leandro Fonseca /Exame)

Quem é Alexandre Allard

Antes de transformar o antigo Hospital Matarazzo em um de seus projetos mais ambiciosos, Allard construiu fortuna no mercado de dados e marketing direto na França. Nascido em Washington, em 1968, e criado parte da infância na Costa do Marfim, ele começou a empreender ainda jovem e abandonou uma preparação para a escola de negócios HEC para seguir carreira por conta própria.

Na década de 1990, percebeu o valor comercial das bases de dados de consumidores e, em 1994, criou a Consodata, empresa especializada em reunir e tratar informações para campanhas de marketing. A companhia cresceu rapidamente, expandiu sua atuação para vários países e abriu capital na Bolsa de Paris em 1999. 

Em 2000, a italiana Seat Pagine Gialle, então ligada à Telecom Italia, fechou acordo para assumir o controle da Consodata em uma operação avaliada em 633 milhões de euros. A venda foi o negócio que consolidou a fortuna de Allard ainda na casa dos 30 anos e deu a ele capital para investir em novos projetos. 

Depois da Consodata, Allard passou a concentrar seus investimentos em hotelaria, luxo, imóveis e transformação de marcas. Em Paris, esteve à frente da renovação do Royal Monceau, tradicional hotel próximo ao Arco do Triunfo, projeto que envolveu Philippe Starck e buscou reposicionar o endereço entre os hotéis de alto padrão da capital francesa. Também participou da reestruturação da grife Balmain antes de ampliar sua atuação para projetos imobiliários e de hospitalidade.

Quem mais colocou dinheiro no Mata São Paulo

Transformar o antigo Hospital Matarazzo em negócio exigiu mais do que capital próprio.

Na estrutura financeira divulgada por Allard à EXAME em 2024, ele havia investido R$ 1 bilhão do próprio bolso. Outro R$ 1 bilhão veio da Chow Tai Fook Enterprises, holding de Hong Kong que entrou no projeto ainda na década passada. Outros sócios somavam aproximadamente R$ 500 milhões, além do financiamento bancário.

A parceria com a CTF começou a ganhar escala em 2017. Na época, as empresas anunciaram um aporte adicional de R$ 295 milhões, depois de um primeiro investimento de private equity de R$ 395 milhões. O empreendimento também havia levantado R$ 250 milhões em financiamento com o então Banco Votorantim.

O primeiro grande ativo a entrar em operação foi o Rosewood São Paulo, instalado entre a antiga maternidade restaurada e a Torre Mata Atlântica, edifício de 25 andares desenhado pelo arquiteto francês Jean Nouvel.

O hotel tem 160 suítes, restaurantes, bares e uma coleção de arte brasileira espalhada pelos ambientes concebidos sob direção artística de Philippe Starck. Desde que foi inaugurado, o endereço deixou de ser essencialmente um hotel com um grande canteiro de obras ao redor e começou a ganhar o formato de ecossistema imaginado pelo empresário.

Nova vida: conjunto que ficou fechado por quase duas décadas recebe atualmente milhares de visitantes por dia (Leandro Fonseca /Exame)

O que foi aberto desde então

Boa parte dessa transformação ocorreu justamente nos últimos dois anos, explica David Laloum, executivo francês e braço direito de Allard que acompanha o projeto há anos e hoje atua como Managing Partner de Culture e Community da holding Mata Company.

A Casa Bradesco abriu em 2024 como um centro de criatividade. Seu principal salão tem cerca de 2 mil metros quadrados e já recebeu exposições de artistas como Anish Kapoor, Eva Jospin e, em 2026, a britânica Es Devlin. O projeto é dividido em diferentes espaços — AQUI, ALI, ACIMA e ABAIXO — destinados a exposições, crianças, criação e experiências multidisciplinares.

Na moda e no varejo, o Mata Lab ocupa aproximadamente 3 mil metros quadrados e reúne mais de 300 marcas, com predominância de criadores brasileiros. Em 2026, ganhou novos espaços para beleza, bolsas, sapatos e óculos. A área dedicada à beleza sozinha trabalha com mais de 80 marcas.

Grandes grupos também começaram a usar o endereço para estreias no país. Em agosto, a YSL Beauty inaugurou ali sua primeira boutique física no Brasil, com 27 metros quadrados e produtos que até então só estavam disponíveis no e-commerce da marca.

É na gastronomia, porém, que a mudança aparece de forma mais visível. O badalado Mata Città, inaugurado em dezembro de 2025, gera enormes filas de clientes até hoje. A operação ocupa 1.600 metros quadrados distribuídos em sete ambientes. São espaços inspirados na Itália e na imigração que ajudou a formar São Paulo. A operação mobiliza cerca de 100 profissionais na cozinha e outros 150 no salão.

Neste ano, o restaurante ganhou ainda o Mercato Mata Città, empório com mais de 1.300 produtos, quase mil rótulos de vinho e 18 linhas próprias. Cerca de 80% do portfólio é nacional, segundo a operação.

Em julho, foi a vez do Preta Maria, idealizado por Allard em conjunto com Bela Gil. O restaurante parte da culinária afro-brasileira e de referências pesquisadas pela chef em países como Nigéria, Benim, Costa do Marfim, Angola, Moçambique e Senegal. O menu levou cerca de três anos para ser desenvolvido.

O complexo ainda recebeu o Bachour by Mata, primeira operação permanente no Brasil do confeiteiro Antonio Bachour, além do Lavva, dedicado a carnes e referências do churrasco brasileiro e coreano.

A soma dessas operações ajuda a explicar por que a gastronomia deixou de funcionar como serviço auxiliar do hotel e se transformou em uma das principais portas de entrada do complexo.

Gastronomia em expansão: Mata Città, Lavva, Preta Maria e Bachour by Mata estão entre as operações abertas no complexo (Leandro Fonseca /Exame)

O Cidade Matarazzo valorizou a Bela Vista

Para Allard, a transformação extrapolou os limites do terreno.

O empresário lembra que o trecho da Bela Vista, localizado do lado oposto aos Jardins, era chamado de o “lado errado” da Avenida Paulista. Segundo ele, investidores e consumidores enxergavam a região como menos atraente, percepção que teria mudado com a Cidade Matarazzo.

Há um componente visível nessa mudança: ruas antes pouco movimentadas passaram a receber hotéis, restaurantes, galerias, visitantes e novas operações.

Uma análise feita pela Real Price Labs, com dados de 823.933 compras de apartamentos entre 2006 e agosto de 2026, testou justamente essa hipótese.

O estudo mostra que, de setembro de 2023 a agosto deste ano, o metro quadrado registrado nas escrituras subiu 12,4% na Bela Vista e 13,4% no Jardim Paulista.

Dentro do raio de 1 quilômetro do Matarazzo, a alta chegou a 15,3%. Os pesquisadores explicam que esse desempenho representa a recuperação de uma defasagem anterior.

Passado e presente: arquitetura centenária do Hospital Matarazzo divide espaço com hotel, restaurantes, moda, arte e novos projetos (Leandro Fonseca /Exame)

O que ainda falta abrir

Apesar do volume de inaugurações, Allard ainda não considera a obra encerrada. Uma das principais novidades está justamente debaixo da terra.

Durante a visita da EXAME ao complexo, David apresentou uma área ainda em testes ligada à Casa Bradesco. O espaço foi criado para receber exposições imersivas, apresentações, DJs e eventos com capacidade estimada para 1.500 pessoas.

O nome ainda é um mistério, imagens do projeto também. Segundo Laloum, o espaço terá 700 metros quadrados de telas de LED e 280 milhões de pixels.

O executivo compara a densidade de imagem à Sphere, em Las Vegas, e afirma que, apesar de muito menor fisicamente, a sala terá mais pixels.

“Vamos produzir coisas que nunca aconteceram antes. Queremos organizar um encontro entre música, espectador e imagem”, diz Allard sobre a nova sala.

Há também novas apostas em gastronomia, além de um projeto maior voltado a saúde e longevidade. Allard chama a próxima etapa de uma espécie de “hospital do terceiro milênio”, numa referência direta à função original daquele terreno. O lançamento é previsto para o primeiro semestre de 2027.

Golden Goose - Cidade Matarazzo

Cidade dentro da cidade: complexo reúne Rosewood, Soho House, Casa Bradesco, Mata Lab, AYA e operações de gastronomia (DIvulgação)

É um círculo que, ao menos na narrativa do empresário, se fecha: o lugar criado para cuidar de pessoas no início do século 20 voltaria a ter saúde entre suas atividades mais de cem anos depois — agora misturada a hotelaria, comida, arte, moda, tecnologia e entretenimento.

Allard evita falar na Cidade Matarazzo como um empreendimento imobiliário convencional. Para ele, o produto vendido ali não são apenas quartos, refeições ou metros quadrados.

“Você não compra só ocupação”, diz. “As pessoas sentem que existe alguma coisa no ar".

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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