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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
07/08/2026
6 min

Como um mercadinho do interior de SP virou um império de supermercados de R$ 7,9 bilhões

Fundado por Aparecido Savegnago em 1976, o grupo chega aos 50 anos com 64 lojas, 11 atacarejos e 14.300 funcionários — e lidera o varejo alimentar fora da capital paulista

Como um mercadinho do interior de SP virou um império de supermercados de R$ 7,9 bilhões

Em 1976, Aparecido Savegnago tinha 46 anos e um negócio em extinção. A máquina de beneficiar arroz que ele tocava em Sertãozinho perdia espaço para o arroz agulhinha que vinha do Sul.

Ele fechou tudo, comprou um mercado de bairro de 300 metros quadrados, com dois caixas e seis funcionários, e colocou ali todo o patrimônio da família. Inclusive a casa onde morava.

"Só tinha que dar certo. Não tinha outra opção", diz Chalim Savegnago, filho de Aparecido e, hoje, presidente-executivo do Grupo Savegnago.

Chalim tinha pouco mais de 20 anos quando o pai dividiu o negócio: 25% para cada um dos três filhos homens e 25% para si. Meio século depois, aquele mercado único virou uma rede com 64 lojas do Savegnago Supermercados, 11 unidades do atacarejo Paulistão, sete postos de combustível e mais de 14 mil funcionários, presente em 23 municípios do interior paulista.

Em 2025, o grupo faturou 7,9 bilhões de reais, o que o coloca na 17ª posição do país e na liderança entre as redes do interior de São Paulo, segundo o Ranking ABRAS 2026.

O grupo chega a 2026 comemorando 50 anos, e o aniversário coincide com um momento de disputa acirrada no setor.

O atacarejo foi o formato que mais cresceu no varejo alimentar brasileiro na última década e pressiona as margens das redes tradicionais de supermercado. O Savegnago entrou nesse jogo tarde, no fim de 2022, e hoje corre para montar musculatura em um canal onde concorrentes maiores já estão consolidados.

Chalim não vê os dois formatos como rivais, mas defende que cada um precisa se manter fiel à própria função.

"O supermercado que quer fazer igual atacarejo vai perder, porque ele não tem a força do atacarejo. Então o supermercado tem que fazer igual supermercado", afirma.

Para ele, a saída do varejo tradicional é vender serviço e conveniência: mais perecível, comida pronta, verdura já lavada. O Savegnago trabalha com cerca de 14 mil itens por loja, contra 7.500 no atacarejo.

Para os próximos anos, o plano é crescer nas duas bandeiras.

O grupo prevê inaugurar mais unidades do Paulistão em 2026 e abrir uma nova loja do Savegnago no Shopping Dom Pedro, em Campinas. Em paralelo, mantém uma agenda de reforma e ampliação que reconstrói cinco a seis lojas por ano, o que, segundo a empresa, faz com que a unidade mais antiga da rede tenha no máximo 10 a 12 anos de estrutura.

Qual é a história do Savegnago

Aparecido Savegnago fornecia arroz para o dono de um supermercado de Sertãozinho antes de comprar o próprio negócio.

Quando o ramo de beneficiamento entrou em declínio, ele decidiu mudar de setor. Comrpou um supermercado. Mas a verdade era que a família não tinha experiência no varejo. Nem sabia manegar estoque. Comprou uma loja abastecida e foi aprendendo o que vendia mais para repor.

Deu certo rápido. Em 1978, dois anos depois, a rede dobrou o tamanho da primeira loja e passou a comprar outros mercados da cidade. No fim de 1979, já eram cinco unidades em Sertãozinho.

"A gente não era o maior supermercado da cidade, nem o melhor em estrutura física. Mas focamos no atendimento, no trabalho, na dedicação", afirma Chalim.

A trajetória atravessou as crises econômicas das décadas seguintes, do congelamento do Plano Cruzado ao confisco da poupança no Plano Collor em 1990 e à hiperinflação que corroía o preço das mercadorias de uma semana para a outra.

Foi só com a estabilização da economia, a partir do Plano Real em 1994, que a rede acelerou de vez, aproveitando o aumento do poder de compra do consumidor para expandir pela região de Ribeirão Preto, no interior Paulista.

Como ela se tornou um gigante do interior

O crescimento do Savegnago seguiu uma lógica de planos de expansão sucessivos, sempre por regiões do interior.

Primeiro Ribeirão Preto, com foco em cidades acima de 45 mil habitantes. Depois a região de São Carlos, mirando municípios acima de 80 mil habitantes — Araraquara, São Carlos, Matão, Leme, Araras, Rio Claro.

A partir de 2017, a rede entrou na região de Campinas, com Sumaré, Piracicaba, Limeira, Hortolândia e a própria capital regional.

No fim de 2022, o grupo estreou no atacarejo com o Paulistão, inaugurando a primeira unidade em Rio Claro. Hoje são 11 lojas do formato. A empresa também opera desde 2008 no ramo de combustíveis, com sete postos próximos às lojas.

A estratégia de sortimento é um dos pilares que Chalim aponta para explicar a aderência da rede ao consumidor local. O Savegnago não trabalha com marca própria.

Ao entrar em uma cidade nova, mapeia os produtos líderes daquela região, seja um café, um refrigerante, uma marca de macarrão, e os inclui no mix.

"Nós queremos vender para os nossos clientes os produtos que eles gostam de comprar", afirma. "Não empurrar marca própria".

Segundo a empresa, 85% das vendas são identificadas por CRM, sistema que registra o histórico de compras de cada cliente.

Como é a distribuição de lucro

O grupo distribui 25% do resultado líquido aos funcionários em dois pagamentos por ano, uma prática que, segundo Chalim, existe desde 1978.

A empresa também monta refeitórios próprios nas lojas. Mais de 80% das unidades já contam com a estrutura, que emprega cerca de 500 pessoas entre cozinheiros e ajudantes para servir refeições diárias aos 14 mil funcionários.

Tudo isso ajuda o Savegnago a enfrentar a maior dor dos supermercadistas: rotatividade e falta de mão de obra.

A rede também se antecipou à discussão sobre jornada de trabalho. Depois de um teste-piloto no fim de 2025, adotou a escala 5 por 2 em todas as lojas a partir do início de 2026, embora ainda dentro da jornada de 44 horas.

Chalim diz que a mudança foi absorvida sem repasse a preços.

Sobre uma eventual redução da jornada legal, o executivo é cauteloso, e conecta a preocupação à margem apertada do setor. "A gente é bem ajustado, não tem lucro líquido alto. É menos de 3% na última linha, então a gente tem que administrar isso", afirma.

Ele defende que, se a redução vier, seja feita de forma gradual, para o setor se acomodar sem pressão de custo.

Aposta para o futuro

Meio século depois da aposta de Aparecido, o discurso da empresa mistura orgulho e ambição.

"Ver o Grupo Savegnago entre as maiores redes do Brasil mostra que é possível crescer sem abrir mão dos valores que nos trouxeram até aqui", afirma Chalim. "Queremos continuar crescendo sem perder a essência da empresa, criar oportunidades, valorizar as pessoas e contribuir para o desenvolvimento das comunidades onde estamos presentes."

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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