Como um visto negado salvou esta indústria de SP que agora chega aos R$ 300 milhões
Casal Yuri Abreu e Fabiula Freire reconstruiu a Soldiers Nutrition, de suplementos, durante a pandemia. Agora, empresa investe R$ 35 milhões em uma fábrica e agora avança sobre novas marcas e categorias

Em 2020, Yuri Abreu e Fabiula Freire estavam preparados para encerrar a empresa de suplementos criada por ele seis anos antes. O negócio acumulava dívidas, tinha apenas uma funcionária e registrava cerca de dez pedidos por dia. Com o nome comprometido, o casal sequer conseguia alugar diretamente um imóvel. A saída imaginada era deixar o Brasil e recomeçar a vida em Atlanta, nos Estados Unidos.
O plano terminou no consulado americano, quando o visto de Fabiula foi negado.
Sem a possibilidade de emigrar, os dois voltaram para a empresa e iniciaram uma reconstrução da Soldiers Nutrition, baseada em cortes de despesas, atenção ao consumidor e dedicação integral à operação. Fabiula assumiu a limpeza do imóvel para economizar R$ 1.200 por mês. Yuri retomou a motocicleta e passou a fazer pessoalmente as entregas, poupando os R$ 15 que seriam pagos a um motoboy por pedido. Com dez vendas diárias, a troca representava até R$ 150 economizados por dia.
Seis anos depois, a Soldiers Nutrition se reergueu, pagou dívidas e projeta faturar ao menos R$ 300 milhões em 2026. A companhia saiu de uma receita de R$ 18 milhões em 2022 para R$ 280 milhões no ano passado.
A empresa fabrica suplementos como creatina e whey protein e construiu sua distribuição principalmente por canais digitais. O Mercado Livre, onde Yuri começou a anunciar os produtos ainda nos primeiros anos do negócio, continua sendo o maior canal de vendas. Hoje, porém, a operação também engloba outros marketplaces, produção para terceiros, barras proteicas, produtos licenciados e uma marca de roupas esportivas.
A expansão foi financiada majoritariamente pelo caixa da própria empresa, com uso pontual de crédito bancário e sem aportes de fundos de investimento. O maior passo foi a abertura de uma fábrica de 10 mil metros quadrados em Cajamar, na Grande São Paulo. O investimento ficou próximo de R$ 35 milhões.
“Foi tudo feito com as nossas próprias forças e com o nosso fluxo de caixa. Obviamente, às vezes pegamos dinheiro de um banco, mas nunca tivemos alguém que entregasse capital para acelerar a empresa”, diz Abreu, CEO e fundador da Soldiers.
Como a Soldiers foi criada
A origem da Soldiers não foi um plano elaborado para explorar o crescimento do mercado de suplementos. O negócio começou, na prática, porque Yuri não conseguia comprar os produtos que um nutricionista havia recomendado.
Em 2014, aos 21 anos, ele trabalhava com tecnologia e havia prestado serviços para empresas como Samsung, Unimed e Fleury. Naquele mesmo período, recebeu duas notícias que alterariam sua trajetória: descobriu que seria pai e, pouco depois, foi demitido.
Morador da zona leste de São Paulo e praticante de musculação, ele ganhou uma consulta com um nutricionista, mas avisou que não teria recursos para seguir todo o plano de suplementação. O profissional indicou uma loja na região central de São Paulo que vendia produtos a granel.
No estabelecimento, uma creatina que custava cerca de R$ 100 no varejo era comercializada por R$ 50. Yuri comprou o produto, testou e passou a oferecê-lo a colegas da academia. O modelo inicial era elementar: comprava por R$ 50 e revendia por R$ 80.
Como não tinha capital de giro, recebia antecipadamente dos clientes, comprava os produtos e fazia a entrega no dia seguinte.
A operação funcionava na casa de sua mãe. Sem uma seladora profissional, Yuri aquecia uma faca no fogão e usava a parte lisa da lâmina para fechar as embalagens. A primeira máquina foi comprada com o cartão da mãe. As entregas eram realizadas em uma motocicleta de 125 cilindradas, preservada até hoje pela família.
“Naquele momento, eu não imaginava construir uma indústria. Queria encontrar uma forma de vender um produto que eu mesmo não conseguia comprar e levantar dinheiro para me sustentar”, afirma.
O digital como atalho para ganhar escala
A experiência na área de tecnologia influenciou uma das primeiras decisões estratégicas da empresa. Em vez de depender exclusivamente da venda em academias e lojas especializadas, Yuri começou a anunciar os produtos no Mercado Livre.
O canal permitiu que uma operação pequena, localizada na periferia de São Paulo, alcançasse consumidores de diferentes regiões do país. A empresa adotou um modelo direto ao consumidor, reduzindo intermediários e usando as plataformas digitais para oferecer preços mais competitivos.
O Mercado Livre continua sendo o principal canal comercial da Soldiers.
Na época, o mercado brasileiro de suplementos era menor e mais concentrado. Havia poucas marcas nacionais, grande presença de produtos importados e preços que afastavam parte dos consumidores. A tese da Soldiers foi atender justamente o público que queria suplementação, mas não conseguia arcar com os valores praticados.
Um dos movimentos foi lançar creatina em embalagens de um quilo, enquanto concorrentes vendiam potes menores. A decisão aumentava o tíquete da venda e prolongava o relacionamento com o cliente, mas reduzia o preço por grama.
Segundo o fundador, a embalagem maior representava uma resposta ao comportamento do consumidor — e não apenas uma escolha comercial.
“Voltamos a olhar para o básico: o que o cliente realmente quer, o que procura e onde está procurando. Passamos a criar produtos e ofertas que não eram necessariamente o que nós queríamos vender, mas o que o consumidor estava buscando”, diz Yuri.
A creatina tornou-se o principal produto da empresa e hoje responde por 60% do faturamento, segundo o executivo. A companhia afirma estar entre os três maiores fabricantes e vendedores do produto no Brasil, mas não apresentou dados independentes de participação de mercado.
O período mais difícil da empresa
Fabiula conheceu Yuri em 2017, três anos depois do início da empresa. Formada em Administração com ênfase em comércio exterior, ela havia trabalhado em companhias como Philips e GE e também acumulava experiências próprias no empreendedorismo.
Antes da Soldiers, tentou construir um negócio ligado à Herbalife, voltou ao mercado de trabalho e depois empreendeu com a sogra na área de estética. Ela descreve a própria trajetória como um “mosaico”, composto por diferentes ocupações até chegar definitivamente à empresa de suplementos.
A entrada ocorreu justamente no momento mais delicado do negócio. A partir de 2018, Yuri reduziu sua presença na operação para acompanhar a mãe, que enfrentava um câncer pela terceira vez. Ele também reconhece ter cometido erros de gestão e utilizado parte do caixa em decisões pessoais, como uma viagem com a mãe. Sem estrutura administrativa e com pouco conhecimento financeiro, a empresa começou a perder força.
A situação piorou em 2019 e chegou ao limite no começo da pandemia. O casal se casou em fevereiro de 2020 e planejou deixar o país. O negócio tinha dívidas, nome negativado e apenas uma funcionária.
“Eu não entrei no auge da empresa. Entrei quando ela estava em declínio, quando vendíamos muito pouco e pensávamos em abandonar tudo”, afirma Fabiula.
O visto negado obrigou os dois a rever o plano. Sem um caminho alternativo, decidiram dedicar todo o tempo disponível à Soldiers.
Além de cortar despesas, Yuri voltou temporariamente a desenvolver projetos de tecnologia. Um desses trabalhos gerou recursos suficientes para pagar as dívidas. Depois dos pagamentos, restaram R$ 0,82 na conta bancária da companhia — valor que o casal passou a tratar como símbolo do momento em que o negócio finalmente saiu do vermelho.
A lição de voltar ao básico
A recuperação não veio de uma única decisão. Segundo o fundador, o avanço resultou de uma sequência de pequenos movimentos: revisão de custos, atendimento direto aos consumidores, ajustes no portfólio e aproveitamento de novos canais comerciais.
Em vez de se afastarem da rotina da operação, Yuri e Fabiula passaram a acompanhar pessoalmente reclamações e contatos de clientes. Quando surgia uma queixa em plataformas como o Reclame Aqui, eles próprios telefonavam para tentar resolver o problema.
Para o CEO, a principal lição daquele período foi que a recomendação recorrente para o empreendedor “sair do operacional” pode ser perigosa quando a empresa ainda não domina seus fundamentos.
“Às vezes, o empresário para de olhar para o arroz com feijão. Nós voltamos a dar atenção às coisas básicas: produto, oferta, atendimento, custo e cliente”, diz.
A lógica também foi aplicada ao desenvolvimento de produtos. Em vez de lançar apenas aquilo que os fundadores consideravam interessante, a empresa passou a analisar termos buscados nos marketplaces, dúvidas recebidas no atendimento e formatos procurados pelo público.
Outra mudança ocorreu na formação dos gestores. Em 2022, quando as vendas começaram a acelerar, o casal procurou mentorias, eventos e programas de educação empresarial.
Na avaliação de Fabiula, o negócio havia chegado a um ponto em que esforço e conhecimento técnico sobre o produto já não eram suficientes. Era necessário aprender sobre gestão, contratação, processos e planejamento.
“A empresa cresce até o limite do empresário que a lidera. O empresário precisa evoluir e se desenvolver para que o negócio também consiga crescer”, afirma.
A experiência mais tarde deu origem a um braço de educação empresarial, voltado a empreendedores que buscam estruturar e escalar seus negócios.
Uma fábrica maior do que a demanda atual
Para reduzir a dependência de terceiros e aumentar o controle sobre a produção, a Soldiers investiu na verticalização. A fábrica de Cajamar começou a operar em julho de 2025 e recebeu mais de R$ 35 milhões de investimento.
A planta tem 10 mil metros quadrados, quatro linhas instaladas e capacidade para produzir mais de 12.000 toneladas anuais. São fabricados 145 SKUs (tipos de produtos e suas variações), e a unidade emprega 170 pessoas.
A fábrica foi projetada deliberadamente com espaço ocioso. Yuri diz que apenas 20% da capacidade total está em uso.
“Colocamos todas as nossas fichas nessa fábrica”, afirma Yuri. “Ela não foi feita apenas para atender à demanda atual, mas para a empresa que pretendemos construir.”
A verticalização permite à Soldiers controlar etapas da fabricação, reduzir dependência de fornecedores externos e acelerar o lançamento de produtos. A estrutura também abre uma nova fonte de receita: a produção de suplementos e alimentos funcionais para outras marcas.
