Como uma startup virou a guardiã dos arquivos da CBF — e quer desafiar gigantes de fotografia

Fotos, vídeos, contratos, campanhas e documentos de empresas se acumulam em diferentes plataformas, agências e fornecedores. Organizar esse acervo virou um desafio que mistura tecnologia, governança e propriedade intelectual.
Foi nesse mercado que a Yapoli encontrou espaço para crescer. Criada há oito anos, a startup desenvolveu uma plataforma para gestão de ativos digitais, área conhecida como Digital Asset Management (DAM), usada por empresas como Havaianas, Portobello, Globo e Record.
A nova fase da empresa acontece em um momento de maior exposição.
A Yapoli passou a operar o CBF Media Center, plataforma que centraliza fotos e vídeos da entidade para uso da imprensa global. Em apenas duas semanas, o canal registrou mais de 250 mil acessos e cerca de 2 mil cadastros de profissionais de mídia.
O próximo passo da empresa é transformar essa visibilidade em crescimento comercial. Depois de atingir faturamento acumulado de R$ 10 milhões desde a fundação, a expectativa é fechar este ano com cerca de R$ 2,5 milhões em receita e iniciar uma expansão para outros países da América Latina.
A dor surgiu dentro de uma agência
Antes de empreender no ramo digital, Adalberto Generoso comandou uma agência de publicidade. Dessa experiência percebeu que as grandes marcas ainda não faziam a gestão de seus materiais digitais.
“Como agência, tínhamos uma dificuldade muito grande em conseguir captar materiais atualizados como logotipo e fotos de produtos”, diz.
Em muitos casos, ele percebeu que arquivos importantes se perdiam após mudanças de contrato de agências. Ao pesquisar o mercado, encontrou soluções semelhantes nos Estados Unidos e na Europa, mas nenhuma operação local que atendesse empresas brasileiras.
Resolveu transformar o problema em soluções. Vendeu sua participação na agência e fundou a Yapoli em 2018 ao lado da sócia Laura Coló.
O desafio de educar o mercado
Quando a empresa começou a operar, em 2018, poucas organizações brasileiras conheciam o conceito de gestão de ativos digitais.
As que já utilizavam esse tipo de solução normalmente contratavam plataformas estrangeiras e pagavam em dólar ou euro. Foi nessas empresas que a startup apostou a sua atuação inicial.
Um de seus primeiros clientes foi a Alpargatas, dona da Havaianas, que migrou de uma empresa estrangeira para uma brasileira.
Para chegar às empresas que ainda não adotavam esse tipo de solução, a startup precisou convencer as companhias de que fotos, vídeos e documentos deveriam ser tratados como ativos estratégicos.
“A partir do momento que um material errado é publicado ou uma coleção é vazada antes da hora, o prejuízo pode ser muito maior do que o custo da licença da plataforma”, afirma Generoso.
A estratégia desde o início foi focar grandes corporações, que possuem operações complexas e alta capilaridade de parceiros, distribuidores e fornecedores.
Como funciona o ‘cofre digital’
A plataforma opera como um ambiente personalizado para cada cliente. A Havaianas, por exemplo, utiliza o Connect Havaianas. Já a CBF utiliza o CBF Media Center.
Quando um distribuidor, agência ou parceiro precisa de uma imagem, vídeo ou documento, acessa esse ambiente oficial em vez de depender de trocas por e-mail, links temporários ou aplicativos de armazenamento.
A pessoa terá acesso apenas às pastas que fazem sentido para a sua função, mantendo a segurança e privacidade de demais documentos. A plataforma também possui busca de pesquisas e filtros que facilitam a localização de ativos digitais.“Viramos o Google dessas empresas. O usuário busca um termo e encontra rapidamente o conteúdo autorizado para ele”, diz.
Hoje a plataforma administra mais de 10 milhões de arquivos digitais. Além de fotos e vídeos, a ferramenta armazena contratos, plantas de engenharia, documentos técnicos e materiais históricos.
A entrada no futebol
O mercado esportivo entrou no radar da startup após uma aproximação do Flamengo em 2020. O clube buscava trazer para sua operação práticas de gestão digital já utilizadas por grandes empresas de varejo.
A experiência abriu portas para novos contratos com Corinthians, Confederação Brasileira de Voleibol e, neste ano, a CBF.
De acordo com Generoso, o setor esportivo enfrenta desafios semelhantes aos das grandes corporações: produção massiva de conteúdo, múltiplos parceiros e necessidade crescente de controle sobre o uso de imagens.
“Uma instituição como a CBF produz uma quantidade enorme de conteúdo. É a história do futebol brasileiro sendo gerada todos os dias”, afirma.
O resultado foi a criação do CBF Media Center, plataforma usada por veículos de imprensa para acessar imagens oficiais da seleção brasileira.
A atuação tem servido como uma importante alavanca de visibilidade para a empresa. A participação em um dos maiores eventos esportivos do planeta tem ampliado o reconhecimento da plataforma entre profissionais da comunicação e do mercado esportivo.
Ele afirma que a exposição conquistada com o projeto tende a se intensificar nos próximos anos, impulsionada pelo calendário de grandes competições esportivas, incluindo a Copa do Mundo de 2030 e os Jogos Olímpicos de 2028.
“A parceria com a CBF nos deu uma visibilidade descomunal e validou nossa solução diante do mercado”, diz Generoso.
A aposta na propriedade intelectual
A estratégia da Yapoli vai além do armazenamento de arquivos. A empresa quer se posicionar como uma infraestrutura para gestão de direitos sobre conteúdos digitais.
“Uma foto da seleção brasileira pode envolver fotógrafos, CBF, jogadores, patrocinadores e até a FIFA. Nossa plataforma centraliza a gestão dos direitos de todos os envolvidos”, diz. “A gestão de propriedade intelectual está se tornando tão importante quanto a gestão do arquivo em si”, afirma Generoso.
O objetivo é criar mecanismos que permitam rastrear, controlar e eventualmente comercializar conteúdos de forma mais transparente, diferente do que acontece em plataformas como Getty Images, onde apenas o direito do fotógrafo é garantido.
“Hoje existe um volume grande de imagens circulando em plataformas globais sem controle das marcas. Nosso objetivo é empoderar essas marcas para que concentrem seus conteúdos em canais oficiais e com governança adequada”, diz.
Expansão para a América Latina
Apesar de atuar apenas com clientes brasileiros, a empresa já começou a receber demandas de fora do país. Os primeiros contatos vieram de organizações do Chile e da Inglaterra, que procuraram a startup de forma espontânea.
Por enquanto, a prioridade continua sendo consolidar a operação nacional. A internacionalização deve começar pelos países vizinhos, aproveitando a visibilidade conquistada no mercado esportivo.
“Nos últimos dois anos e meio, o interesse pelo tema cresceu muito. Agora estamos entrando numa fase de escala”, afirma.
