Concorrência à vista: B3 (B3SA3) pode ser ameaçada com novas bolsas?
A perspectiva de concorrência no mercado de bolsas brasileiro, há anos vista como uma possibilidade distante, começa a ganhar contornos mais concretos. Três iniciativas em desenvolvimento — A5X, Base Exchange e CSD BR — avançam em seus planos operacionais e regulatórios para desafiar a hegemonia da B3, a única bolsa de valores em operação no […]

A perspectiva de concorrência no mercado de bolsas brasileiro, há anos vista como uma possibilidade distante, começa a ganhar contornos mais concretos. Três iniciativas em desenvolvimento — A5X, Base Exchange e CSD BR — avançam em seus planos operacionais e regulatórios para desafiar a hegemonia da B3, a única bolsa de valores em operação no país.
O movimento ganhou força após a recente rodada de captação da A5X, que atraiu investidores como Morgan Stanley, Goldman Sachs, XP e Kaszek. Reportagens recentes do Brazil Journal e do NeoFeed indicam que a companhia está entrando em uma fase decisiva de sua preparação e mantém a expectativa de iniciar suas operações no segundo trimestre de 2027.
A estratégia da A5X é começar pelo mercado de derivativos, segmento considerado pela administração como o caminho mais rápido para conquistar escala, liquidez e rentabilidade.
Na avaliação do BTG Pactual, um dos diferenciais destacados pela administração é a tecnologia desenvolvida em parceria com a London Stock Exchange Group (LSEG). Segundo a A5X, a plataforma terá latência inferior a 50 microssegundos, significativamente abaixo dos cerca de 350 microssegundos observados atualmente na B3.
Liquidez segue como principal desafio
Apesar do avanço operacional, o principal obstáculo para qualquer nova bolsa continua sendo a construção de liquidez.
Em mercados financeiros, a existência de tecnologia competitiva não garante o sucesso de uma plataforma. A capacidade de atrair investidores, corretoras e formadores de mercado é considerada crucial para que os volumes negociados atinjam escala suficiente.
A A5X aposta justamente em sua base acionária para enfrentar esse desafio. Entre seus investidores estão grandes market makers globais, como Jump Trading, Optiver e XTX Markets, além da ABN Amro Clearing, instituição especializada em compensação.
Segundo a companhia, o capital levantado recentemente deve ser suficiente para financiar o negócio até o ponto de equilíbrio, reduzindo a necessidade de novas captações durante a fase inicial de crescimento.
Concorrentes miram nichos diferentes
Embora a A5X seja atualmente o projeto mais avançado, outras plataformas também buscam espaço no mercado brasileiro.
A Base Exchange pretende iniciar operações no segundo semestre de 2027 com foco em ações, ETFs e fundos imobiliários. A estratégia da empresa é aproveitar a infraestrutura e a rede da Flowa, que conecta corretoras e centenas de gestoras de recursos.
Já a CSD BR segue uma abordagem distinta. A companhia já atua nos segmentos de registro, depósito centralizado e liquidação e planeja expandir sua atuação para a negociação de ativos por meio de um mercado de balcão organizado.
Segundo análise do BTG Pactual, a CSD BR dificilmente causará impacto relevante sobre os resultados da B3 no curto prazo.
Ainda assim, a instituição destaca que o cenário competitivo está se tornando cada vez mais tangível, impulsionado pela expansão das receitas da empresa e pela evolução de sua infraestrutura de pós-negociação.
Um dos pontos que chamam atenção é que a CSD BR já teria ultrapassado a B3 em participação de mercado nos swaps de balcão em aberto, indicando capacidade de ganhar espaço em nichos específicos do sistema financeiro.
Mercado brasileiro ainda é concentrado
As novas iniciativas também enfrentam uma limitação estrutural: o tamanho relativamente reduzido do mercado brasileiro quando comparado às principais bolsas globais.
Segundo dados citados pelo NeoFeed, o volume médio diário negociado na Bolsa de Nova York (NYSE) é aproximadamente 17 vezes superior ao da B3. Bolsas como as de Londres, Tóquio, Índia e a Euronext movimentam entre duas e cinco vezes mais recursos que o mercado brasileiro.
Esse cenário torna a disputa por liquidez ainda mais desafiadora para novos entrantes, segundo o BTG, mas também reforça o argumento de que há espaço para ganhos de eficiência, redução de custos e desenvolvimento de novos produtos.
Pressão competitiva pode beneficiar investidores
Para o banco, o surgimento de rivais representa uma mudança importante em um mercado que opera há anos sob a estrutura de uma única bolsa.
A principal aposta das novas plataformas é oferecer preços mais competitivos para negociação e pós-negação, além de soluções tecnológicas mais rápidas e flexíveis.
No caso da A5X, a administração já declarou que pretende praticar tarifas significativamente inferiores às atualmente cobradas no mercado.
Embora a liderança da B3 não pareça ameaçada no curto prazo, o avanço simultâneo de A5X, Base Exchange e CSD BR sugere que a competição no setor de infraestrutura financeira brasileiro pode deixar de ser uma promessa para se tornar uma realidade ao longo dos próximos anos.
Com lançamentos previstos para 2027 e investidores de peso apoiando os projetos, a disputa pela liquidez do mercado local começa a entrar definitivamente no radar dos participantes do setor.
