Conheça a fabricante de 60 anos no interior de SP que vai faturar R$ 1 bilhão com fitas adesivas
Fundada em uma antiga papelaria, indústria investiu mais de R$ 100 milhões na operação e aposta em varejo, indústria e novos produtos para quase dobrar de tamanho até 2030

Fitas adesivas estão em lugares menos óbvios do que a gaveta de material escolar. Elas reforçam a costura de sapatos, entram na fabricação de eletrodomésticos e podem até ajudar a sustentar os vidros das fachadas de prédios. Há uma indústria brasileira de 59 anos por trás de parte desse mercado.
É a ADERE, fabricante de fitas adesivas fundada em Campinas e hoje instalada em Sumaré, no interior de São Paulo. A empresa produz mais de 1.000 itens para construção civil, varejo e diferentes segmentos industriais e tem capacidade para fabricar cerca de 11 milhões de metros quadrados de fitas por mês. Em fita crepe, diz deter entre 50% e 60% do mercado brasileiro.
Agora, a companhia familiar quer aumentar bastante essa escala. A previsão é fechar 2026 com faturamento de R$ 530 milhões e alcançar R$ 1 bilhão em 2030.
O plano começou a ganhar forma dentro da fábrica. Nos últimos 18 meses, a ADERE investiu mais de R$ 100 milhões em expansão e tecnologia. A unidade de Sumaré ganhou 10 mil metros quadrados, novas máquinas e equipamentos de laboratório. A empresa também reforçou a gestão e começou a levar a marca para outras categorias no varejo.
“Estamos preparando a empresa para isso, investindo em estrutura, em máquinas e, principalmente, em pessoas”, afirma Luis Gustavo Dias, CEO da ADERE e filho do fundador. “Montamos uma linha de diretores, uma camada que nós não tínhamos.”
A estratégia para buscar os quase R$ 500 milhões que separam a empresa da meta passa por dois caminhos principais. No varejo, a fabricante quer ocupar mais espaço nas lojas e vender produtos além das fitas. Na indústria, pretende desenvolver mais soluções sob medida — justamente a parte do negócio que faz uma fita adesiva acabar dentro de um sapato ou na fachada de um edifício.
Qual é a origem da ADERE
A origem da ADERE está no varejo. Luís Gonzaga Dias, imigrante português e pai do atual CEO, era dono de uma papelaria. Entre os produtos vendidos nas prateleiras estava a fita adesiva conhecida popularmente como "durex". Foi nesse período que alguém sugeriu que ele próprio entrasse na fabricação.
Segundo Gustavo Dias, havia poucas empresas produzindo fitas no Brasil naquele momento. O pai decidiu testar a oportunidade e migrou do comércio para a indústria. Mais tarde, vendeu a papelaria para se dedicar integralmente ao novo negócio.
A ADERE foi fundada em 1967. Primeiro vieram as fitas transparentes, depois as de empacotamento. Aos poucos, novas categorias passaram a fazer parte da produção.
“Cada produto é uma conquista, porque cada produto tem uma forma diferente de ser fabricado. Você pode usar a mesma máquina, mas com formulações diferentes”, afirma Dias.
O atual CEO entrou na companhia em 1995. Engenheiro químico formado no ano anterior, havia passado um período na França fazendo uma especialização em impressão e transformação de papel. Começou como vendedor, passou pelos cargos de gerente e diretor e depois assumiu o comando.
A sucessão manteve a companhia nas mãos da família. Dos cinco irmãos, Gustavo é o único que trabalha na operação. Os outros quatro integram o conselho, junto de dois conselheiros externos.
Luís Gonzaga, o fundador, permaneceu na rotina da empresa até o início da pandemia, quando tinha 88 anos. Preocupado com acovid-19, deixou de frequentar a fábrica e não voltou depois disso.
“Ele sempre falou que o hobby dele era trabalhar”, afirma Dias. “Você começa um negócio do zero e ele fica desse tamanho. Acho que não tem motivador maior.”
Como a ADEE cresceu
A variedade de aplicações ajuda a entender como uma fabricante de fitas chegou a um portfólio com mais de 1.000 itens. Há o uso conhecido pelo consumidor: fita crepe para pintura, fita de empacotamento e produtos encontrados em papelarias. Mas boa parte do mercado está dentro de outros produtos ou de processos industriais e, por isso, passa despercebida.
Naconstrução civil, hoje o principal mercado da ADERE, a fita pode aparecer nas duas pontas de uma obra. Durante o acabamento, a crepe protege áreas durante a pintura. Em edifícios com fachadas de vidro, fitas dupla face de alta resistência podem participar da fixação dos painéis.
A lista inclui ainda linhas de produção de refrigeradores, automóveis, caixas de papelão, embalagens, gráficas e produtos hospitalares.
No setor calçadista, a aplicação é ainda menos visível. A ADERE mantém uma fábrica em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, dedicada ao segmento. Uma das fitas produzidas ali fica por baixo da costura do couro para evitar que o material se deforme com o uso.
“O couro não tem memória. Se não tiver por baixo da costura aquela fita adesiva, que a gente fala que é o esqueleto do sapato, o couro esgarça”, afirma Dias.
A companhia vende tanto para outras indústrias quanto para o varejo. Entre as redes citadas pelo CEO estão Leroy Merlin, Obramax e Kalunga. A ADERE também está entrando com mais produtos em supermercados.
Segunda geração: Luis Gustavo Dias assumiu o comando da fabricante fundada pelo pai, Luís Gonzaga Dias, em 1967 (ADERE/Divulgação)
Qual é o tamanho da produção
O centro da operação está em Sumaré, a cerca de 90 quilômetros da cidade de São Paulo.
A fábrica tem 28 mil metros quadrados de área construída. Em 2012, a ADERE aumentou o espaço de cerca de 14 mil para 18 mil metros quadrados. A segunda expansão, inaugurada entre 2023 e 2024, acrescentou outros 10 mil metros quadrados.
A capacidade instalada chega a 11 milhões de metros quadrados de fitas por mês. Segundo Dias, entre 90% e 95% da linha comercializada é produzida pela própria companhia. Uma parcela de produtos de menor valor agregado chega semiacabada da China.
Além de Sumaré e da fábrica gaúcha, a empresa mantém um centro de distribuição em Recife para atender o Nordeste. São cerca de 400 funcionários, a maioria na unidade paulista, e exportações para 17 países.
Para levar a receita dos R$ 530 milhões esperados neste ano ao primeiro bilhão, a ADERE começou pelo chão de fábrica. Além da expansão do prédio, a companhia comprou máquinas para corte e fabricação de rolos e está investindo em um equipamento para aplicação de adesivo sobre diferentes suportes.
O laboratório também entrou na conta. Foram mais de R$ 2 milhões em novos equipamentos de teste. Entre as aquisições está um aparelho de raio X utilizado para analisar matérias-primas e produtos e avaliar novos fornecedores.
“Temos até um raio X no nosso laboratório”, afirma Dias. “É para analisar fita, matéria-prima e produtos que a gente acaba usando para desenvolver novos fornecedores.”
Outra frente é ampliar as tecnologias de adesivos disponíveis.
No começo de 2027, a empresa pretende lançar uma linha de fitas produzidas com hot melt, tecnologia que ainda não possuía. O adesivo começa em estado sólido, é derretido e depois aplicado sobre o suporte. A fábrica já trabalha com cura UV, acrílico à base de água, acrílico à base de solvente e adesivos de borracha natural com solvente.
Ter mais processos disponíveis aumenta as combinações que a fabricante consegue desenvolver para clientes industriais — uma das apostas para crescer nos próximos anos.
Onde buscar os próximos R$ 470 milhões
O investimento industrial prepara capacidade, mas não garante demanda. A segunda parte do plano está em encontrar onde vender mais.
No varejo, a ADERE começou a estender a marca para categorias próximas. O portfólio passou a incluir colas, abraçadeiras, feltros para móveis e lixas. A lógica é aproveitar os canais em que a companhia já está presente para aumentar o número de produtos vendidos.
Também há mais investimento em trade marketing e no trabalho dentro das lojas.
“Além do produto, a gente pode agregar um serviço também, que é aumentar o giro do nosso produto no ponto de venda”, afirma Dias.
Na indústria, a estratégia depende menos de colocar novos itens em uma prateleira e mais de encontrar problemas específicos para resolver.
A empresa pretende aumentar o desenvolvimento de fitas feitas para determinadas aplicações e clientes. Em alguns casos, um produto pode ser fabricado exclusivamente para uma única companhia.
“Nós vamos crescer através do desenvolvimento de produtos customizados para as indústrias”, afirma Dias. “Tem produto que você fabrica somente para uma indústria, porque ele é específico para uma aplicação que só aquela indústria tem.”
A terceira frente está na gestão. A ADERE criou recentemente uma camada de diretores que não existia. Passou a contar com executivos específicos para finanças, vendas, operações e pesquisa e desenvolvimento. Segundo Dias, são profissionais vindos de companhias maiores, contratados para trazer experiência principalmente na expansão pelo varejo.
