Construído com a Holanda, projeto adapta as cinco ilhas de Porto Alegre ao risco de novas enchentes
Plano da TU Delft com a prefeitura e o PNUD segue modelo holandês de dar espaço à água e conclui etapa técnica: "A segurança hídrica não depende apenas de infraestruturas", destaca líder à EXAME

Quem passeia pelos canais de Amsterdã não imagina que mais da metade da população holandesa vive em áreas abaixo do nível do mar ou sujeitas a inundações.
Foi dessa convivência forçada com a água que os Países Baixos se consolidaram como referência mundial em gestão hídrica, com um sistema de cerca de mil quilômetros de diques, barragens, comportas e eclusas.
É essa expertise, acumulada ao longo de séculos, que levou Porto Alegre a pedir ajuda para repensar o futuro das ilhas do Delta do Jacuí depois das enchentes históricas de 2024.
Nesta semana, o batizado Projeto Arquipélago chega à reta final com a conclusão da etapa técnica. O plano urbanístico e ambiental foca no desenvolvimento sustentável da região que engloba as ilhas Pintada, Grande dos Marinheiros, Flores, Pavão e Mauá, com estratégias de adaptação climática, recuperação ecológica, habitação, infraestrutura e gestão de riscos.
A construção é feita a várias mãos: a Universidade de Tecnologia de Delft (TU Delft), da Holanda, desenvolve o trabalho em cooperação com a Prefeitura de Porto Alegre e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com participação do instituto IHS, da Erasmus Rotterdam.
À frente está a gaúcha Taneha Kuzniecow Bacchin, natural de Porto Alegre, diretora e líder científica da iniciativa. Em entrevista à EXAME, ela contou que a pergunta que guiou o trabalho foi: como planejar um território exposto a inundações sem reproduzir as condições de vulnerabilidade que ampliaram o desastre?
A resposta passa por uma combinação de intervenções de curto prazo voltadas à segurança com medidas de resiliência para as próximas décadas, a partir de cenários para cada ilha pensados a partir de suas comunidades locais.
A contratação da TU Delft custou cerca de R$ 7,35 milhões para a prefeitura, com a previsão de elaboração de um plano emergencial (entregue em 4 meses) e outro de longo prazo (em cerca de 18 meses). Em março de 2026, a proposta chegou a ser apresentada e nos próximos dias, com a conclusão, será oficialmente publicada.
Segundo Tahena, a expectativa é que o projeto possa contribuir para a construção de uma abordagem que considere as particularidades do território e também para o desenvolvimento de novas estratégias de adaptação em todo RS, diante dos riscos de novas enchentes no contexto das mudanças climáticas.
"Queremos articular conhecimento técnico, governança territorial e justiça socioambiental", afirmou, elencando que a principal lição dos Países Baixos não está apenas nas grandes obras de engenharia, mas na capacidade de transformar a gestão da água em uma responsabilidade pública permanente.
'Dar espaço ao rio'
A inspiração vem de uma mudança de lógica na própria Holanda. Durante séculos, a resposta às cheias foi erguer barreiras. Em 2007, o programa Room for the River ("Espaço para o Rio") fez uma aposta: em vez de elevar diques, passou a dar mais lugar à água nos rios Reno, Mosa, Waal e IJssel.
Diques foram recuados, canais de desvio abertos, obstáculos removidos e leitos aprofundados, e surgiram áreas de inundação controlada e parques fluviais.
É esse princípio que a capital gaúcha quer adaptar. A ideia é levá-lo às bacias do Jacuí, Caí, Sinos, Gravataí e da Lagoa dos Patos, com previsão de cheias mais integrada e planejamento do território e das cidades em conjunto. E o Arquipélago é o primeiro desenho do plano.
Para Tahena, o principal diferencial da Holanda é a governança. Os conhecidos "waterschappen", órgãos hídricos com competências e financiamento próprios, existem há séculos e garantem um planejamento que atravessa ciclos políticos. Hoje, o Programa Delta coordena a estratégia nacional, reunindo proteção contra cheias, água doce e adaptação do território.
Há também um método. No país, órgãos públicos, universidades e profissionais de várias áreas usam o desenho como pesquisa (research-by-design): constroem cenários juntos para testar alternativas e antecipar consequências.
O exemplo mais recente é o Atelier Delta Rijnmond-Drechtsteden 2100, da Bienal Internacional de Arquitetura de Rotterdam (IABR), que investiga riscos para o delta da cidade diante do clima extremo.
Nada disso, diz a especialista, se resume a transferir tecnologia. O que a experiência holandesa ensina é a construir instituições e processos permanentes de cooperação, em que o próprio projeto serve para negociar alternativas e imaginar, em conjunto, os futuros possíveis de um território.
A gestão das águas começou em 1953
A relação dos holandeses com a água é anterior a qualquer programa, mas tem uma data de virada bastante trágica. Na noite de 31 de janeiro de 1953, uma maré alta e ventos fortes no Mar do Norte romperam diques no sudoeste do país.
A água tomou cerca de 200 mil hectares, sobretudo em Zeeland, Zuid-Holland e Noord-Brabant, com milhares de mortes e desabrigados. Os holandeses chamam o episódio de Watersnoodramp, a "catástrofe das inundações".
A resposta foi o Delta Works, iniciado naquele mesmo ano e concluído em 1997, um dos maiores programas de engenharia do mundo. Hoje, cerca de 70% do PIB holandês é produzido em áreas de risco, e até o aeroporto de Schiphol, um dos maiores da Europa, está abaixo do nível do mar.
Em entrevista à AFP, a ministra de Infraestruturas na época, Melanie Schultz, chegou a dizer que "devemos tudo [o plano] a nossa história", e que "foram séculos lutando contra o avanço das águas".
Mas a jornada holandesa não acabou: o país segue revendo suas estratégias em meio à crise climática. E, para Taneha, segurança hídrica não é só questão de infraestrutura. Adaptar-se é "transformar as relações entre sociedade, instituições e ambiente", com novas formas de organização, de participação e de responsabilidade coletiva.
Não à toa, os Países Baixos se tornaram um laboratório vivo: o modelo inspira hoje governos, técnicos e comunidades de outros países a repensarem sua relação com rios, mares e o próprio clima, de Nova Orleans (EUA) ao delta do Mekong (Vietnã), passando por Bangladesh, Austrália, Japão e, mais recentemente, o Rio Grande do Sul.
O caminho ainda é longo. O desenho precisa virar obra, e a pergunta que originou o plano será colocada em teste quando a água subir de novo.
