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Sacre Investimentos
ESGESGCMDT
30/09/2026
10 min

Construído com a Holanda, projeto adapta as cinco ilhas de Porto Alegre ao risco de novas enchentes

Plano da TU Delft com a prefeitura e o PNUD segue modelo holandês de dar espaço à água e conclui etapa técnica: "A segurança hídrica não depende apenas de infraestruturas", destaca líder à EXAME

Construído com a Holanda, projeto adapta as cinco ilhas de Porto Alegre ao risco de novas enchentes

Quem passeia pelos canais de Amsterdã não imagina que mais da metade da população holandesa vive em áreas abaixo do nível do mar ou sujeitas a inundações.

Foi dessa convivência forçada com a água que os Países Baixos se consolidaram como referência mundial em gestão hídrica, com um sistema de cerca de mil quilômetros de diques, barragens, comportas e eclusas.

É essa expertise, acumulada ao longo de séculos, que levou Porto Alegre a pedir ajuda para repensar o futuro das ilhas do Delta do Jacuí depois das enchentes históricas de 2024.

Nesta semana, o batizado Projeto Arquipélago chega à reta final com a conclusão da etapa técnica. O plano urbanístico e ambiental foca no desenvolvimento sustentável da região que engloba as ilhas Pintada, Grande dos Marinheiros, Flores, Pavão e Mauá, com estratégias de adaptação climática, recuperação ecológica, habitação, infraestrutura e gestão de riscos.

A construção é feita a várias mãos: a Universidade de Tecnologia de Delft (TU Delft), da Holanda, desenvolve o trabalho em cooperação com a Prefeitura de Porto Alegre e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com participação do instituto IHS, da Erasmus Rotterdam.

À frente está a gaúcha Taneha Kuzniecow Bacchin, natural de Porto Alegre, diretora e líder científica da iniciativa. Em entrevista à EXAME, ela contou que a pergunta que guiou o trabalho foi: como planejar um território exposto a inundações sem reproduzir as condições de vulnerabilidade que ampliaram o desastre?

A resposta passa por uma combinação de intervenções de curto prazo voltadas à segurança com medidas de resiliência para as próximas décadas, a partir de cenários para cada ilha pensados a partir de suas comunidades locais. 

A contratação da TU Delft custou cerca de R$ 7,35 milhões para a prefeitura, com a previsão de elaboração de um plano emergencial (entregue em 4 meses) e outro de longo prazo (em cerca de 18 meses). Em março de 2026, a proposta chegou a ser apresentada e nos próximos dias, com a conclusão, será oficialmente publicada. 

Segundo Tahena, a expectativa é que o projeto possa contribuir para a construção de uma abordagem que considere as particularidades do território e também para o desenvolvimento de novas estratégias de adaptação em todo RS, diante dos riscos de novas enchentes no contexto das mudanças climáticas. 

"Queremos articular conhecimento técnico, governança territorial e justiça socioambiental", afirmou, elencando que a principal lição dos Países Baixos não está apenas nas grandes obras de engenharia, mas na capacidade de transformar a gestão da água em uma responsabilidade pública permanente.

'Dar espaço ao rio'

A inspiração vem de uma mudança de lógica na própria Holanda. Durante séculos, a resposta às cheias foi erguer barreiras. Em 2007, o programa Room for the River ("Espaço para o Rio") fez uma aposta: em vez de elevar diques, passou a dar mais lugar à água nos rios Reno, Mosa, Waal e IJssel.

Diques foram recuados, canais de desvio abertos, obstáculos removidos e leitos aprofundados, e surgiram áreas de inundação controlada e parques fluviais.

É esse princípio que a capital gaúcha quer adaptar. A ideia é levá-lo às bacias do Jacuí, Caí, Sinos, Gravataí e da Lagoa dos Patos, com previsão de cheias mais integrada e planejamento do território e das cidades em conjunto. E o Arquipélago é o primeiro desenho do plano.

Para Tahena, o principal diferencial da Holanda é a governança. Os conhecidos "waterschappen", órgãos hídricos com competências e financiamento próprios, existem há séculos e garantem um planejamento que atravessa ciclos políticos. Hoje, o Programa Delta coordena a estratégia nacional, reunindo proteção contra cheias, água doce e adaptação do território.

Há também um método. No país, órgãos públicos, universidades e profissionais de várias áreas usam o desenho como pesquisa (research-by-design): constroem cenários juntos para testar alternativas e antecipar consequências.

O exemplo mais recente é o Atelier Delta Rijnmond-Drechtsteden 2100, da Bienal Internacional de Arquitetura de Rotterdam (IABR), que investiga riscos para o delta da cidade diante do clima extremo. 

Nada disso, diz a especialista, se resume a transferir tecnologia. O que a experiência holandesa ensina é a construir instituições e processos permanentes de cooperação, em que o próprio projeto serve para negociar alternativas e imaginar, em conjunto, os futuros possíveis de um território.

A gestão das águas começou em 1953

A relação dos holandeses com a água é anterior a qualquer programa, mas tem uma data de virada bastante trágica. Na noite de 31 de janeiro de 1953, uma maré alta e ventos fortes no Mar do Norte romperam diques no sudoeste do país.

A água tomou cerca de 200 mil hectares, sobretudo em Zeeland, Zuid-Holland e Noord-Brabant, com milhares de mortes e desabrigados. Os holandeses chamam o episódio de Watersnoodramp, a "catástrofe das inundações".

A resposta foi o Delta Works, iniciado naquele mesmo ano e concluído em 1997, um dos maiores programas de engenharia do mundo. Hoje, cerca de 70% do PIB holandês é produzido em áreas de risco, e até o aeroporto de Schiphol, um dos maiores da Europa, está abaixo do nível do mar.

Em entrevista à AFP, a ministra de Infraestruturas na época, Melanie Schultz, chegou a dizer que "devemos tudo [o plano] a nossa história", e que "foram séculos lutando contra o avanço das águas".

Mas a jornada holandesa não acabou: o país segue revendo suas estratégias em meio à crise climática. E, para Taneha, segurança hídrica não é só questão de infraestrutura. Adaptar-se é "transformar as relações entre sociedade, instituições e ambiente", com novas formas de organização, de participação e de responsabilidade coletiva.

Não à toa, os Países Baixos se tornaram um laboratório vivo: o modelo inspira hoje governos, técnicos e comunidades de outros países a repensarem sua relação com rios, mares e o próprio clima, de Nova Orleans (EUA) ao delta do Mekong (Vietnã), passando por Bangladesh, Austrália, Japão e, mais recentemente, o Rio Grande do Sul. 

O caminho ainda é longo. O desenho precisa virar obra, e a pergunta que originou o plano será colocada em teste quando a água subir de novo.

AutorSofia Schuck
FonteExame
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