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InvestMercadosACS
31/08/2026
4 min

Consumo menor de bebida alcoólica deixa ações do setor com ressaca

Mudança de hábitos, preferência por bebidas sem álcool e hábitos da Geração Z pressionam consumo

Consumo menor de bebida alcoólica deixa ações do setor com ressaca

Enquanto os consumidores estão bebendo menos e os mais jovens têm menor propensão ao álcool, alternativas de bebidas sem álcool e até mesmo a maconha liberada em algumas regiões dos Estados Unidos ganham espaço. O resultado já aparece nas ações globais do setor, que acumulam quedas nos últimos anos.

Os papéis da Molson Coors (TAP), dona das cervejas Blue Moon e Sol, recuaram 17,05% nos últimos 12 meses. Em um horizonte de cinco anos, o desempenho também é negativo, com queda de 12,31%.

Fabricante das marcas Johnnie Walker, Smirnoff, Guinness, Tanqueray e Baileys, a Diageo (DGE), listada em Londres, avança 6,21% em 2026, mas cai 17,24% nos últimos 12 meses e 51,04% nos últimos cinco anos.

A Heineken (HEIA), cujas ações estão em Amsterdã, cai 21,96% nos últimos cinco anos, apesar de subir 4,75% neste ano e 3,67% nos últimos 12 meses. No Brasil, as ações da Ambev (ABEV3) também acumulam retração de 11,27% nos últimos cinco anos, porém avançam 10,77% no ano e 23,43% nos últimos 12 meses.

Para o analista do BNP Paribas, Kevin Grundy, o problema vai além de uma fase ruim do consumo. "As pessoas estão bebendo menos", e a mudança parece ser cultural.

Queda nas vendas das fabricantes

A cerveja é um dos segmentos mais pressionados. A produção americana caiu 5,6% em 2025 e teve nova retração de 5,4% no segundo trimestre de 2026, segundo Grundy, em entrevista à Barron's.

No mercado de destilados, as vendas ficaram estáveis. Mas, quando são retiradas da conta as bebidas prontas para consumo, como coquetéis enlatados, o cenário também é de queda de 4,1% em 2025 e de 4,9% no segundo trimestre de 2026.

A mudança no comportamento dos consumidores tem sido associada à constatação de que o álcool faz mal à saúde.

A popularização dos remédios contra a obesidade também não favorece, já que a perda de peso e as mudanças de consumo associadas a esses tratamentos podem reduzir a ingestão de álcool.

Jovens são 'risco' maior para empresas

A tendência entre as gerações mais novas adiciona uma preocupação de longo prazo para as empresas. Um relatório do UBS divulgado pela Barron's mostra que apenas 32% dos consumidores da Geração Z bebem semanalmente, contra 45% entre as gerações mais velhas.

De acordo com os analistas do banco, essa menor propensão ao consumo de álcool entre os jovens tende a se transformar em um obstáculo ao volume vendido à medida que essas gerações substituírem as mais velhas no mercado consumidor.

É esse caráter estrutural que leva Grundy a manter uma visão negativa para a Constellation Brands (que possui uma licença para vender a cerveja Corona nos EUA), a Brown-Forman (dona do whisky Jack Daniel's) e a própria Molson Coors, mesmo depois da forte desvalorização das ações do setor.

Ações ficaram baratas, mas isso não basta

A queda dos papéis reduziu em cerca de um terço os múltiplos das empresas de bebidas alcoólicas nos últimos cinco anos. Ainda assim, o desconto pode não ser suficiente para atrair investidores, conforme fontes ouvidas pela Barron's.

A Brown-Forman negocia a 16,5 vezes o lucro projetado, enquanto a Constellation Brands está em 11 vezes e a Molson Coors, em 8,7 vezes. Para comparação, o setor de bens de consumo básico tem múltiplo médio de 22,8 vezes, segundo dados da FactSet.

O mercado também não demonstra grande confiança na tese de recuperação. Entre os analistas que acompanham a Molson Coors, apenas 22% recomendam compra ou posição acima da média. No caso da Brown-Forman, a parcela cai para 11%.

Dona das marcas como Samuel Adams, Twisted Tea e Truly Hard Seltzer, a Boston Beer é ainda mais rejeitada, com apenas um dos 15 analistas que cobrem a companhia recomenda compra. A exceção é a Constellation Brands, que ainda conta com uma visão relativamente positiva entre os analistas.

Nem tudo é ciclo

Para Bill Kirk, da Roth, o caso da Boston Beer também sofre com um problema mais imediato de alta dos preços dos combustíveis, que reduziu recentemente o orçamento disponível dos consumidores para bebidas, além das perspectivas de inflação com a instabilidade dos conflitos geopolíticos.

Só que esse é um fator cíclico e pode desaparecer. O problema é que, para o setor, a questão central parece ser mais profunda. Se os consumidores mais jovens estão incorporando o álcool com menor frequência e novas alternativas ocupam esse espaço, a indústria pode estar diante de uma mudança permanente.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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