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02/09/2026
6 min

Conta ambiental já pesa no PIB do Brasil; ignorá-la é erro de cálculo, afirma Giannetti da Fonseca

Em evento da Vivo, economista alertou que o custo climático já corrói o crescimento. E defendeu que o Brasil aposte nas potências que já tem, em vez de mirar o mundo rico

Conta ambiental já pesa no PIB do Brasil; ignorá-la é erro de cálculo, afirma Giannetti da Fonseca

Poucas decisões pesam tanto quanto as que tomamos hoje sobre um amanhã que ainda não vota, não cobra e sequer nasceu. Para Eduardo Giannetti da Fonseca, é dessa escolha entre o presente e o futuro que depende o tipo de país que o Brasil se tornará.

Foi essa a lente que o economista levou ao palco do Encontro Futuro Vivo, no Teatro Vivo, em São Paulo, nesta terça-feira, 1º, ao afirmar que o modelo de prosperidade exportado pelo Ocidente como ideal parou de entregar o que promete.

"O crescimento econômico a partir de um certo nível de renda não se traduz em melhoria do bem-estar humano. Não há qualquer evidência de que isso aconteça", afirmou.

E esta não é provocação de ocasião, mas a síntese de um pensamento que ele vem construindo há décadas.

Um economista fora do padrão?

Formado pela USP, doutor em economia pela Universidade de Cambridge, hoje professor do Insper e membro da Academia Brasileira de Letras, Giannetti é um dos poucos brasileiros em sua profissão a trabalhar na interseção entre economia, ética e filosofia.

Foi o principal conselheiro econômico de Marina Silva nas campanhas presidenciais de 2010, 2014 e 2018, período em que aproximou a agenda ambiental do debate sobre o modelo de desenvolvimento.

Ainda hoje, enquanto boa parte dos economistas ainda trata clima e recursos naturais como externalidade, quase uma nota de rodapé na planilha, segue trabalhando firme com a hipótese inversa: a de que a conta ambiental, cedo ou tarde, sempre volta.

E pondera como quase tudo o que a economia mede está, de forma cada vez mais severa, sujeito ao esgotamento dos recursos e ao custo dos eventos climáticos extremos. O que não é uma retórica.

Conforme dados do Banco Mundial, secas e enchentes já custam ao país cerca de R$ 13 bilhões por ano. E o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) projeta que ultrapassar o ponto de inflexão da Amazônia pode subtrair R$ 920 bilhões do PIB brasileiro, 9,7% do total, até 2050.

Os desertos de fora e os de dentro

O principal argumento de Giannetti liga duas crises que costumam ser discutidas em salas separadas. De um lado, os "desertos externos", a degradação ambiental. De outro, os "desertos internos", a erosão psíquica de sociedades que reduziram a realização humana a uma métrica financeira.

"O processo civilizatório vai sendo acompanhado de um crescente mal-estar do ser humano consigo", disse, evocando Freud.

Nenhum caso é mais eloquente, ele afirmou, que o dos Estados Unidos, onde o americano de renda média está entre os 5% mais ricos do planeta:"ainda assim, sente-se um fracassado, um loser".

O sintoma já tem nome na literatura econômica, para o que parece drama individual mas configura um cenário de desalento coletivo.

Foi o que os economistas Angus Deaton, Nobel de 2015, e Anne Case, constataram ao mapear os fatores que ajudam a explicar por que a expectativa de vida recua justamente no país mais rico do mundo, reunindo as evidências sob o nome de "mortes por desespero".

Na lista dos acadêmicos, causas como a overdose de opioides, o alcoolismo e o suicídio. Por trás delas, explicam, está não apenas a falta de dinheiro, mas a perda de horizonte: o fim do emprego estável, o esvaziamento da comunidade e do pertencimento, a sensação de que a vida deixou de valer a pena onde o sucesso virou a única medida de quem presta.

Brasil como potência ambiental e cultural

"Eu acredito no Brasil como potência ambiental e como potência cultural", reafirmou Gianetti em sua participação no Encontro Futuro Vivo. O que não significa idealizar o país.

Ao reconhecer as fragilidades brasileiras, da desigualdade à infraestrutura precária, o economista lembrou como o país chegou ao século XXI com quase metade dos domicílios sem esgoto, apesar de um Estado que recolhe um terço da renda nacional em impostos.

Contudo, das duas potências que enxerga, começa pela quantificável: biodiversidade, água doce, energia limpa, terra para alimentos. Ativos que, ponderou, só viram riqueza aliados a ciência, tecnologia e bioeconomia.

A outra não cabe em planilha, vem da herança afro-indígena, que preservou no país "uma disponibilidade para a felicidade, para a alegria que o mundo altamente desenvolvido e civilizado perdeu".

A dívida com quem ainda não nasceu

Autor de "O Valor do Amanhã" (2005), em que trata de como o presente precifica o futuro, Eduardo Giannetti da Fonseca leva a mesma questão ao terreno da ética em "O Anel de Giges" (2020).

Na obra mais recente, o título vem da fábula de Platão sobre o anel que torna invisível quem o veste, livrando-o de qualquer punição, e sobre o que cada um faria se pudesse agir sem ser visto nem cobrado.

O dilema é para as gerações futuras: como agir diante de quem vai herdar nossas decisões sem ter voz, voto ou meio de nos responsabilizar? "Devemos muita coisa aos brasileiros que não nasceram", afirmou o economista

É um teste que o país ainda não encarou. E que a política, às vésperas da eleição de 2026, sinaliza que seguirá adiando.

Nos planos de governo entregues ao TSE pelos cinco principais nomes à frente na disputa - Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) - o meio ambiente aparece em todos os programas, mas vai de meta datada a ausência quase total.

No planejamento futuro sugerido do atual presidente do Brasil, o tema ganha eixo próprio, com o compromisso de zerar o desmatamento líquido até 2030.

No de Renan Santos, não há seção dedicada, e o assunto se dissolve entre energia, mineração e infraestrutura. E o restante dos programas praticamente não cita clima ou Amazônia.

O que sustenta a aposta

Provocado sobre o que o faz manter alguma esperança, Giannetti não apontou nenhum indicador econômico, e sim o afeto, justamente o que, observou, a inteligência artificial não entrega e a vida contemporânea vem corroendo. É essa "cultura do afeto" o que, para ele, o Brasil tem a exportar.

E recuperou a história que Sérgio Buarque de Holanda registra em "Raízes do Brasil": a do empresário da Filadélfia que, ao mudar para o país, estranha ter de virar amigo de alguém antes de fechar negócio.

Para Giannetti, o que o estrangeiro leu como atraso é, na verdade, a pista de outro projeto de país, que não se mede pela régua que adoeceu o mundo rico.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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