Cooperativas do agro desafiam a crise e movimentam R$ 487 bilhões
Mesmo com endividamento e desafios climáticos, setor cresceu 11,2% e gerou 277 mil empregos diretos em 2025, mostra OCB

As cooperativas agropecuárias brasileiras movimentaram R$ 487,3 bilhões em 2025, alta de 11,2% em relação ao ano anterior, consolidando sua posição como o principal ramo do cooperativismo nacional em um período marcado por juros elevados, custos de produção pressionados e eventos climáticos que afetaram parte da produção rural.
Os dados fazem parte do Anuário do Cooperativismo Brasileiro, divulgado nesta sexta-feira, 31, pelo Organização das Cooperativas Brasileiras (Sistema OCB). O ramo reúne 1.254 cooperativas, mais de 1,13 milhão de cooperados e responde por 57,4% de toda a movimentação financeira do cooperativismo no país.
O desempenho chama atenção porque ocorre em um cenário de pressão sobre a rentabilidade do campo. Uma combinação de fatores de cinco anos para cá levou a esse contexto, como a queda no preço das commodities e a alta na produção, enquanto os produtores fizeram grandes investimentos — mas o principal é o aumento dos custos, especialmente dos fertilizantes.
Para Tania Zanella, presidente do Sistema OCB, o cooperativismo tem conseguido manter investimentos e ampliar sua atuação ao oferecer escala para compra de insumos, industrialização e acesso a mercados.
"O propósito do cooperativismo é agregar valor à produção e mostrar que o pequeno produtor também pode acessar grandes mercados. É um modelo que torna o produtor mais competitivo e gera oportunidades para as comunidades", afirma a executiva.
Hoje, as cooperativas agropecuárias concentram 57,4% de toda a movimentação financeira do cooperativismo brasileiro e 45,2% dos empregos do setor. O peso das cooperativas também se reflete na produção agropecuária. Atualmente, elas representam 53% da originação de grãos e fibras no Brasil, diz Zanella.
Além do avanço nos ingressos, os ativos chegaram a R$ 340 bilhões, enquanto o capital social atingiu R$ 23,3 bilhões em 2025, ambos em crescimento na comparação anual.
Na avaliação da gerente-geral da OCB, Clara Maffia, os números refletem a capacidade das cooperativas de atravessar períodos de maior dificuldade sem perder foco no longo prazo.
No ano passado, juros altos, tarifas dos Estados Unidos e clima incerto pressionaram a renda dos produtores rurais.
"Estamos em um momento complexo para o agro, com endividamento e questões climáticas. A cooperativa não está olhando apenas para o resultado de curto prazo, mas para a sustentabilidade e para a manutenção do produtor no longo prazo", disse Maffia.
Cooperativas no Brasil
Além do crescimento da movimentação financeira, o cooperativismo agropecuário ampliou sua geração de empregos. O segmento encerrou 2025 com 277.226 postos de trabalho diretos, avanço de 3,3% sobre o ano anterior, mantendo-se como o maior empregador entre os ramos do cooperativismo.
Outro dado que chama atenção é a expansão geográfica. Embora o Sudeste concentre o maior número de cooperativas, o Nordeste registrou o maior crescimento proporcional em 2025.
Entre os estados, o Ceará foi o principal destaque, com alta de 39% no número de organizações, enquanto Minas Gerais segue como a unidade da federação com maior quantidade de cooperativas agropecuárias.
Além do crescimento econômico, o levantamento mostra um movimento de renovação do setor.
Cerca de um terço das cooperativas agropecuárias foi criado na última década, enquanto 267 organizações já ultrapassaram 40 anos de atuação, indicando a convivência entre estruturas tradicionais e novos empreendimentos voltados às demandas atuais do agronegócio.
