COP31: Austrália destina quatro vezes mais recursos a fósseis do que a renováveis

A Austrália, coanfitriã da COP31, destina cerca de A$ 20,1 bilhões (US$ 14,1 bilhões) por ano ao apoio aos combustíveis fósseis, mais de quatro vezes os A$ 4,6 bilhões (US$ 3,2 bilhões) direcionados às energias renováveis.
A disparidade pode comprometer a estratégia do país de se tornar uma potência em energia limpa sem abandonar sua posição como grande exportador de carvão e gás, segundo relatório do WWF-Austrália.
O documento aponta que a tentativa de sustentar simultaneamente os dois modelos de exportação envia sinais contraditórios a investidores e parceiros comerciais. A avaliação ocorre em um momento em que países do Indo-Pacífico ampliam os investimentos em sistemas de energia limpa para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados e a exposição à volatilidade de preços.
Uma análise elaborada pela Cyan Ventures estima que a Austrália pode perder até A$ 70 bilhões (US$ 49 bilhões) em valor de exportações de combustíveis fósseis até 2035, à medida que a demanda internacional migra para fontes renováveis.
Grandes parceiros comerciais australianos, entre eles Chinae Coreia do Sul, estão acelerando os investimentos em energia limpa. Na região do Indo-Pacífico, o volume destinado ao setor já é aproximadamente duas vezes maior do que os investimentos em combustíveis fósseis.
Transição energética
Para o WWF-Austrália, a manutenção do apoio público ao carvão, ao petróleo e ao gás pode reduzir a capacidade do país de atrair recursos para setores considerados estratégicos na transição energética, como o ferro verde, produzido com menor emissão de carbono e com uso de eletricidade renovável.
“As indústrias verdes e fósseis disputam o mesmo capital, a mesma atenção política e a mesma infraestrutura”, afirmou Rob Law, gerente sênior de Transição Energética do WWF-Austrália.
Segundo Law, o avanço das novas cadeias industriais depende de eletricidade renovável de baixo custo e de sinais confiáveis de preço de carbono, mecanismo que atribui um custo financeiro às emissões. Esses dois fatores, de acordo com o relatório, são enfraquecidos quando a expansão dos combustíveis fósseis continua entre as prioridades do governo.
As 10 maiores usinas eólicas do Brasil — e por que o Nordeste domina o ranking“A Austrália está tentando seguir em duas direções ao mesmo tempo”, disse Law. “Já não podemos nos dar ao luxo de nos apresentar como parceiros em energia renovável enquanto, simultaneamente, sustentamos e ampliamos a produção de combustíveis fósseis.”
A avaliação é que a política atual também pode afetar a credibilidade comercial do país. Ao manter incentivos elevados aos combustíveis fósseis, a Austrália corre o risco de perder espaço para concorrentes que avançam mais rapidamente na oferta de energia limpa e produtos industriais de menor intensidade de carbono.
O relatório também aponta sinais de enfraquecimento dos mercados tradicionais do país. As exportações australianas de gás natural liquefeito, o GNL, assim como as importações asiáticas do combustível, caíram em 2025.
Economia australiana sob alerta
A demanda por carvão metalúrgico, utilizado principalmente na produção de aço, e por carvão térmico, empregado na geração de eletricidade, também pode começar a recuar nos próximos cinco anos na China, no Japão e na Índia. Até 2050, a queda pode chegar a 69%, segundo as projeções apresentadas no documento.
Para Camille Malbrain, gerente de Exportações Renováveis do WWF-Austrália, o país corre o risco de perder competitividade nas novas indústrias ao mesmo tempo em que permanece exposto a mercados fósseis mais incertos.
“Esta é uma estratégia em que todos perdem. A Austrália será ultrapassada e se tornará menos competitiva nas indústrias verdes emergentes, ao mesmo tempo em que continuará presa a mercados de combustíveis fósseis cada vez mais incertos”, afirmou.
O WWF-Austrália defende a criação de uma estratégia de segurança energética renovável que antecipe o declínio da demanda por combustíveis fósseis, acelere a expansão dos sistemas renováveis e eletrificados e redirecione políticas públicas e investimentos para uma transição planejada.
A proposta parte do diagnóstico de que a continuidade das exportações fósseis não oferece a mesma previsibilidade econômica das décadas anteriores. Ao mesmo tempo, a expansão das cadeias de energia limpa exige decisões de longo prazo sobre infraestrutura, política industrial e alocação de capital — áreas que hoje permanecem divididas entre setores com perspectivas distintas de crescimento.
