Copa, cerveja premium e 'wellness' fazem Ambev lucrar R$ 3,4 bi no 2º trimestre
Marcas de maior valor compensam estabilidade de volumes consolidados e lucro avança mais de 20%

A Ambev (ABEV3) registrou lucro líquido de R$ 3,475 bilhões no segundo trimestre de 2026, alta de 24,5% ante o mesmo período do ano anterior. Em bases ajustadas, que excluem itens não recorrentes, o lucro foi de R$ 3,493 bilhões, avanço de 23,3%. A margem líquida ajustada ficou em torno de 17,3% da receita, contra cerca de 14,1% um ano antes.
A receita líquida totalizou R$ 20,149 bilhões, alta de 0,3% no número reportado e de 6,1% quando se descontam os efeitos do câmbio e de compras e vendas de ativos. O descolamento entre as duas bases reflete a desvalorização das moedas das operações internacionais frente ao real na conversão dos resultados.
O Ebitda ajustado somou R$ 6,377 bilhões, com margem de 31,6%, uma expansão de 100 pontos-base na comparação anual. O indicador cresceu 3,6% no número reportado e 8,9% descontados câmbio e ativos.
O volume global de bebidas somou 39,7 milhões de hectolitros, praticamente estável em relação ao ano passado, com crescimento reportado de 0,4%. A receita por hectolitro (indicador de preço médio) subiu 4,6% descontados os efeitos, crescendo mais do que o volume, o que indica que o crescimento da receita veio de preço e mix mais premium do que de mais litros vendidos.
Brasil e o efeito Copa do Mundo
O Brasil teve alta de 7,5% na receita líquida e de 13,0% no Ebitda ajustado, descontados os efeitos de câmbio e ativos. O país foi o motor do trimestre e já responde por cerca de 61% do Ebitda ajustado da companhia. A operação de cerveja no país teve alta de 5% no volume, superando a indústria, aponta a Ambev. O desempenho foi impulsionado pelo portfólio premium e pela demanda extra gerada pela Copa do Mundo, apesar de condições climáticas adversas. A receita líquida de Cerveja Brasil cresceu 8,9% e o Ebitda ajustado avançou 12,8%, com margem de 33,5%.
As ativações de marketing ligadas à Copa, por outro lado, geraram uma pressão de custos. As despesas comerciais e administrativas da operação de cerveja subiram 10,8%, refletindo os gastos com o torneio e maior distribuição.
Premium e Wellness
A companhia atribui o ganho de preço médio à gestão de receita e ao mix de produtos mais premium. O portfólio "Wellness", que inclui cervejas sem álcool, com menos calorias, sem glúten ou voltadas a um consumo mais equilibrado, cresceu mais de 60% ante o mesmo trimestre do ano anterior.
Dentro desse grupo, os destaques foram a Stella Pure Gold, sem glúten, com alta de mais de 180%, e as cervejas zero álcool, que subiram 30%, puxadas por Corona Cero, Budweiser Zero, Brahma 0,0% e Skol Zero Zero.
A Michelob Ultra, com 80% menos carboidratos, mais que triplicou de volume no período e foi apresentada a mais de 150 mil consumidores só no Brasil durante o primeiro mês da Copa do Mundo, via Zé Delivery, o aplicativo de entregas da Ambev. O portfólio Wellness já responde por cerca de 7% dos volumes de cerveja vendidos por lá.
O desempenho brasileiro repete o padrão visto em trimestres anteriores, em que a cerveja premium tem compensado a queda na venda das marcas populares.
Já a divisão de bebidas não alcoólicas no Brasil (refrigerantes, sucos e energéticos) teve queda de 4,4% no volume, em parte por decisão da própria empresa de descontinuar os volumes em canais de vendas de baixo retorno. Mesmo assim, a rentabilidade da divisão melhorou: a margem bruta saltou 540 pontos-base, ajudada por custos menores de açúcar e da resina plástica das garrafas. O Ebitda ajustado subiu 13,8%.
Operações fora do Brasil
No exterior, o quadro foi mais desafiador, sobretudo ao levar em conta os efeitos cambiais. A América Central e Caribe (CAC) teve crescimento de volume de 5,4% e alta de 7,1% na receita descontados os efeitos, beneficiada pela Copa do Mundo no Panamá e por um consumo aquecido na República Dominicana. Mas houve retração de margem, e o Ebitda ajustado caiu 15,1% em números reportados, afetado pelo câmbio e pela saída de subsidiárias do balanço.
A América Latina Sul (Argentina, Bolívia e países vizinhos) teve queda de 2,9% no volume, impactada por conflitos sociais e bloqueios de estradas na Bolívia em maio e junho. A receita cresceu 4,4% e o Ebitda ajustado subiu 2,6% descontados os efeitos, sustentados pela Argentina, onde a companhia afirma ter ganhado participação de mercado.
O Canadá teve recuo de 1,8% no volume, diante de clima adverso e consumo mais fraco, mas ainda assim superou uma indústria enfraquecida, com alta de 2,1% na receita e de 2,9% no Ebitda ajustado descontados os efeitos.
Caixa, custos e despesas
O fluxo de caixa das atividades operacionais somou R$ 4,711 bilhões, com alta de 54,5% ante o ano anterior, refletindo o maior Ebitda e uma melhor dinâmica de capital de giro. A companhia segue em posição de caixa líquido, com R$ 15,4 bilhões a mais em caixa do que em dívida.
Do lado dos custos, a pressão veio principalmente do câmbio e das commodities. Em Cerveja Brasil, o custo por hectolitro subiu 4,5% descontados os efeitos, e a companhia manteve a projeção de alta de 4,5% a 7,5% nesse custo ao longo de 2026 — repetindo o alerta de pressão de custos que já vinha sinalizando em trimestres anteriores.
As despesas comerciais e administrativas consolidadas cresceram 10,7% descontados os efeitos, puxadas pelo marketing da Copa do Mundo.
