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EsporteBDR
08/06/2026
6 min

Copa do Mundo ainda nem começou, mas já virou 'uma dor de cabeça' em Nova Jersey

Copa do Mundo ainda nem começou, mas já virou 'uma dor de cabeça' em Nova Jersey

A realização da Copa do Mundo de 2026 em Nova Jersey tem provocado mais questionamentos do que entusiasmo entre os moradores. Embora o estado receba oito partidas do torneio, incluindo a decisão no MetLife Stadium, os habitantes e as autoridades passaram a tratar o evento como uma fonte de custos adicionais, e não como uma oportunidade econômica.

O atrito ganhou força após a companhia de transporte público NJ Transit anunciar que a viagem de ida e volta entre Manhattan e o complexo esportivo de Meadowlands custaria US$ 150 durante os jogos. Em condições normais, o mesmo deslocamento sai por cerca de US$ 13.

A medida foi criticada pela FIFA. Heimo Schirgi, diretor de operações da entidade, afirmou que os valores poderiam ter um "efeito inibidor" sobre os torcedores. A declaração foi recebida com ironia por integrantes do governo estadual, que apontaram a contradição de uma organização que promove a acessibilidade do torneio enquanto comercializa ingressos que chegam a quase US$ 33 mil.

Mais tarde, a tarifa foi reduzida para US$ 98 com apoio financeiro de patrocinadores. Ainda assim, a governadora democrata Mikie Sherrill manteve a pressão para que a FIFA arque com uma parcela maior das despesas relacionadas ao evento. O estado estima gastos de aproximadamente US$ 62 milhões apenas com transporte.

"Minha principal preocupação é garantir que isso não recaia sobre os moradores de Nova Jersey", declarou Sherrill em coletiva de imprensa. "Ainda acreditamos firmemente que eles precisam destinar mais verbas para algumas dessas despesas."

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O MetLife Stadium recebe o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo (Reprodução/Redes Sociais)

Debates na esfera política

A resistência ao torneio também se manifesta entre parlamentares. Durante uma audiência sobre o orçamento estadual, o senador republicano Declan O'Scanlon minimizou as expectativas de impacto econômico positivo da competição. Ao questionar projeções de crescimento ligadas ao evento, afirmou que futebol é uma droga", disse ele.

A discussão reflete temas que ultrapassam o futebol. O debate envolve o custo de grandes eventos internacionais, a percepção sobre elites globais e a insatisfação de contribuintes diante de gastos públicos considerados excessivos. Há também uma dimensão simbólica ligada à relação histórica de Nova Jersey com Nova York.

“Enfrentamos essa crise de identidade toda vez que somos colocados em confronto com Nova York”, afirmou Ashley Koning, diretora do Centro Eagleton de Pesquisa de Opinião Pública da Universidade Rutgers.

Levantamento realizado pelo Eagleton em conjunto com a SSRS mostrou que apenas 2% dos entrevistados pretendiam assistir a partidas da Copa do Mundo. Quase metade dos participantes declarou não ter interesse no torneio, enquanto 15% disseram temer impactos em sua rotina.

O cenário contrasta com o período em que a região foi escolhida como sede. Na época, lideranças políticas apresentaram a Copa do Mundo como um instrumento para impulsionar a recuperação econômica após a pandemia. Um dos principais articuladores da candidatura foi Phil Murphy, então governador do estado, que desenvolveu interesse pelo esporte durante sua atuação como embaixador dos Estados Unidos na Alemanha.

Apesar das críticas recentes, o futebol possui tradição em Nova Jersey. A cidade de Kearny, localizada no Condado de Hudson, recebeu o apelido de "Capital do Futebol dos EUA" por ter formado diversos atletas da seleção nacional. Historicamente, esse desenvolvimento esteve ligado à imigração escocesa e, mais recentemente, a comunidades vindas do Equador e do Peru.

A mudança de percepção coincidiu com a chegada de Mikie Sherrill ao governo estadual, em janeiro. Eleita com foco em questões de custo de vida, ela adotou postura mais cautelosa em relação aos gastos associados ao torneio.

Entre as decisões já tomadas está o cancelamento de um festival para torcedores que custaria US$ 5 milhões e seria realizado no Liberty State Park. O espaço havia sido planejado para receber milhares de pessoas ao longo da competição.

Impactos na vida dos moradores

O principal foco de preocupação continua sendo a logística. Como a FIFA reservou os estacionamentos do Meadowlands para operações de segurança, áreas VIP e atividades oficiais, a responsabilidade pelo transporte dos torcedores recaiu principalmente sobre a NJ Transit.

A operação exige contratação de funcionários extras, pagamento de horas adicionais e reativação de uma linha ferroviária pouco utilizada entre Secaucus e o estádio. Paralelamente, a Penn Station, em Manhattan, ficará sem serviço regular para Nova Jersey durante quatro horas antes de cada partida.

Muitos moradores consideram injusto assumir esses custos enquanto acreditam que os maiores benefícios econômicos serão concentrados em Nova York, especialmente nos setores de hotelaria e alimentação.

"Não há muito apoio em Nova Jersey para subsidiar a estadia de noruegueses em Nova York", afirmou David Wildstein, ex-integrante da Autoridade Portuária que ficou conhecido por seu envolvimento no escândalo "Bridgegate". "Eles não estão se hospedando no Hilton de Secaucus nem comendo no Rutt's Hut." (Nota para os noruegueses amantes de cachorro-quente: o Rutt's fica perto da Rota 3 em Clifton.)

Mesmo diante das críticas, a FIFA e os organizadores locais mantêm um discurso de confiança. A expectativa é de que a controvérsia perca força com a aproximação dos jogos.

“Faltando menos de quatro semanas, estamos animados para ver os retoques finais sendo feitos por cada uma de nossas cidades-sede parceiras no Canadá, México e Estados Unidos”, disse Schirgi.

Alex Lasry, diretor-executivo do Comitê Organizador de Nova York e Nova Jersey, também agradeceu a colaboração das autoridades locais e destacou os esforços realizados “pelos esforços para tornar toda a experiência da Copa do Mundo mais acessível e viável para todos”.

A experiência norte-americana tem apresentado desafios diferentes para a FIFA. Em edições anteriores, a entidade costumava negociar diretamente com governos nacionais centralizados, como o Kremlin ou a família real do Catar. Nos Estados Unidos, a organização precisa lidar simultaneamente com diferentes governos estaduais e municipais.

Outro ponto que gerou desconforto foi a decisão de renomear temporariamente o MetLife Stadium para “Estádio de Nova York e Nova Jersey” durante a Copa. A alteração atende às regras comerciais da FIFA, que restringem a exposição de patrocinadores locais para priorizar seus parceiros globais.

"Não vi nenhum mapa", afirmou Wildstein, "que mostre East Rutherford em Nova York."

AutorMateus Omena
FonteExame
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