Copa do Mundo: Corinthians faz preço do metro quadrado em Itaquera mais que dobrar

Em maio de 2014, Itaquera ganhou um marco histórico: a inauguração da Neo Química Arena, o estádio do Corinthians, que pouco mais de três anos antes parecia improvável em meio a terrenos ainda pouco desenvolvidos na zona leste de São Paulo.
A obra, iniciada em 2011, transformou não apenas o cenário esportivo, mas também abriu caminho para mudanças urbanísticas e econômicas na região. O estádio foi escolhido para sediar a abertura da Copa do Mundo de 2014, o que exigiu intervenções significativas em infraestrutura. Ruas e avenidas foram modernizadas, novos comércios surgiram e serviços públicos foram ampliados.
Para o mercado imobiliário, o impacto foi imediato – e positivo. Valorização de terrenos, expansão de projetos residenciais e aumento do fluxo de pessoas contribuíram para transformar Itaquera em um bairro mais atrativo para moradores e investidores.
"A possibilidade de valorização ou não ao redor de estádios que foram construídos para a Copa de 2014 depende de fatores que não envolvem o estádio em si, mas a área onde ele está. É uma área urbana ou afastada? Se é afastado, é improvável que o mercado imobiliário cresça ao redor", afirma Fábio Tadeu Araújo, CEO da Brain Inteligência Estratégica, que cita também a importância de obras de infraestrutura realizadas no entorno dos estádios.
No caso de Itaquera, houve uma somatória desses fatores. Em 2011, quando o estádio estava apenas no campo das ideias, Itaquera era um dos bairros com o menor preço da cidade de São Paulo, com o metro quadrado saindo por pouco mais de R$ 2.700. Em maior de 2026, o preço do metro quadrado já chega a R$ 6.129, segundo o Índice FipZap, do Grupo OLX.
Não é por acaso que o bairro é visto como uma das regiões mais estratégicas de São Paulo para a atuação de várias incorporadoras focadas no programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, como a MRV. Para a incorporadora, isso aparece principalmente no volume de lançamentos. Se antes a atuação da companhia na região era mais pontual, hoje ela desenvolve empreendimentos muito maiores, com mais de mil unidades.
"Itaquera passou por uma transformação importante nos últimos anos e hoje reúne características muito valorizadas por quem procura um imóvel, como mobilidade, infraestrutura e acesso a serviços. É uma região que continua se desenvolvendo e que tem um papel estratégico para os planos de crescimento da MRV em São Paulo", afirma Ítalo Pita, diretor comercial da MRV na capital.
Para Pita, a Neo Química Arena ajudou a transformar a forma como muitas pessoas enxergam Itaquera, já que contribuiu para atrair investimentos.
Considerando os 11 bairros localizados em um raio de até 5 km da Neo Química Arena (Artur Alvim, Jardim Coimbra, Cidade Líder, Santa Marcelina, Parque Savoy, Vila Carmosina, Águia de Haia, Itaquera, A.E. Carvalho, Rio Verde e Parada XV), a atuação da MRV na região era mais pontual antes do início das obras do estádio. Em maio de 2010, por exemplo, a companhia lançou 120 unidades por lá.
Ao longo dos anos, essa presença foi ganhando força. Em setembro de 2011, foram lançadas outras 120 unidades e, em 2022, mais 320 unidades.
O crescimento se tornou mais expressivo nos últimos anos. Em 2024, a MRV lançou o Gran Arena Itaquera, com 1.064 unidades, a poucos metros da Neo Química Arena. No mês seguinte, foram lançadas mais 1.051 unidades na região. Em 2026, a companhia voltou a registrar um lançamento de grande porte, com outras 1.064 unidades.
O outro ponto, na visão de um urbanista
Apesar da inegável valorização imobiliária, para urbanistas, Itaquera tem uma história urbanística marcada por centralidades e barreiras físicas que se estendem desde os anos 1920 e 1930.
Segundo Pedro Henrique Rezende Mendonça, do LabCidade, o desenvolvimento inicial da região esteve associado àferrovia Central do Brasil, com uma estação localizada pouco além do local onde hoje se encontra a Neo Química Arena. Foi ali que se formou uma centralidade comercial, com comércios de maior porte que permanecem ativos até hoje.
Com a chegada do metrô na década de 1980, obras públicas consolidaram ocupações em uma área antes praticamente rural, mas o bairro continuou sem um parcelamento urbano estruturado. E a construção do Shopping Itaquera em 2007 e, posteriormente, do estádio da Copa de 2014, reforçou essa lógica de barreira, segundo o urbanista.
O estádio foi erguido sobre uma nascente de córrego em área da prefeitura sem ocupação anterior, e não houve remoções significativas de moradores. Mas a combinação de obras viárias e novos equipamentos reforçou o isolamento funcional da região.
"Mesmo com a estação Corinthians-Itaquera próxima, moradores frequentemente utilizam o metrô de Artur Alvim devido à dificuldade de acesso a pé. Alças viárias na Jacu-Pêssego e no prolongamento da Radial Leste até Guaianases geraram algumas remoções, e investimentos recentes continuam reforçando essa lógica de barreira urbana", explica.
Para Mendonça, apesar da proximidade física de diversos equipamentos, o entorno permanece fragmentado.
"O estádio e o shopping concentraram atividades comerciais e de transporte sem promover uma urbanização integrada, criando dificuldades de mobilidade, especialmente em dias de jogos, quando trabalhadores e torcedores se misturam na Linha Vermelha e o fechamento de vias atrapalha a circulação de ônibus. O estádio acelerou a concentração comercial, mas não resolveu o problema estrutural de barreira urbana. E todos os investimentos públicos feitos e em andamento no bairro continuam mantendo esse isolamento", finaliza.
