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Mundo
30/06/2026
7 min

Copa do Mundo expõe mudança de valores dos EUA, diz professor

Copa do Mundo expõe mudança de valores dos EUA, diz professor

O soft power, a capacidade dos países de influenciar os outros sem usar a força, é como uma represa. Leva tempo para ser preenchido, e demora a esvaziar. No entanto, os Estados Unidos estão drenando este poder de várias formas, e a Copa do Mundo evidencia esse processo.

A avaliação é de Shaoyu Yuan. Professor na New York University (NYU), ele pesquisa as relações internacionais, com foco em política externa e soft power. "A Copa do Mundo é uma das maiores oportunidades de soft power que um país pode aproveitar. Mas as condições em torno deste torneio em particular correm o risco de transformar essa oportunidade em um problema", diz, em conversa com a EXAME.

"Podemos estar testemunhando a erosão voluntária mais significativa do soft power americano no período pós-guerra. Voluntária é a palavra-chave. Este é o resultado de escolhas deliberadas", prossegue, citando as restrições a imigrantes e o corte de programas de ajuda internacional, como os da Usaid, agência fechada pelo governo de Donald Trump no ano passado.

"Programas como os da Usaid estavam entre os instrumentos de soft power mais eficazes que os EUA já implantaram, construindo décadas de boa vontade ao melhorar a vida das pessoas. Desmantelá-los significa ceder todo esse espaço, exatamente no momento em que a China expande sua presença na área do desenvolvimento. Os EUA não estão simplesmente se retirando para um vácuo. É como ver um concorrente ocupar o espaço que você deixou vago", afirma.

Veja a seguir mais trechos da entrevista:

Como a Copa do Mundo de 2026 pode afetar a forma como os EUA são vistos no exterior?

A Copa do Mundo é uma das maiores oportunidades de soft power que um país pode sediar. Bilhões de pessoas assistindo, centenas de milhares de visitantes vivenciando o país anfitrião por conta própria. Para a maioria dos anfitriões, é um saldo positivo enorme, uma chance de converter impressões abstratas em experiência real. Mas as condições em torno deste torneio em particular correm o risco de transformar essa oportunidade em um problema, e isso é, em certa medida, autoinfligido.

A magia de uma Copa do Mundo depende da abertura, da ideia de que o mundo inteiro é bem-vindo. Quando existem barreiras visíveis, dificuldades com vistos, proibições de viagem, triagem agressiva de torcedores, isso contradiz diretamente o espírito do evento. Imagine torcedores que não conseguem vistos para assistir ao jogo de sua própria seleção. Cada uma dessas histórias se torna uma manchete global dizendo que os EUA são fechados e hostis. O contraste entre "o belo jogo que une o mundo" e "mas você não pode entrar" se escreve sozinho.

Para sermos justos, os EUA também têm uma oportunidade real de fazer isso bem. Cidades diversas, infraestrutura de classe mundial, energia contagiante da torcida. Se o governo lidar com as questões de entrada com um mínimo de flexibilidade, principalmente na definição de acomodações para o torneio, os EUA poderão realizar um evento de sucesso que relembre ao mundo o pluralismo americano. Mas a Copa do Mundo premia exatamente os valores – abertura, acolhimento, pluralismo – dos quais a política atual está se afastando. Na ausência de uma acomodação deliberada, é mais provável que o torneio amplifique percepções negativas do que as repare.

O governo Trump tem tomado várias medidas para afastar os EUA do exterior, como restringir a imigração, cortar programas de ajuda internacional e fazer provocações a outros países, como ameaças de anexação. Estas ações poderão ter efeitos duradouros para a imagem dos EUA no mundo?

Sim, e eu iria além: podemos estar testemunhando a erosão voluntária mais significativa do soft power americano no período pós-guerra. Voluntária é a palavra-chave. Este é o resultado de escolhas deliberadas.

O soft power é construído sobre a confiança acumulada em longos períodos. É um reservatório. Os EUA passaram cerca de oitenta anos preenchendo-o por meio de exportações culturais, intercâmbio educacional, ajuda ao desenvolvimento e a percepção geral de que a América era amplamente confiável e inspiradora. Esse reservatório é profundo, e é por isso que não se esvazia da noite para o dia. Mas diversas políticas atuais estão drenando-o simultaneamente.

De que forma isso está ocorrendo?

Os cortes na ajuda externa são um exemplo claro. Programas como os da Usaid estavam entre os instrumentos de soft power mais eficazes que os EUA já implantaram, construindo décadas de boa vontade ao melhorar a vida das pessoas. Desmantelá-los significa ceder todo esse espaço, e notavelmente, cede-o exatamente no momento em que a China expande sua própria presença na área do desenvolvimento. Os EUA não estão simplesmente se retirando para um vácuo. É como ver um concorrente ocupar o espaço que você deixou vago. Isso representa um custo duplo.

Qual é o impacto das medidas contra imigrantes?

As restrições à imigração têm um impacto igualmente profundo. A percepção de que os melhores e mais brilhantes poderiam vir para os Estados Unidos e ter sucesso era fundamental para a imagem americana. Isso impulsionou o Vale do Silício, as universidades americanas e a ciência americana. Quando essa abertura se fecha visivelmente, os EUA perdem tanto o talento real quanto o poder simbólico de ser o lugar para onde o mundo quer ir. As pessoas rejeitadas não se esquecem disso. E a tensão nas alianças ensina uma lição duradoura. Quando os EUA tratam seus aliados de forma transacional ou se comportam de maneira imprevisível, outros países internalizam que os compromissos americanos podem não ser duradouros e que a cautela é prudente. É por isso que isso pode ser permanente. O dano não se limita aos relacionamentos atuais. Afeta a expectativa subjacente de confiabilidade. Expectativas, uma vez quebradas, são caras para reconstruir.

Como o governo Trump vê o uso do soft power?

Você ouve de figuras como [o vice-presidente] JD Vance e [o secretário de Defesa, Pete Hegseth] que o soft power é uma distração e que o poder coercitivo é o que importa, que governos anteriores trocaram tolamente um pelo outro. Acho que isso demonstra uma incompreensão do poder. Poder brando (soft power) e poder coercitivo não são substitutos. São complementares.

Um país que é temido, mas não confiável, precisa usar a coerção em tudo, e a coerção é exaustiva e custosa. A genialidade da primazia americana após a Segunda Guerra Mundial foi que grande parte do mundo participou voluntariamente, porque considerou a ordem atraente. É esse soft power que está sendo esgotado.

Quanto tempo mais poderá durar este ‘estoque’ de soft power americano?

Para ser justo, o soft power americano tem uma resiliência única, independentemente das políticas. Hollywood, universidades, empresas de tecnologia, a língua inglesa, tudo isso continua a gerar atração, independentemente de quem esteja na Casa Branca. Um adolescente em Jacarta absorve o soft power americano mesmo que não goste do governo. Os Estados Unidos também têm uma capacidade comprovada de reinvenção. A necessidade de reinvenção é grande; seu obituário já foi escrito antes e estava errado.

Mas minha conclusão é a diferença entre flutuação cíclica e dano estrutural. Se isso fosse apenas uma queda temporária, o reservatório se reabasteceria. O que me preocupa é que essas mudanças possam estar ensinando lições estruturais. Quando os países reestruturam suas cadeias de suprimentos, constroem sistemas de pagamento não dolarizados e formam acordos de segurança sem os EUA, essas são proteções duradouras que persistem independentemente das políticas futuras.

Uma vez que essa conclusão seja institucionalizada nas estratégias de outros países, uma futura administração não poderá simplesmente ignorá-la. O mundo que emerge nesse ínterim, mais multipolar, mais protegido, menos centrado na liderança americana, pode se tornar algo que se retroalimenta. E a Copa do Mundo de 2026 pode acabar sendo um símbolo vívido, televisionado globalmente, exatamente dessa tensão: um momento em que o mundo chega à porta dos Estados Unidos e descobre o quanto a recepção mudou.

AutorRafael Balago
FonteExame
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