Copom abre brecha e gera ruído: entenda o ponto mais controverso do comunicado

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a Selic veio acompanhada de um comunicado que deixou o mercado dividido entre interpretações mais duras e mais brandas. Para Luís Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, o problema não foi a decisão em si, mas a forma como o Banco Centralcomunicou seus próximos passos.
Segundo ele, o texto divulgado após a reunião foi “muito confuso” e abriu espaço para leituras completamente diferentes entre os analistas.
“Quando você tem dois grupos de economistas experientes, um dizendo que o comunicado foi hawkish e outro dizendo que foi dovish, é porque o comunicado foi mal escrito. O comunicado não comunicou o que tinha que ser comunicado”, afirmou.
Na avaliação de Leal, a maior fonte de ruído foi um trecho específico do comunicado em que o BC passou a discutir trajetórias alternativas para a convergência da inflação.
No texto, o Copom afirmou que:
“Nas simulações atuais, a trajetória de política monetária necessária para assegurar a convergência da inflação à meta, no atual horizonte relevante, implicaria que as taxas de inflação projetadas a partir do horizonte relevante vigente na próxima reunião estariam situadas abaixo da meta. Nessas condições, o Comitê avalia que trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos.”
Para o economista, a controvérsia surgiu porque esse parágrafo parece destoar do restante do comunicado.
Segundo Leal, até a divulgação desse trecho, o texto construía uma narrativa claramente cautelosa. O BC destacou que a atividade econômica voltou a acelerar, que a inflação continuou se deteriorando, que as expectativas seguem desancoradas e que as projeções oficiais para os preços pioraram. Além disso, o balanço de riscos ganhou novos fatores altistas para a inflação.
O que o Banco Central quis dizer?
Apesar das críticas, Leal não acredita que o Copom tenha mudado sua estratégia de política monetária. Para ele, o problema foi a forma como o BC explicou sua decisão.
Na interpretação do economista, a autoridade monetária provavelmente rodou um cenário alternativo em que a Selic permaneceria estável em um nível elevado por mais tempo. Nesse exercício, a inflação convergiria para a meta, abrindo espaço para novos cortes graduais dos juros.
“Eu acho que eles não souberam escrever o que realmente estavam fazendo”, afirmou.
Segundo Leal, o Banco Central poderia ter detalhado melhor quais premissas utilizou para chegar a essa conclusão. Em vez disso, apresentou apenas o resultado final, o que abriu espaço para interpretações divergentes no mercado.
O principal problema, na avaliação do economista, foi a referência ao primeiro trimestre de 2028 como horizonte para a convergência da inflação.
Até então, o próprio Banco Central trabalhava com o quarto trimestre de 2027 como horizonte relevante para a política monetária. Ao mudar a referência sem explicar claramente os motivos, o Copom acabou levantando dúvidas sobre quais parâmetros estão orientando suas decisões.
“Você tinha uma regra objetiva. A inflação precisava convergir para a meta no horizonte relevante de 18 meses. Nessa reunião, o Banco Central quebra essa regra de forma subjetiva”, afirmou.
Para Leal, o BC quis sinalizar que ainda há espaço para cortar juros sem comprometer a convergência da inflação. O problema é que, ao recorrer a um horizonte diferente daquele utilizado até então, acabou transmitindo uma mensagem ambígua.
“Por que agora eu vou olhar para o primeiro trimestre de 2028? Depois eu posso olhar para o segundo trimestre? Para o terceiro? Você acaba criando uma subjetividade que antes não existia”, argumentou.
Foi justamente essa falta de clareza que, segundo ele, dividiu o mercado entre aqueles que viram uma justificativa técnica para novos cortes e os que interpretaram o movimento como uma flexibilização das regras adotadas pelo próprio Banco Central.
Ata pode esclarecer mensagem
Apesar do ruído, Leal acredita que a ata da reunião e o Relatório de Política Monetária devem ajudar a esclarecer o episódio.
Segundo ele, o Banco Central terá mais espaço para detalhar os modelos utilizados e explicar de forma mais completa a lógica por trás do parágrafo que gerou a controvérsia. “Provavelmente ele vai reverter esse mal-estar do mercado”, disse.
O economista afirmou que não é a primeira vez que um comunicado gera interpretações divergentes e precisa ser complementado pela ata, o que o levou inclusive a defender uma discussão mais ampla sobre a estratégia de comunicação da autoridade monetária. Leal chegou a mencionar que o posicionamento de Kevin Warsh no Federal Reserve na última coletiva, apesar de radical, poderia fazer o BC repensar a sua forma de comunicar.
G5 passa a ver novo corte já em agosto
Mesmo considerando o tom mais duro presente em vários trechos do documento, Leal acredita que a mensagem final do Copom foi de que ainda existe espaço para flexibilização monetária.
Por isso, a G5 revisou sua expectativa e passou a enxergar uma nova redução dos juros já na reunião de agosto.
“Antes eu esperava que não tivesse corte em agosto. Agora eu acho que vai ter”, disse.
Segundo ele, as simulações da casa indicam que a inflação ainda convergiria para a meta com a Selic entre 14% e 13,75%.
A projeção da G5 continua sendo de Selic em 14% ao final deste ano, mas com um calendário diferente do imaginado anteriormente.
“Eu continuo com a minha expectativa de 14% para a Selic no final do ano. Antes eu imaginava um corte apenas em dezembro. Agora eu acho que vai ser em agosto”, afirmou.
