Corinthians pode ser afetado por sanções dos EUA a empresário? Entenda

Nesta quarta-feira, 1, os Estados Unidos anunciaram sanções contra pessoas e empresas do Brasil, pela acusação de lavagem de dinheiro da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). No anúncio da medida, o governo americano citou indiretamente o Corinthians, o que gera dúvidas sobre eventuais consequências para o clube.
O principal alvo desta rodada de sanções é o empresário Victor Shimada, denunciado em um processo que investiga o desvio de dinheiro de um contrato de publicidade assinado entre o Corinthians e a empresa de apostas Vai de Bet.
"Em janeiro de 2025, Shimada foi mantido brevemente em prisão domiciliar no Brasil porque uma de suas empresas, a Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda (Victory Trading), foi usada para lavar dinheiro roubado de um clube de futebol brasileiro como parte de um esquema de fraude publicitária", diz o comunicado do Departamento do Tesouro dos EUA, que anunciou a punição.
O clube em questão é o Corinthians. A princípio, não há efeitos da sanção sobre o time. Só haveria riscos se ficar comprovado que a entidade tenha agido, de forma deliberada, para enviar recursos para o PCC, o Comando Vermelho ou outra entidade considerada terrorista pelos EUA. Essa conduta é definida pela lei americana como "apoio material a grupo terrorista".
"O apoio material precisa ser deliberado, doloso e objetivo. Não pode ser apoio culposo, por meio de negligência, imprudência ou imperícia", diz Berlinque Cantelmo, advogado especialista em crime organizado e diretor de relações institucionais da Escola Superior da Advocacia da OAB/MG.
"Agora, se houver indicativo de que essas empresas e pessoas relacionadas às empresas tinham ciência de que estariam a transacionar com uma organização criminosa ou, nesse contexto, de acordo com a visão do governo americano, uma organização terrorista, aí a coisa começa a ficar um pouco mais complicada", afirma. Neste caso, as empresas e pessoas acusadas precisam provar que o apoio material não ocorreu.
Cantelmo indica que as empresas brasileiras precisam tomar precauções para evitar ser alvo de sanções.
"O primeiro ponto é partir de uma regra de governança clara e estabelecer uma regra de compliance, por meio da construção de relatórios sólidos que demonstrem a inexistência de conexão da operação empresarial com organização criminosa", afirma.
Neo Química Arena, estádio do Corinthians, na zona leste de São Paulo (Jose Cordeiro/SPTuris)
Entenda a relação entre Corinthians e empresário sancionado
Shimeda, alvo de sanções dos EUA, se envolveu no caso de desvio de dinheiro envolvendo um contrato entre a empresa de apostas Vai de Bet e o Corinthians.
Em 2024, o Corinthians, sob comando do presidente Augusto Melo, fechou um contrato de patrocínio com a Vai de Bet, no valor de R$ 360 milhões. O acerto previa um pagamento de R$ 700 mil mensais para a empresa intermediadora Rede Media Social Limitada, o que representaria R$ 25,2 milhões até o fim do contrato, apontado como uma comissão pelo fechamento do negócio.
A Vai de Net decidiu rescindir o contrato após a revelação, feita pelo portal UOL, que parte dessa comissão estaria indo para uma empresa de fachada, cujo CNPJ estava em nome de uma moradora de Peruíbe, em SP, que não tinha relação com os negócios e foi apontada como vítima do esquema.
Na época, uma investigação da Polícia Civil de São Paulo apontou que a empresa Rede Social Media usou uma rede de empresas fantasmas para transferir R$ 1 milhão à UJ Football Talent, empresa apontada como um braço financeiro do PCC. O Corinthians negou ter contrato com a empresa.
Uma das empresas usadas nesta rede de desvio de dinheiro, segundo o Ministério Público de São Paulo, foi a Victory Trading, companhia que foi sancionada pelos EUA nesta quarta-feira.
Em janeiro de 2025, Shimeda foi preso por duas semanas. Ele foi denunciado em julho de 2025 pelo crime de lavagem de dinheiro. Augusto Melo, presidente do Corinthians, que depois foi alvo de impeachment, foi denunciado pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto.
Victor Henrique de Oliveira Shimada, alvo de sanções dos EUA por ligação com o PCC (Reprodução/TJ-SP)
Efeito no processo no Brasil
Cantelmo avalia que a sanção dos EUA poderá impactar o julgamento de Shimeda no Brasil.
"Embora essa sanção americana não possa ser utilizada como prova no processo brasileiro, por se tratar de ato administrativo estrangeiro sem valor probatório automático em nosso sistema, isso pode contaminar o juízo cognitivo de quem vai fazer essa análise na persecução penal brasileira", diz.
"Ela vai gerar uma contaminação reputacional e uma pressão popular que pode, de certa maneira, tensionar a imparcialidade e a presunção de inocência", afirma.
Como funcionam as sanções dos EUA?
As sanções são punições aplicadas pelos Estados Unidos a pessoas e empresas no exterior, por uma série de razões. Neste caso, elas estão relacionadas ao combate ao crime organizado e ao terrorismo. Os americanos consideram que o tráfico de drogas é uma forma de terrorismo.
Quem é colocado na lista de sanções baseadas nesta lei fica impedido de entrar nos Estados Unidos e tem seus bens no país congelados, inclusive recursos em contas bancárias.
Ao mesmo tempo, essas pessoas não podem realizar transações financeiras com empresas sediadas ou com negócios nos EUA. Isso dificulta o acesso a cartões de crédito ou viajar com companhias aéreas americanas, por exemplo.
Empresas que desrespeitarem a regra e fizerem negócios com pessoas sob sanção podem ser punidas pelo governo americano.
As sanções americanas não têm validade automática no Brasil. Assim, não há bloqueio de bens no Brasil pela Justiça brasileira, por exemplo, quando uma empresa é sancionada pelos EUA. As restrições aplicadas no país devem ser determinadas pela Justiça nacional.
A aplicação dessas sanções depende apenas de um ato administrativo do governo americano, sem a necessidade de um processo judicial. A decisão é feita pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), parte do Departamento do Tesouro. A punição tem início imediato, após ser anunciada, e duração indeterminada.
A retirada da lista de sanções pode ser feita se ficar comprovado que a pessoa atingida deixou de participar de atividades irregulares, foi processada de forma adequada por seus crimes ou se o fim da punição atende aos interesses de segurança nacional dos Estados Unidos.
