'Corrente de oração': como a greve da Caixa impacta os corretores de imóveis
Caixa mantém contratações e canais digitais; corretores relatam efeitos distintos nas negociações

Como tudo na internet, a greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal também virou meme. Não faltam sátiras a um suposto marasmo dentro das imobiliárias diante da paralisação, que completou uma semana, no maior financiador de imóveis do país. Tem vídeo de corretores dormindo no escritório e até de corrente de oração entre os profissionais para a greve acabar. Mas será que o impacto é tão grande assim?
A EXAME apurou que a greve é sim percebida por corretores no mercado imobiliário, mas o impacto varia conforme o perfil das operações. Enquanto profissionais que trabalham com financiamentos da instituição relatam perda de velocidade em alguns processos, no segmento de alto padrão a paralisação tem efeito mais limitado diante da menor dependência dos clientes do crédito da Caixa.
A Associação Brasileira do Mercado Imobiliário (ABMI) destacou que a Caixa concentra a maior parte do crédito habitacional do país, o que faz com que o funcionamento das operações do banco seja acompanhado de perto por compradores, vendedores e profissionais envolvidos nas transações.
A Caixa, porém, afirma que as contratações de financiamento imobiliário continuam durante a greve. Procurado, o banco disse não ter recebido da área responsável informações sobre possíveis impactos da paralisação nesse segmento nem dados sobre contratos em atraso.
O órgão explica que diferentes etapas podem ser realizadas remotamente, enquanto os correspondentes da Caixa continuam atuando.
O banco cita um fluxo chamado Nato Digital, que permite aos clientes enviar documentos e realizar assinaturas com certificado, além do envio de documentação pelo WhatsApp e pelo aplicativo Habitação Caixa.Corretores percebem impacto na velocidade dos processos
Na ponta do mercado, o corretor de imóveis Davi Sacramento afirma que a paralisação pode afetar, principalmente, o andamento de processos já encaminhados. Em sua experiência, porém, a greve não chegou a provocar perda de negócios.
"A greve da Caixa acaba atrapalhando um pouco, porque a maioria dos processos de financiamento, principalmente para o Minha Casa, Minha Vida, atrapalha, sim, a questão muito mais da celeridade do processo do que aprovação de crédito, do que uma nova negociação", explica.
O corretor relata que eventuais atrasos podem acrescentar alguns dias ao processo. "Você perde um dia, perde dois dias, muitas vezes, por conta de atrapalhar o processo que já está firmado, mas perder negócios por conta disso a gente não chegou a perder", acrescenta.
A experiência relatada por Sacramento está concentrada principalmente em operações que dependem do financiamento bancário, incluindo o Minha Casa, Minha Vida. Ele também afirma que uma paralisação anterior, de um dia, teve efeito limitado sobre sua rotina.
No alto padrão, dependência da Caixa é menor
O impacto é diferente no segmento de alto padrão, em que compradores podem ter maior flexibilidade para fechar negócios sem recorrer ao financiamento ou para escolher entre diferentes instituições financeiras. É o que relata João Vítor Lanzilotti, corretor de imóveis que atende principalmente esse público.
Ele vê que a greve tem algum reflexo na rotina do escritório, mas não chegou a comprometer as negociações. Uma das razões é a forma como os clientes atendidos por ele costumam estruturar a compra dos imóveis.
"De fato, há um impacto, mas não um impacto crucial que vai fazer algum tipo de diferença em nossas negociações, até porque, como a gente atende mais um público de alto padrão, geralmente eles ou compram à vista ou compram parcelado, às vezes uma parcela mínima direto com o vendedor", detalha.
A menor dependência de uma única instituição financeira também reduz a exposição desses negócios à paralisação da Caixa. De acordo com Lanzilotti, mesmo os clientes que optam pelo crédito bancário costumam pesquisar alternativas no mercado antes de contratar o financiamento.
"Quando usam o financiamento bancário, eles não se limitam a um banco só, eles trabalham com qualquer banco, então isso acaba não afetando muito o nosso trabalho", na avaliação de Lanzilotti.
Caixa diz que contratações continuam
A Caixa afirma que os financiamentos continuam sendo contratados durante a greve e que parte relevante do processo pode ser feita sem atendimento presencial em uma agência.
Clientes podem enviar documentos pelo WhatsApp e pelo aplicativo Habitação Caixa, além de cumprir remotamente outras etapas previstas no fluxo digital da instituição.
Além dos canais específicos relacionados à habitação, a Caixa afirma que permanecem disponíveis App Caixa, Internet Banking Caixa, WhatsApp Caixa, Caixa Tem, Cartões Caixa, Habitação Caixa, entre outros.
O atendimento também pode ser feito pelo Alô Caixa, nos números 4004 0104, para capitais e regiões metropolitanas, e 0800 104 0104, para as demais localidades.
Na rede física alternativa às agências, clientes ainda podem utilizar caixas eletrônicos, lotéricas, Correspondentes Caixa Aqui e terminais do Banco24Horas.
Caixa apresenta nova proposta aos funcionários
Em meio à paralisação, a Caixa reabriu a mesa de negociação e apresentou uma nova proposta aos empregados. A expectativa é que os trabalhadores voltem a votar o texto na segunda-feira, 21.
Em posicionamento sobre a greve, o banco afirmou considerar o diálogo "o melhor caminho para a construção de acordos" e disse que mantém as negociações com as entidades representativas dos empregados.
Segundo a Caixa, foram realizadas 54 reuniões de negociação coletiva e apresentadas quatro propostas diferentes, com avanços sucessivos e atendimento de reivindicações feitas pelos trabalhadores.
