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Inteligência ArtificialBDR
01/07/2026
6 min

Corrida entre DeepMind, Anthropic e Meta vai além dos chatbots e avança pela ciência

Corrida entre DeepMind, Anthropic e Meta vai além dos chatbots e avança pela ciência

Durante décadas, prever como uma proteína se dobra foi um dos problemas mais difíceis da biologia, até que a inteligência artificial aprendeu a fazer isso em minutos. Cada proteína é uma cadeia molecular que se enrola em uma estrutura tridimensional específica. Essa forma define se ela ajudará a combater um vírus, transportar oxigênio ou desencadear uma doença.

A virada veio com o AlphaFold, sistema criado pela DeepMind, divisão de IA do Google. A ferramenta se tornou o caso mais citado de uma mudança de fase na tecnologia.

Atualmente, AlphaFold já mapeou mais de 200 milhões de estruturas de proteínas, praticamente todas as conhecidas pela ciência, e rendeu a seus criadores o Prêmio Nobel de Química de 2024. O feito consolidou a dianteira do Google DeepMind em um campo que agora virou uma das frentes mais disputadas pelas grandes empresas de tecnologia.

"A IA é muito mais do que uma ferramenta de automação; é uma maneira de expandir a curiosidade humana e abrir fronteiras totalmente novas de descoberta", afirma Lila Ibrahim, diretora de operações do Google DeepMind, em entrevista à EXAME. "Você pode ver isso em avanços como o AlphaFold, que ajuda cientistas a entender os blocos fundamentais da vida".

Por quase dez anos, a corrida teve um líder isolado. Além do AlphaFold, a DeepMind aplicou seus modelos à meteorologia, à ciência dos materiais e à genômica, área que estuda o conjunto de genes e suas funções. A empresa também desenvolveu ferramentas como o AlphaGenome, voltada à interpretação de informações genéticas.

A promessa abstrata de "IA para o bem” ganhou, nesse período, uso prático em laboratórios. No caso do AlphaFold, segundo o Google DeepMind, mais de 2 milhões de pesquisadores em 190 países já tiveram acesso à ferramenta. “Nossa missão no Google DeepMind é construir IA de forma responsável para beneficiar a humanidade. Baseamos tudo o que fazemos em rigor científico profundo e segurança”, diz Ibrahim.

A frase funciona como manifesto institucional. Mas, agora, a liderança construída pela empresa passou a ser contestada por rivais com dinheiro, infraestrutura e ambição científica.

A chegada da Anthropic muda a disputa

A ameaça mais simbólica veio da Anthropic, criadora do Claude, chatbot, aplicativo de conversa baseado em IA. Em junho, John Jumper, cientista que liderou a criação do AlphaFold e dividiu o Nobel com Demis Hassabis, presidente-executivo da DeepMind, anunciou sua saída da empresa.

Seu destino foi a Anthropic. A contratação reforçou a leitura de que a companhia quer disputar a fronteira da IA científica, e não apenas o mercado de assistentes digitais.

Ao longo de 2026, a empresa vinha montando sua estrutura para atuar em pesquisa aplicada: abriu laboratórios físicos, fechou parcerias com o Allen Institute e o Howard Hughes Medical Institute e comprou a Coefficient Bio, especializada em descoberta de medicamentos, por cerca de US$ 400 milhões.

Trazer para a Anthropic o cientista associado ao AlphaFold foi um sinal de que a corrida pela IA científica deixou de ser domínio quase exclusivo do Google DeepMind.

Na terça-feira, 30, a empresa apresentou o Claude Science, descrito por sua liderança como um de seus produtos mais importantes, ao lado do Claude Code. Não se trata de um novo modelo de IA, mas de um ambiente de trabalho que reúne mais de 60 bases de dados científicas e ferramentas usadas por pesquisadores em áreas como genômica e proteômica, campo dedicado ao estudo do conjunto de proteínas de um organismo.

"Nossa missão é desenvolver IA que sirva ao bem-estar de longo prazo da humanidade, e acreditamos que a maior oportunidade para isso está nas ciências da vida", afirmou Eric Kauderer-Abrams, chefe de ciências da vida da Anthropic, em comunicado da empresa. 

A diferença entre as estratégias é relevante. Enquanto o Google DeepMind construiu modelos científicos especializados, como o AlphaFold, a Anthropic aposta em organizar o ambiente de pesquisa ao redor de modelos de uso geral. Em um caso, a vantagem está no sistema treinado para uma tarefa científica específica. No outro, na tentativa de integrar dados, ferramentas e fluxos de trabalho usados por cientistas.

A aposta da Meta

A Meta entrou por outra porta: a química. A dona do Facebook e do Instagram direcionou parte do FAIR, seu laboratório de pesquisa em IA, para entender como átomos e moléculas se comportam. A empresa criou o Open Molecules 2025, base com mais de 100 milhões de simulações moleculares, gerada com 6 bilhões de horas de computação.

A lógica é diferente da adotada por Google DeepMind e Anthropic. Para a Meta, ensinar sistemas de IA a compreender como átomos se combinam não é apenas uma contribuição científica. É também um passo para criar modelos capazes de formar uma espécie de “modelo de mundo”, isto é, uma representação mais ampla do ambiente físico.

A empresa também passou a explorar uma fronteira mais próxima do corpo humano: o cérebro. Em uma frente separada de pesquisa, cientistas do FAIR desenvolveram o Brain2Qwerty, sistema de IA que transforma atividade cerebral em texto sem cirurgia. O modelo interpreta sinais captados por um scanner, equipamento de leitura de imagem ou atividade corporal, em formato de capacete enquanto a pessoa tenta digitar.

Segundo a Meta, o sistema chegou a 61% de acerto na reconstrução de palavras, ante cerca de 8% em métodos não invasivos anteriores. A tecnologia não lê pensamentos livres. Ela tenta decodificar a intenção motora de pressionar teclas. O objetivo declarado é ajudar pessoas que perderam a capacidade de falar ou se mover por causa de lesões cerebrais.

Por trás da disputa entre laboratórios, há uma questão de acesso. "A tecnologia só é tão boa quanto o progresso que ela cria para as pessoas", afirma Ibrahim. A executiva diz ter visto esse desafio em uma visita recente ao Brasil. "Acabei de visitar o Brasil e vi pessoalmente a energia vibrante e criativa da comunidade local, e queremos garantir que os brasileiros ajudem a moldar esse futuro da IA".

Por meio de uma doação deR$ 5 milhões do Google.org, braço filantrópico da empresa, o Google está expandindo no país o programa Experience AI, iniciativa de alfabetização em inteligência artificial. A ação será feita em parceria com a ONG Sincroniza Educação e tem como objetivo treinar educadores brasileiros para ensinar conceitos básicos de IA.

Quando o AlphaFold decifrou estruturas de proteínas em escala, a DeepMind demonstrou que a IA podia produzir instrumentos científicos, e não apenas textos, respostas ou conversas. Sinal de que já passamos da prova de conceito.

 

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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