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EconomiaCMDT
07/06/2026
7 min

Corte de voos segue em análise, especialmente em rotas no interior, diz CEO da Azul

Corte de voos segue em análise, especialmente em rotas no interior, diz CEO da Azul

Rio de Janeiro - A companhia aérea Azul já cortou 5% da operação neste ano no país, por causa da alta no preço dos combustíveis, e analisa mais reduções se os valores do querosene seguirem elevados, diz John Rodgerson, CEO da companhia.

“A gente espera que isso seja de curto prazo e que a situação volte ao normal se a guerra [no Oriente Médio] acabar. Mas, se não acabar, você vai voar rotas que não são rentáveis, e isso não faz sentido. Só vai queimar caixa fazendo isso”, disse Rodgerson, em entrevista à EXAME.

“Vamos avaliar. Talvez tenha cidade que possa sumir do mapa. Talvez tenhamos que suspender operações. Até agora não suspendemos nenhuma cidade, mas ajustamos frequências e utilização de aeronaves”, prossegue.

Na entrevista, o CEO falou também sobre os impactos da reforma tributária e da possível mudança na escala 6x1. Leia mais trechos a seguir:

A alta no preço dos combustíveis deve gerar novos cortes de voos na Azul, além dos 5% que já ocorreram?

Todos os empresários do mundo estão cortando a capacidade neste momento. Então, quando você tem o custo principal que dobra, você tem que ajustar a malha. A gente espera que isso seja de curto prazo e que a situação volte ao normal se a guerra acabar. Mas, se não acabar, você vai voar rotas que não são rentáveis, e isso não faz sentido. Só vai queimar caixa fazendo isso.

Há previsão de reduzir mais? Tem um número previsto para esse segundo semestre?

Não. O que a gente faz é que todo mês a gente olha: a guerra ainda está em curso, o preço do combustível está alto, essas rotas agora não fazem sentido, vamos avaliar. Talvez tenha cidade que possa sumir do mapa. Talvez tenhamos que suspender operações. Até agora não suspendemos nenhuma cidade, mas ajustamos frequências e utilização de aeronaves.

Também usamos muito a flexibilidade da frota. Temos vários tipos de aeronaves. Então, uma rota que tinha um avião de 180 assentos pode passar para um de 130 assentos; uma de 130 pode passar para um de 70. Vamos ajustando conforme a demanda que existe nesses novos preços mais altos.

Há rotas que têm sido menos rentáveis ultimamente no Brasil?

Os voos regionais, onde o combustível representa a maior parte do custo, são os mais afetados. Porque quando você abastece em São Paulo, o custo é um; quando abastece no interior do Brasil, às vezes é duas ou três vezes maior. E normalmente a tributação nessas regiões também é mais alta. Quando o combustível dobra de preço, isso pesa ainda mais.

Como vê as ações do governo para tentar baixar o preço do combustível?

Eu acho positivo. Eles não têm feito muita coisa para baratear o combustível em si. Fala-se em acesso a linhas de crédito e algumas outras medidas desse tipo, algum ajuste fiscal, mas estamos falando de valores muito grandes.

Quando você olha para uma empresa como a nossa, a gente gasta em um ano R$ 5 bilhões ou R$ 6 bilhões em combustível. Quando o preço dobra, mesmo que não fique dobrado o ano inteiro, se isso durar seis meses estamos falando de R$ 2 bilhões ou R$ 3 bilhões a mais.

Se a guerra no Oriente Médio acabasse hoje, quanto tempo demoraria para essa situação normalizar?

A gente acredita que, mesmo depois da guerra, haverá um novo normal, provavelmente com preços um pouco mais altos do que antes.

Os passageiros devem aceitar esse preço mais alto ou a demanda deve encolher?

Eu acho que sim. Há previsão de que menos pessoas vão viajar. Essa é a realidade. Se o preço aumenta 20%, algumas pessoas acabam saindo do mercado. O trabalho do empresário é tentar aumentar a tarifa; se não for possível, corta um pouco a capacidade.

Temos hoje um debate sobre a reforma tributária, com uma regra que poderia ajudar a aviação regional. A Azul seria beneficiada por isso?

Na reforma tributária, estamos alinhados como setor. A aviação regional funciona hoje porque existem regimes especiais de ICMS em alguns estados. A reforma tributária eliminaria esse regime especial. Por essa razão, eles tiveram que olhar para a aviação regional, porque, como eu falei, ela já tem um custo muito mais alto de combustível e o ICMS é diferenciado nesses voos. Então, não vai dar uma vantagem acima do que existe hoje. Vai servir para continuar tornando esses voos rentáveis. Mas ainda temos que ver o que vai acontecer com a reforma tributária em voos internacionais e em voos para grandes cidades.

A empresa aérea é o meio, não o fim do negócio. É o meio pelo qual as pessoas se conectam, pelo qual existe logística no país, pelo qual as pessoas vão para pousadas, fazem turismo, vendem produtos, movimentam a economia.

Eu vi um número da Iata: se cair de 10 milhões a 20 milhões o número de passageiros, quantas pessoas a menos vão andar de Uber? Quantas vão deixar de ficar em pousadas? Quantas deixarão de frequentar restaurantes? Existe um impacto multiplicador que afeta o setor inteiro. Tem que tomar muito cuidado com isso.

Por essa razão, quando tivemos o choque da Covid, muitos governos estavam financiando empresas aéreas, porque sabiam que o efeito multiplicador de uma paralisação seria um desastre para a economia. Se ninguém mais voa, ninguém viaja para fazer negócios, ninguém movimenta cadeias inteiras da economia. Há um impacto multiplicador muito grande.

Há também o debate sobre o fim da escala 6x1. Vocês fizeram algum estudo sobre como isso pode afetar a operação?

Para os aeroviários (que trabalham em solo), a gente sabe que o nosso setor teria que contratar mais gente. Os aeronautas (que trabalham nos aviões) já têm um regime próprio, negociado com os sindicatos. Estou mais otimista de que isso será resolvido, porque eles já têm, em média, dez dias de folga por mês e uma escala reduzida em comparação com outras categorias. Mas, para os aeroviários, com certeza seria necessário contratar mais gente.

Isso impactaria muito os custos?

Vai aumentar custo, sem dúvida. Quando você tem que contratar mais pessoas, o custo aumenta.

O Brasil teve um recorde de turistas no ano passado, com cerca de 9 milhões de visitantes. Vocês têm iniciativas para atrair mais estrangeiros para o Brasil? Acha que esse número pode continuar crescendo?

O Brasil bateu recorde, mas ainda recebe menos turistas do que a Jamaica, uma pequena ilha do Caribe. E muitos desses turistas vêm da Argentina, não dos Estados Unidos ou da Europa.

Precisamos trabalhar junto com o Ministério do Turismo e com as empresas aéreas para trazer mais pessoas para o Brasil.Temos visto isso em outros países, como a Colômbia, que abriu as portas e fez muitas campanhas. Precisamos convidar mais gente para conhecer as belezas do Brasil.

Por isso, quando voltamos ao tema da reforma tributária, precisamos pensar em como estamos tributando as empresas, porque muitas vezes a única forma de um estrangeiro chegar ao Brasil é por meio de um avião. Estou aqui no Brasil há quase 20 anos e acredito que existe um enorme potencial turístico. Ainda há muito poucos americanos visitando o país.

Qual será o impacto da Copa do Mundo nas operações nos próximos meses?

Com certeza. Mais voos para Miami e para os Estados Unidos. Temos muito orgulho de sermos patrocinadores da CBF. Estamos em um ano de eleições, em que normalmente há divisões no país, mas o futebol une as pessoas. Temos visto isso através das nossas ações e eventos. A Copa do Mundo sempre faz isso: por um período, as pessoas deixam as divisões de lado e se unem mais. É uma forma de mostrar que a Azul está de volta, que a nossa marca está de volta.

O repórter viajou a convite da Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo).

AutorRafael Balago
FonteExame
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