Cotação do café sobe mais de 17% em um mês; produtores se preocupam com 'super' El Niño

Após um período de queda nos preços do café ao consumidor em 2026, a cotação do grão voltou a registrar forte valorização. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP) mostram que as cotações do grão subiram mais de 10% nas últimas semanas, movimento atribuído às chuvas durante a colheita nas principais regiões produtoras e às preocupações com os possíveis impactos do El Niño sobre a próxima safra.
Segundo o Cepea, a saca de 60 quilos do café arábica, que chegou a ser negociada a R$ 1.393,57 em 9 de junho, passou a valer R$ 1.578,69 em 30 de junho, uma valorização superior a 13% em apenas três semanas.
O indicador continuou avançando nos primeiros dias de julho e fechou em R$ 1.636,25 por saca na última sexta-feira, 3. Comparativamente ao dia 9 de junho, houve uma valorização de 17,4%.
O café robusta (conilon) também registrou alta no período. A cotação passou de R$ 921,46 por saca, em 21 de junho, para R$ 1.070,57 na última sexta-feira, avanço de aproximadamente 16% em pouco mais de dez dias.
Antes da escalada recente, ospreços do café vinham apresentando queda para o consumidor. Entre janeiro e maio de 2026, o produto acumulou redução superior a 8% nos supermercados, de acordo com O Globo, após dois anos de forte valorização.
O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café arábica e robusta. As duas variedades são utilizadas pela indústria em diferentes proporções para compor os blends comercializados no mercado, equilibrando características como sabor, aroma e teor de cafeína.
Efeitos das chuvas em Minas Gerais
O pesquisador do Cepea Renato Garcia afirmou a O Globo que a alta nas cotações foi impulsionada pelas chuvas intensas registradas durante o pico da colheita do café arábica em Minas Gerais. O excesso de precipitações interrompeu temporariamente os trabalhos no campo, diminuindo a oferta disponível do produto.
Segundo Garcia, as atividades de colheita ficaram praticamente paralisadas por cerca de duas semanas em razão das condições climáticas atípicas, o que contribuiu para a pressão sobre os preços recebidos pelos produtores.
Além do atraso na colheita, o setor monitora as condições climáticas para o segundo semestre. De acordo com o pesquisador do Cepea, a possibilidade de formação do El Niño aumenta a incerteza sobre o comportamento da próxima safra brasileira.
Mercado acompanha risco de El Niño
Em nível global, os preços dos alimentos registraram leve queda em junho, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), mas o avanço do fenômeno climático El Niño mantém o cenário de alerta para o setor agrícola internacional.
O El Niño é um fenômeno climático-oceânico caracterizado pelo aquecimento anormal das águas da região equatorial do Oceano Pacífico. Ele faz parte do ciclo El Niño–Oscilação Sul (ENOS), que também inclui o La Niña, fase oposta marcada pelo resfriamento dessas águas.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em conjunto com órgãos como INPE, ANA, CEMADEN, SGB e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, as condições observadas em junho de 2026 já indicam padrão típico de El Niño, com aquecimento das águas do Pacífico próximo à costa da América do Sul acima de 2°C.
As previsões para osegundo semestre apontam chuvas acima da média na Região Sul do Brasil e abaixo da média no centro-norte do país, além de maior probabilidade de temperaturas elevadas, com aumento de ondas de calor e risco de incêndios florestais.
Os modelos climáticos indicam probabilidade superior a 90% de manutenção do fenômeno até o início de 2027, com possibilidade de um El Niño de forte intensidade, caracterizado por anomalias superiores a 2°C na temperatura do Pacífico equatorial durante a primavera e o verão de 2026.
A FAO alerta que oavanço do El Niño pode intensificar secas em regiões agrícolas estratégicas, afetando lavouras e pastagens em diferentes continentes.
