Craques da bolsa: a escalação dos investidores para enfrentar juros altos e volatilidade

Em um cenário de juros elevados, inflação resistente e maior volatilidade nos mercados, a diversificação continua sendo uma das principais estratégias para reduzir riscos sem abrir mão de retorno. É justamente essa lógica que norteia o relatório Craques da Bolsa 2026, da Ágora Investimentos, que usaa Copa do Mundo como analogia para montar uma seleção de ações capazes de atravessar um ambiente econômico mais desafiador.
A carteira foi construída em um esquema tático 4-4-2, a partir de uma votação com milhares de investidores, combinada à análise dos fundamentos das empresas. O objetivo, segundo a corretora do grupo Bradesco, foi equilibrar ativos mais defensivos, capazes de proteger patrimônio e gerar dividendos, com empresas de crescimento e potencial de valorização.
"A construção de um bom elenco é, no fundo, um exercício de equilibrar qualidades complementares com um objetivo muito claro: ganhar o campeonato. Curioso é que um investidor experiente faz exatamente o mesmo exercício — só que, em vez de jogadores, ele escolhe empresas", afirma o relatório.
Segundo a Ágora, a montagem da carteira segue o conceito de factor investing, estratégia que seleciona empresas por características específicas, como qualidade, valor, lucratividade e potencial de crescimento, em vez de simplesmente apostar em setores ou tendências de curto prazo.
O cenário exige uma postura mais defensiva
Para justificar a composição da carteira, a corretora traça umcenário macroeconômico que compara a um "gramado pesado". Entre os principais desafios estão a manutenção dos juros elevados, inflação persistente, oscilações no mercado internacional de energia, riscos fiscais e eventos climáticos que pressionam preços.
"O mundo vem enfrentando um choque relevante vindo do mercado de energia. Custos mais altos de energia se espalham pela economia, atingindo transporte, logística, indústria e, gradualmente, chegando ao consumidor final. É como se o campo tivesse ficado mais pesado, tornando cada jogada mais desgastante", diz o relatório.
Quem entrou em campo
A seleção começa pela defesa, formada por empresas consideradas mais resilientes. A BB Seguridade (BBSE3) foi escolhida como goleira, com 63% dos votos.
A Ágora destaca seu modelo de negócios leve em capital, apoiado na distribuição de seguros pela rede do Banco do Brasil,além do dividend yield próximo de 13%, lucro crescendo, em média, 19% ao ano nos últimos cinco anos e múltiplo Preço por Lucro, o P/L, de apenas 7,4 vezes.
Na zaga, a WEG (WEGE3) recebeu 66% dos votos e foi apontada como a "capitã" da defesa. O relatório destaca mais de duas décadas de crescimento consistente dos lucros, margens operacionais acima de 20%, retorno sobre capital superior a 25% e cerca de 60% da receita proveniente do exterior.
Ao seu lado está a RD Saúde (RADL3), escolhida pela expansão contínua da rede — atualmente abrindo, em média, uma nova loja a cada dois dias úteis — e pelo potencial de crescimento do segmento de serviços de saúde.
As laterais ficaram com Marcopolo (POMO4), beneficiada pelo ciclo de renovação da frota e pela eletrificação dos ônibus, e Iguatemi (IGTI11), vista como uma proteção natural contra a inflação graças aos contratos de aluguel integralmente indexados e à baixa vacância dos shoppings premium.
Bancos, infraestrutura e petróleo dominam o meio e o ataque
No meio-campo, o principal nome é o Itaú Unibanco (ITUB4), escolhido por 70% dos participantes da votação.
Segundo a corretora do Bradesco, o banco "joga melhor quando o campo está pesado", já que juros elevados ampliam o spread bancário e fortalecem os resultados financeiros. O relatório também destaca o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) acima de 20%, carteira de crédito superior a R$ 1,3 trilhão e valuation considerado atrativo.
Ao lado dele aparece a B3 (B3SA3), definida como um "árbitro" que continua lucrando independentemente de quem vence a partida, uma vez que o aumento das operações com derivativos de juros tende a compensar parte da redução do volume negociado em ações.
Completa o setor a Equatorial (EQTL3), cuja estratégia de adquirir distribuidoras problemáticas e transformá-las em ativos geradores de caixa foi apontada como diferencial competitivo.
Já no ataque, a carteira reúne empresas ligadas ao petróleo e crescimento. A Petrobras (PETR4) foi escalada como a "camisa 10 da equipe". A Ágora destaca seu baixo custo de extração no pré-sal, dividend yield superior a 12% e forte geração de caixa, embora reconheça que o risco político continua sendo o principal fator de atenção. "O artilheiro mais criticado da liga, mas goleador", compara.
A Prio (PRIO3) aparece como uma alternativa privada deexposição ao petróleo, apoiada na estratégia de adquirir campos maduros, operar com baixo custo de produção e manter dívida praticamente inexistente.
Já o Nubank (ROXO34) representa o perfil de crescimento. O relatório destaca a base superior a 100 milhões de clientes, lucro acima de US$ 1 bilhão em 2024 e potencial de expansão internacional, especialmente no México.
Embora a carteira tenha acumulado valorização de apenas 2,87% até 12 de junho de 2026, abaixo dos 6,21% do Ibovespa no mesmo período, a Ágora defende que o desempenho deve ser analisado sob uma perspectiva mais ampla.
Desde o fim da Copa do Mundo de 2022, a mesma seleção teria registrado retorno acumulado de 105,23%, contra 66,38% do Ibovespa.Segundo o estudo, aproximadamente 65% desse ganho foi explicado pelo crescimento real dos lucros das empresas, especialmente de Petrobras, Marcopolo, Itaú e Prio, enquanto os 35% restantes vieram da expansão dos múltiplos de mercado, refletindo a reprecificação positiva de ativos como Marcopolo, Itaú e BB Seguridade.
O relatório ressalta ainda que empresas como WEG e RD Saúde apresentaram fundamentos sólidos, mas tiveram desempenho relativamente inferior porque já negociavam com avaliações elevadas, ilustrando o desafio de conciliar crescimento com preço de entrada.
Para a corretora, a principal conclusão permanece a mesma da metáfora utilizada ao longo do estudo: assim como no futebol, "um portfólio vencedor depende menos de reunir apenas "estrelas" e mais de combinar empresas com características complementares, capazes de atravessar diferentes ciclos econômicos mantendo disciplina, geração de caixa e crescimento consistente".
