Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Renda FixaCMDT
20/10/2026
4 min

CRAs estão com os dias contados? Dinheiro do agronegócio está migrando para outros papéis isentos, mostram dados da Anbima

Enquanto as emissões de CRAs despencam mais de 60% em 2026, CPR-F e Fiagros ganham espaço e começam a redesenhar o mapa do financiamento do agronegócio

CRAs estão com os dias contados? Dinheiro do agronegócio está migrando para outros papéis isentos, mostram dados da Anbima

Durante anos, o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) foi o principal endereço do investidor que buscava exposição ao agronegócio com isenção de imposto de renda (IR). Agora, esse reinado dá sinais de desgaste.

Números divulgados pela Anbima nesta terça-feira (20) sobre a captação no mercado de capitais mostram uma mudança silenciosa, mas significativa, na forma como o setor está levantando recursos.

Entre janeiro e setembro deste ano, as emissões de CRAs somaram R$ 11,1 bilhões, uma queda de 62,3% em relação ao mesmo período de 2025.

Ao mesmo tempo, outros instrumentos avançaram rapidamente.

As emissões de Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F) saltaram de R$ 3,9 bilhões para R$ 11,8 bilhões no período, um crescimento de 202,7%. Já os Fiagros captaram R$ 10,2 bilhões, alta de 274,7% na mesma comparação.

A mudança sugere que o dinheiro continua chegando ao setor, mas está escolhendo caminhos diferentes.

O CRA está perdendo espaço?

Na avaliação de Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, parte importante da explicação dessa migração está em mudanças regulatórias ocorridas nos últimos anos.

Em 2025, o Conselho Monetário Nacional (CMN) mudou as regras para emissões de CRA. Atualmente, a empresa precisa comprovar que mais de 2/3 de sua receita consolidada vem do agronegócio para usar o instrumento financeiro.

Com isso, Maranhão afirma que muitas empresas deixaram de se enquadrar e passaram a buscar alternativas dentro do próprio universo do agronegócio para conseguir financiamento.

Uma delas foi justamente a CPR-F.

As cédulas rurais já existiam, mas passaram a ser utilizadas mais intensamente a partir do fim de 2025, segundo Maranhão, e ganharam espaço entre empresas que ficaram fora do enquadramento necessário para emissões de CRA.

Para as pessoas físicas, as CPR-F de emissores do agronegócio têm seus rendimentos isentos de IR. Mas não é o único título isento que está sendo usado como substituto ao CRA.

"Vemos a CPR crescendo em conjunto com os Fiagros", disse Maranhão na coletiva da Anbima.

Os Fiagros ganharam uma função maior

Outro movimento observado pela entidade é o fortalecimento dos Fiagros.

Originalmente vistos como uma espécie de "FII do agro", esses fundos passaram a cumprir funções mais amplas no financiamento para o setor.

Além da compra de títulos de crédito, atualmente eles também podem adquirir terras, consolidar ativos e oferecer diferentes tipos de exposição ao agronegócio.

Empresas e outras instituições do mercado de capitais passaram a trabalhar com os fundos para atuar no setor.

Segundo a Anbima, esse mandato mais flexível faz parte do cenário que explica o avanço das emissões em 2026.

O volume captado pelos Fiagros praticamente quadruplicou no período, saltando de R$ 2,7 bilhões para R$ 10,2 bilhões.

A quantidade de operações seguiu o mesmo ritmo, subindo de 31 entre janeiro e setembro do ano passado para 95 no mesmo período deste ano.

Agro ainda enfrenta dificuldades

Entretanto, no meio desse processo de substituição de ativos, o setor ainda enfrenta um momento delicado. Muitos produtores rurais estão inadimplentes e com dificuldades de fechar as contas e conseguir financiamento.

O mercado de títulos do agronegócio como um todo encolheu 8,2% no acumulado do ano, para R$ 33,1 bilhões. A queda dos CRAs foi apenas parcialmente compensada pelo avanço dos Fiagros e das CPRs financeiras.

Cesar Mindof, diretor da Anbima, acredita que o recuo do setor está controlado e que os outros instrumentos estão sendo bem aproveitados nesse sentido. Conforme o cenário geral melhorar, o crescimento dos ativos deve caminhar junto.

AutorMonique Lima
FonteSeu Dinheiro
Distribuído por