Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercados
15/06/2026
7 min

Crédito privado impulsiona novas gestoras, mas desaceleração testa setor

Crédito privado impulsiona novas gestoras, mas desaceleração testa setor

O boom do crédito privado ajudou a reverter uma tendência de fechamento de gestoras independentes que marcou o mercado brasileiro de gestão de recursos na última década. Desde 2019, o número de casas ativas cresceu 83%, passando de 830 para 1.520, segundo levantamento da Oliveira Trust com base em dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

No mesmo período, ainda de acordo com a plataforma de serviços fiduciários para fundos de investimento e títulos de renda fixa, o mercado de crédito privado avançou 173%, impulsionado pela busca dos investidores por retornos mais elevados em um ambiente de juros altos.

O movimento, porém, ocorre em meio a um aparente paradoxo. Enquanto novas gestoras continuam surgindo,as emissões de crédito privado começam a perder força, os investidores estão mais seletivos e os custos regulatórios seguem elevados.

Para gestores e executivos do setor, o mercado não vive exatamente uma nova onda generalizada de expansão, mas uma retomada mais restrita, concentrada em casas especializadas e capazes de operar em nichos específicos.

O histórico mostra que ao longo dos últimos anos, mais de 3 mil gestoras foram registradas na CVM, mas cerca de metade já encerrou suas atividades. O período foi marcado porfechamentos, fusões e incorporações, principalmente entre casas menores que enfrentaram dificuldades para atingir escala ou atravessar mudanças de ciclo econômico.

"O mercado sempre acompanhou os movimentos dos juros. Quando os juros caem, o investidor busca mais risco. Quando sobem, os recursos migram para a renda fixa e para o crédito", afirma Gabriel Sidi, fundador da EXT Capital.

Segundo Sidi, foi justamente essa mudança de comportamento que abriu espaço para o surgimento de novas gestoras nos últimos anos. "Foi determinante para que a EXT surgisse. Enxergamos uma migração estrutural dos investidores para produtos de crédito e criou uma estratégia para atender essa demanda".

Da renda variável ao crédito privado

A ascensão das gestoras de crédito ocorre paralelamente ao enfraquecimento de segmentos que haviam prosperado durante o ciclo de juros baixos.

Entre 2016 e 2021, a redução da taxa básica de juros, a Selic, de 14,25% ao ano para 9,25% e que, em 2020 chegou a ficar em 2%. favoreceu fundos de ações, venture capital e private equity. Mas, com a retomada dos juros a partir de 2022, o fluxo se inverteu.

Investidores passaram a priorizar renda fixa, debêntures incentivadas, Fundos de Investimento em Direitos Creditório (FIDCs) e outros instrumentos de crédito privado.

No período, os juros saltaram de 9,25% para até 15% ao ano, ao final do ano passado, o maior patamar desde 2006. A mudança ajudou a impulsionar o nascimento de uma nova geração de gestoras.

Fundada em 2022, a EXT Capital nasceu para estruturar operações de crédito voltadas a empresas de tecnologia e crescimento acelerado. Já a Hike Capital, criada em 2024, apostou em fundos de crédito privado e estruturas ligadas ao mercado de recebíveis.

"O crescimento do crédito privado foi uma das principais razões para o surgimento de novas gestoras. Foi um mercado que atraiu muito capital nos últimos anos", afirma Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital.

Segundo Belitardo, dois segmentos tiveram papel central nesse processo: as debêntures incentivadas ligadas à infraestrutura e os FIDCs. "O investidor encontrou alternativas com retornos elevados e empresas encontraram novas formas de financiamento fora do sistema bancário", disse.

Ao final do ano passado, um relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) revelou que o crédito privado deixou de atuar como um complemento ao sistema bancário tradicional para operar no centro do financiamento das empresas. Até novembro de 2025, o estoque total de crédito privado corporativo atingiu $ 1,9 trilhão, volume mais de cinco vezes superior ao registrado em 2015.

Sendo que, um mês antes, o estoque de debêntures incentivadas, criadas pela Lei 12.431 de 2011 para financiar infraestrutura, alcançou R$ 523 bilhões, superando o saldo de crédito direcionado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) às empresas, de R$ 462 bilhões.

Mercado está cada vez mais especializado

A nova leva de gestoras também apresenta uma característica diferente daquela observada em ciclos anteriores. Se antes muitas casas surgiam com estratégias amplas, hoje o mercado é cada vez mais especializado. "As gestoras não nascem mais generalistas. Elas surgem para resolver um problema específico ou explorar uma oportunidade específica", afirma Sidi.

No caso da EXT, o foco está na conexão entre startups e mercado de capitais. Já outras casas têm surgido voltadas exclusivamente para infraestrutura, FIDCs, crédito estruturado ou segmentos específicos da renda fixa.

A especialização é vista pelos gestores como uma resposta ao aumento da concorrência e à necessidade de oferecer diferenciação em um mercado dominado por grandes instituições financeiras.

Mas os gestores também ponderam que, se de um lado o crédito privado abriu oportunidades, de outro, a regulação tornou a sobrevivência mais difícil. A vigência da Resolução 175 da CVM, que começou a valor em outubro de 2023, ampliou as responsabilidades dos gestores de fundos e elevou as exigências de controle de risco, liquidez e enquadramento regulatório.

A medida foi criada pelo regulador com objetivo de deixar o mercado local alinhado às práticas internacionais e com maior segurança jurídica. Mas, segundo José Alexandre Freitas, presidente da Oliveira Trust, a medida também elevou os custos.

Freitas aponta que uma gestora pode gastar mais de R$ 300 mil por ano apenas para manter a infraestrutura tecnológica e regulatória necessária para operar. "Muitas gestoras fecharam ou se consolidaram porque o custo de manutenção ficou mais alto após as mudanças regulatórias."

Para reduzir essa barreira, a Oliveira Trust desenvolveu uma plataforma que centraliza parte das exigências operacionais e regulatórias. Segundo a empresa, a ferramenta reduz em cerca de 20% os custos de entrada de novas gestoras.

"Quando você reduz esse custo inicial, aumenta a viabilidade de tirar o projeto do papel. Em muitos casos, isso influencia diretamente a decisão de abrir a gestora", afirma Freitas.

O crédito privado perde fôlego

Outro desafio é agora entender se o motor que impulsionou esse crescimento continuará funcionando.

Dados recentes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram desaceleração das emissões e dos volumes decrédito privado.

A oferta de debêntures no mercado secundário recuou no primeiro trimestre de 2026 frente ao último trimestre de 2025 de R$ 296 bilhões para R$ 236,1 bilhões, de acordo com a entidade. No mercado primário, também houve queda de R$ 175,04 bilhões para R$ 99,32 bilhões no mesmo período, recuo de aproximadamente 43%.

Somado a isso, houve uma abertura dos spreads das debêntures indexadas à taxa DI, refletindo sinais de estresse no mercado​, indo de 1,31% em 13 de março de 2026 para 1,66% em 20 de abril deste ano. O spread é o percentual acima do retorno de títulos públicos que as empresas oferecem. E quando eles sobem, é sinal de que a demanda diminuiu, pois o investidor está enxergando mais risco.

Na avaliação dos gestores, contudo, o movimento não representa necessariamente uma deterioração do mercado, mas um processo de amadurecimento. Sidi avalia que grande parte das empresas aproveitou os últimos anos para alongar dívidas e reduzir custos de financiamento.

"As companhias já refinanciaram boa parte dos passivos. Com menos vencimentos próximos, a necessidade de novas emissões naturalmente diminui."

Belitardo acrescenta que episódios como Americanas, Light e outros problemas envolvendo emissores privados também aumentaram a cautela dos investidores. "O mercado está muito mais preocupado com qualidade do que com retorno. Hoje existe menos disposição para assumir risco".

Segundo o gestor da Hike Capital, as gestoras passaram a priorizar ativos de maior qualidade de crédito, especialmente em setores como infraestrutura, energia e transporte.

Além disso, a desaceleração das emissões não significa necessariamente o fim da expansão das gestoras independentes. Para os executivos do setor, o que está em curso é uma mudança de perfil.

Se o ciclo anterior premiou praticamente qualquer estratégia ligada ao crédito privado, a próxima etapa deve favorecer apenas as casas capazes de entregar retorno consistente, governança robusta e especialização. "A seletividade vai falar mais alto", afirma Belitardo. "Quem conseguir manter qualidade e gerar resultados de forma consistente terá espaço."

Sidi concorda. "O que define quem permanece é a capacidade de continuar gerando retorno em qualquer ambiente de mercado".

AutorClara Assunção
FonteExame
Distribuído por