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Mundo
06/09/2026
5 min

Crescimento artificial: por que investimento bilionário dos EUA em IA não fez economia crescer?

Apesar do investimento de centenas de bilhões de dólares no setor, desenvolvimento da IA nos EUA não resultou em maior crescimento econômico, o que desafia promessas políticas

Crescimento artificial: por que investimento bilionário dos EUA em IA não fez economia crescer?

A expressiva alta de investimentos em inteligência artificial nos Estados Unidos começa a gerar ganhos expressivos de produtividade, mas ainda não se traduziu em uma aceleração do crescimento econômico, afirma uma pesquisa da Gavekal, empresa de análise financeira sediada em Hong Kong.

Segundo os analistas da Gavekal, a principal barreira pode estar no mercado de trabalho, que enfrenta uma combinação de menor oferta de mão de obra e de mudanças demográficas.

Há anos, Kevin Warsh, o atual presidente do Fed apontado por Trump, defende que os investimentos em infraestrutura e em tecnologia de IA podem elevar a produtividade do trabalho. A expectativa é semelhante à observada no boom tecnológico do fim dos anos 1990, quando os avanços de produtividade ajudaram a sustentar o crescimento e reduzir pressões inflacionárias.

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Os dados mais recentes, porém, mostram um cenário diferente.

Desde o lançamento do ChatGPT, no fim de 2022, a produtividade americana avançou de forma consistente, mas a inflação continuou elevada e o PIB real permaneceu próximo de sua média de duas décadas, de 2,3%.

A produtividade do trabalho aumentou em 13 dos últimos 14 trimestres, com boa parte dos ganhos concentrada no setor de serviços, âmbito em que a tecnologia deveria ter o maior impacto — o que reforça a percepção de que a inteligência artificial já está permitindo que os trabalhadores produzam mais em menos tempo.

Estagnação demográfica

Com queda e envelhecimento da população, EUA enfrenta problemas demográficos agravados por políticas anti-imigratórias (Sven Hoppe/Getty Images)

O problema, todavia, é que uma produtividade maior não implica necessariamente um aumento proporcional da produção total, aponta a Gavekal.

Quando há menos trabalhadores disponíveis, há menos gastos e a capacidade da economia de ampliar a oferta tende a permanecer limitada, mesmo diante de ganhos expressivos de eficiência.

E a força de trabalho americana vem encolhendo neste ano, justamente quando a expansão da infraestrutura de computação relacionada à IA aumenta a demanda por bens, serviços, energia e equipamentos.

Um dos principais obstáculos ao crescimento da força, apontados pela Gavekal, é a política migratória. O governo de Donald Trump mantém uma postura restritiva em relação à imigração, com medidas que podem reduzir significativamente o fluxo líquido de novos imigrantes e, consequentemente, o crescimento da população economicamente ativa.

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Estudos citados na análise apontam, ainda, que o crescimento da população americana pode atingir níveis historicamente baixos neste ano. Como a expansão populacional é um dos principais fatores que determinam o potencial econômico da força de trabalho, uma desaceleração demográfica também limita a capacidade de crescimento da economia.

O resultado é um descompasso: de um lado, uma economia capaz de produzir mais por trabalhador e, de outro, uma menor quantidade de trabalhadores para atender à demanda.

Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que uma parte importante do boom de investimentos em IA tem sido acompanhada de um aumento das importações. Os Estados Unidos estão construindo data centers e ampliando sua infraestrutura energética, mas dependem do exterior para diversos insumos essenciais a esses projetos.

Chips e outros insumos tecnológicos, por exemplo, são importados da Coreia do Sule de Taiwan. Assim, parte do impacto positivo dos investimentos em infraestrutura computacional sobre o PIB americano decorre do aumento das compras externas.

O segundo problema é o envelhecimento da população. A taxa geral de participação na força de trabalho vem caindo desde o terceiro trimestre de 2023, enquanto a participação entre trabalhadores de 25 a 54 anos anos permaneceu relativamente estável.

A tendência deve continuar, segundo projeções do Congressional Budget Office (órgão do Congresso dos EUA), à medida que as gerações mais velhas deixam o mercado de trabalho. A aposentadoria de baby boomers e de integrantes da Geração X deve reduzir progressivamente o número de pessoas disponíveis para trabalhar.

A combinação entre maior produtividade e menor força de trabalho impõe um limite ao crescimento econômico.

Mesmo que a inteligência artificial permita produzir mais por trabalhador, a oferta total pode não crescer no ritmo necessário para acompanhar o aumento da demanda, aponta a análise da Gavekal.

Nesse cenário, uma parcela crescente da demanda tende a ser atendida por produtos e componentes importados. Isso favorece empresas estrangeiras que vendem para o mercado americano, mas também reduz parte do impulso que os investimentos em IA poderiam exercer sobre a produção doméstica.

Dilema

Kevin Warsh em preto e branco sobre fundo vermelho com plataformas de petróleo e gráficos financeiros

Ilustração de Kevin Warsh, novo diretor do Federal Reserve, apontado por Trump

Ao mesmo tempo, as limitações do lado da oferta podem aumentar as pressões sobre os preços. Com menos trabalhadores disponíveis para atender a uma demanda impulsionada pelos investimentos em tecnologia, os ganhos de produtividade podem não ser suficientes para compensar os gargalos do mercado de trabalho.

O diagnóstico do estudo é um dilema para o Federal Reserve: caso a inflação permaneça pressionada, o banco central poderá ter de elevar ou manter os juros mais altos, correndo o risco de desacelerar justamente o ciclo de investimentos em inteligência artificial que promete elevar a produtividade no longo prazo.

Uma política monetária mais apertada também poderia pressionar as ações e os títulos americanos, embora favorecesse o dólar. Já a manutenção de uma postura expansionista sustentaria os preços dos ativos, mas poderia enfraquecer a moeda e aumentar o risco de saída de capital.

Nesse contexto, os efeitos econômicos da revolução da IA podem ser diferentes do que se esperava. A tecnologia pode, de fato, elevar significativamente a produtividade dos trabalhadores americanos sem necessariamente provocar uma aceleração equivalente do PIB ou uma queda da inflação.

A questão central para o Federal Reserve será, portanto, determinar até que ponto os ganhos de eficiência proporcionados pela inteligência artificial superam as restrições impostas por uma força de trabalho menor.

Pelos sinais recentes e pelos comentários de Warsh em Jackson Hole, avalia a Gavekal, a autoridade monetária parece estar se preparando para priorizar o combate à inflação, mesmo com o risco de desacelerar a alta de investimentos em IA.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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