“Cripto não é mais terra sem lei”, diz head de Compliance da Binance no Brasil

Quando o Pix começou a ganhar escala no Brasil, uma característica chamou a atenção de analistas e empresas do setor financeiro: a rapidez com que os brasileiros incorporaram uma nova tecnologia à rotina. O mesmo comportamento ajuda a explicar outro fenômeno. Hoje, o país se tornou um dos mercados mais relevantes para o crescimento da indústria de ativos digitais.
Mas a expansão do setor traz novos desafios. Se, nos primeiros anos, a atenção estava voltada principalmente para inovação, tecnologia e potencial de valorização dos ativos, a nova fase do mercado é marcada por discussões sobre regulação, segurança, prevenção a fraudes e proteção ao usuário.
“O Brasil é o quinto maior mercado do mundo em termos de adoção de criptoativos. O consumidor brasileiro é ávido por tecnologia. A gente viu isso com o Pix e observa o mesmo movimento no mercado de ativos digitais”, afirma Victor Martins Gomes, head de Compliance da Binance. Confira, a seguir, a entrevista completa:
O avanço da regulação
A evolução do ambiente regulatório é um dos fatores que explicam essa nova etapa do mercado. Este ano, o Banco Central passou a liderar a supervisão dos ativos digitais no país e publicou regras para o funcionamento das prestadoras de serviços do setor. A medida aproxima a indústria dos padrões de governança e segurança já exigidos em outros segmentos do sistema financeiro.
Mais de 1.280 colaboradores da Binance atuam em funções ligadas à área de compliance, o equivalente a cerca de 22% de sua força de trabalho
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Na prática, isso significa que temas antes restritos aos bastidores das empresas passaram a ganhar relevância estratégica. Compliance, monitoramento de transações, identificação de usuários e prevenção a crimes financeiros tornaram-se elementos essenciais para sustentar o crescimento da indústria.
“Compliance é a área responsável por traduzir a regulação para dentro da empresa, preparar produtos e serviços para operar em conformidade e criar mecanismos de proteção para os clientes”, explica Gomes. “Costumo dizer que ele funciona como o cinto de segurança de um carro: permite avançar com mais velocidade, mas de forma segura.”
A profissionalização do setor ocorre em paralelo à ampliação da base global de usuários. Considerada uma das maiores plataformas de negociação de criptoativos do mundo em número de usuários, a Binance já ultrapassou a marca de 310 milhões de clientes distribuídos em mais de 100 países e tem como meta alcançar 1 bilhão de usuários nos próximos anos.
Para suportar esse crescimento, a empresa afirma ter estruturado uma das maiores operações de compliance da indústria. Hoje, mais de 1.280 colaboradores atuam em funções ligadas à área, o equivalente a cerca de 22% de sua força de trabalho.
O investimento responde a uma demanda crescente por segurança em um mercado que movimenta volumes cada vez maiores de recursos. Entre janeiro de 2025 e março de 2026, a companhia afirma ter evitado golpes que poderiam gerar perdas superiores a US$ 10 bilhões, protegendo mais de 5 milhões de usuários ao redor do mundo.
A inteligência artificial tem desempenhado papel importante nesse processo. Atualmente, mais de 100 modelos são utilizados para identificar comportamentos suspeitos, monitorar riscos e detectar possíveis tentativas de fraude.
Segundo a empresa, apenas no primeiro trimestre de 2026 foram interceptadas quase 23 milhões de tentativas de golpes e phishing, evitando perdas próximas de US$ 2 bilhões para os usuários.
Entre janeiro de 2025 e março de 2026, a Binance evitou golpes com perdas superiores a US$ 10 bilhões, protegendo mais de 5 milhões de usuários pelo mundo
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A tecnologia também permitiu identificar mais de 50 mil endereços associados a atividades ilícitas e acelerar em mais de cem vezes os processos de verificação de identidade.
A cooperação com autoridades também se tornou uma frente relevante. Em 2025, a Binance processou mais de 71 mil solicitações de órgãos públicos em diferentes países. Na América Latina, foram aproximadamente 15 mil pedidos atendidos.
“Cripto não é mais terra sem lei”, afirma Gomes. “Hoje existe uma cooperação muito forte entre setor privado e autoridades públicas. É justamente essa atuação conjunta que permite prevenir crimes financeiros e proteger todo o ecossistema.”
O amadurecimento do mercado também passa pela educação financeira. Embora o interesse pelas criptomoedas tenha crescido rapidamente nos últimos anos, especialistas defendem que a adoção sustentável depende da compreensão dos riscos, das aplicações e do funcionamento dos ativos digitais.
Dados da Binance mostram que mais da metade dos acessos latino-americanos à Binance Academy — plataforma educacional gratuita da empresa — vem do Brasil. Para Gomes, o dado revela que o interesse dos brasileiros vai além do investimento.
“O brasileiro não quer apenas investir. Ele quer entender como essa tecnologia funciona e como ela pode fazer parte da sua vida financeira”, afirma.
Em um mercado que ainda está construindo sua infraestrutura regulatória, a combinação entre inovação, educação e governança tende a definir os próximos anos da indústria. Se a primeira fase das criptomoedas foi marcada pela descoberta da tecnologia, a próxima deve ser guiada pela construção de confiança.
