Criptomoedas redefinem a infraestrutura dos pagamentos globais

Por Fábio Plein*
A indústria global de pagamentos movimenta US$ 2 quatrilhões em valor por meio de 3,5 trilhões de transações todos os anos e, ainda assim, permanece surpreendentemente ineficiente. Transferências internacionais, por exemplo, ainda podem levar entre dois e cinco dias úteis para serem concluídas. Isso sem considerar o custo médio global que, segundo o Banco Mundial, gira em torno de 6% e pode ser ainda maior em mercados emergentes.
Para enfrentar esses desafios nas transações financeiras, as stablecoins, tokens cripto projetados para serem atrelados a moedas como o dólar norte-americano ou o real brasileiro, estão prestes a redefinir a indústria de pagamentos, um mercado de US$ 2,5 trilhões. Elas permitem transações em tempo real, 24 horas por dia, sete dias por semana, a um custo praticamente zero.
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O mercado já está respondendo, e os números impressionam: US$ 30 trilhões em stablecoins foram liquidados no último ano, representando um crescimento de três vezes em comparação ao ano anterior, uma evidência clara de que o mundo já busca alternativas mais rápidas e acessíveis.
Enquanto as stablecoins ganham espaço, a maioria dos bancos tradicionais ainda não utiliza ativos cripto diretamente. O modelo mais comum envolve a conversão automática entre criptomoedas e moedas fiduciárias, o uso de stablecoins para liquidação e parcerias com fintechs e provedores de infraestrutura. Em outras palavras, a adoção já está acontecendo, apenas de forma mais integrada e menos visível para o usuário final.
Não é coincidência que o interesse das instituições financeiras tenha deixado de ser apenas exploratório para se tornar adoção prática. Bancos e fintechs estão avançando principalmente em pagamentos internacionais, gestão de liquidez e operações de tesouraria, áreas em que os ganhos de eficiência são mais imediatos. Essa adoção levou o Tesouro dos Estados Unidos a projetar que o mercado de stablecoins alcançará US$ 3 trilhões até 2030.
Na prática, isso significa que empresas podem liquidar pagamentos internacionais em minutos, inclusive fora do horário bancário tradicional, com maior previsibilidade de custos e menor dependência de múltiplos intermediários. Para setores como comércio internacional, tecnologia e serviços digitais, essa eficiência pode representar não apenas redução de custos operacionais, mas também maior competitividade em escala global.
O Brasil já demonstrou sua capacidade de liderar transformações na infraestrutura financeira com o Pix nos pagamentos domésticos; o próximo passo natural é estender essa mesma eficiência às transações internacionais, que continuam caras, lentas e dependentes de intermediários. O país conta com cerca de 25 milhões de investidores no setor, segundo pesquisa da Datafolha, e está entre os cinco maiores mercados globais em adoção de cripto, indicando que a integração entre finanças tradicionais e infraestrutura cripto tende a se tornar cada vez mais complementar.
Mais do que uma tendência do mercado cripto, as stablecoins começam a se consolidar como uma nova infraestrutura para pagamentos globais, combinando liquidação em tempo real, maior eficiência operacional e maior integração ao sistema financeiro tradicional.
* Fábio Plein é diretor regional da Coinbase para as Américas.
