Crise de vistos trava cooperação entre EUA e Brasil contra o crime, diz NYT
Segundo o jornal, EUA retêm vistos de agentes da Polícia Federal, e Brasil responde bloqueando agente americano

Uma disputa diplomática envolvendo vistos está prejudicando a cooperação entre Estados Unidos e Brasil no combate ao crime organizado transnacional, segundo autoridades dos dois países ouvidas sob condição de anonimato pelo New York Times.
De acordo com o jornal, o Departamento de Estado americano está retendo os vistos de dois agentes da Polícia Federal brasileira que seriam designados para postos em Miami e Nova York, onde atuariam ao lado da Divisão de Investigações de Segurança Interna dos EUA.
Os dois agentes já haviam sido selecionados e avaliados por autoridades dos dois países no início do ano, como parte de uma troca de pessoal de rotina.
Em resposta, o Brasil bloqueou o visto de um agente americano que deveria assumir posto no país. O impasse é reflexo de uma sequência de retaliações: em abril, o adido de segurança da Polícia Federal nos Estados Unidos, Marcelo Ivo de Carvalho, foi expulso pelo governo americano, que o acusou de "perseguição política" por seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira — que havia fugido para os EUA após ser condenado por conspiração golpista ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em resposta à expulsão, o Brasil revogou as credenciais de um agente americano baseado em Brasília, e agora retém o visto do substituto dele até que seus próprios adidos sejam autorizados a assumir os postos nos Estados Unidos.
O governo americano também negou, alegando agenda lotada até novembro, um pedido de visita de quase uma dezena de agentes da Receita Federal brasileira a Washington, feito em junho como parte de esforços para reforçar a cooperação contra lavagem de dinheiro e contrabando de armas.
O pano de fundo político
As rupturas ocorrem em meio a um ano de relações tensas entre os dois países, agravadas pelas tentativas do presidente Donald Trump de interferir em assuntos internos do Brasil.
"A percepção é de que a política de segurança dos EUA em relação ao Brasil se tornou intrincada com a política interna", avalia Robert Muggah, diretor de pesquisa do Instituto Igarapé. Segundo ele, isso não representou uma ruptura total, mas "introduziu novas complexidades na relação e a impregnou com níveis de desconfiança".
Procurado, o Departamento de Estado não comentou os casos específicos de vistos, mas afirmou que o governo Trump busca "manter os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública" por meio do processo de concessão de vistos, reforçando o interesse em manter cooperação com o Brasil.
A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA disse estar comprometida em colaborar com autoridades brasileiras. Já a Polícia Federal e o Itamaraty não comentaram; o Ministério da Fazenda afirmou que os dois países mantêm diálogo para troca de boas práticas no combate ao crime transnacional.
Por que a cooperação importa
Embora o Brasil não seja um grande exportador de drogas para os Estados Unidos, o país é rota importante de trânsito de cocaína para Europa e África, com facções brasileiras formando alianças cada vez mais próximas com organizações criminosas mexicanas e colombianas.
Além disso, especialistas apontam que grupos criminosos brasileiros usam o sistema bancário americano para lavar dinheiro, enquanto armas contrabandeadas de estados americanos com legislação mais permissiva abastecem o crime organizado no Brasil.
"Hoje, as facções criminosas não conhecem fronteiras. Por isso, precisamos trabalhar juntos", resume Edvandir Félix de Paiva, presidente da associação dos comissários da Polícia Federal.Apesar do impasse diplomático, um novo sistema de compartilhamento de informações implementado neste ano ainda permite que agentes alfandegários dos dois países se alertem sobre remessas suspeitas de contêineres. Mas, segundo especialistas, a falta de coordenação em alto nível pode frustrar planos mais ambiciosos de cooperação.
Propostas sem resposta
Ao longo do último ano, Lula apresentou a Trump propostas de cooperação mais estreita contra o crime organizado. Em maio, durante reunião na Casa Branca, o presidente brasileiro chegou a detalhar uma estratégia conjunta para combater cartéis por meio do controle de armas e finanças, mas o governo americano nunca respondeu à proposta, segundo um funcionário brasileiro.
No mesmo mês, os Estados Unidos classificaram as duas maiores facções criminosas do Brasil como organizações terroristas, após pressão de Bolsonaro e aliados, que acusam Lula de leniência com o crime.
Os EUA também têm reforçado parcerias de segurança com líderes conservadores da região por meio do Escudo das Américas, aliança que não inclui o Brasil e da qual países como Equador e Colômbia já participam com operações militares conjuntas.
No mês passado, o Brasil também não foi convidado para uma reunião de autoridades de segurança da América Latina e do Caribe, promovida pelos Estados Unidos na ONU.
Ao New York Times, Jimmy Story, ex-embaixador americano e sócio da consultoria Global Frontier Advisors, disse que a estratégia de usar vistos como instrumento de pressão pode ter efeito contrário ao pretendido por Washington: "Queremos que o Brasil esteja mais próximo dos Estados Unidos, e não mais distante. E esse tipo de diplomacia tem o efeito contrário."
