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Mundo
31/07/2026
5 min

Crise em Ceuta é normalizada, mas reacende memória de 2015 na Europa

Chegada em massa de migrantes ao enclave espanhol provocou mortes, endureceu controles de fronteira e fortaleceu líderes da direita europeia

Crise em Ceuta é normalizada, mas reacende memória de 2015 na Europa

Desde a manhã de quinta-feira, 30, o enclave espanhol de Ceuta, no Norte da África, foi tomado por cerca de 60 mil migrantes vindos do Marrocos em poucas horas. O caos provocado pela chegada em massa mobilizou Exército e forças de segurança da Espanha, causou entre 34 a 60 mortes, levou a Itália a suspender temporariamente a livre circulação com o país e reacendeu lembranças da Crise de Refugiados de 2015, quando mais de 900 mil pessoas chegaram à Europa fugindo, principalmente, das guerras na Síria, no Afeganistão e no Iraque.

Embora a situação tenha sido parcialmente controlada após pouco mais de 36 horas, o episódio abriu uma nova frente de tensão política dentro da União Europeia. O governo espanhol afirma que cerca de 48 mil migrantes já retornaram ao Marrocos, mas as imagens de milhares de pessoas cruzando a fronteira voltaram a alimentar o discurso de partidos conservadores sobre imigração.

Migrantes em Ceuta: crise no enclave espanhol levou à mobilização das Forças Armadas (AFP)

Na França, por exemplo, o líder de direita Jordan Bardella afirmou que a política de regularização migratória de Pedro Sánchez teria "aberto as portas da Europa" para novos fluxos de migrantes.

A crise também expôs uma diferença importante em relação a 2015. Enquanto há uma década vários países europeus abriram suas fronteiras para refugiados, hoje grande parte da Europa adota políticas migratórias muito mais rígidas, tornando o episódio de Ceuta um teste político para governos do continente.

Ceuta é tomada por cerca de 60 mil pessoas

A onda migratória começou comcentenas de pessoas atravessando a fronteira por mar e pelas cercas que separam Marrocos do enclave espanhol. Na madrugada de quinta-feira, porém, o fluxo aumentou rapidamente, chegando a cerca de 60 mil pessoas, uma das maiores crises já registradas na cidade autônoma de aproximadamente 84 mil habitantes.

Segundo o governo espanhol, a maior parte dos migrantes já retornou ao território marroquino, enquanto policiais e militares continuam conduzindo grupos em direção à fronteira. A cidade voltou a apresentar sinais de normalidade, embora ainda haja deslocamentos constantes de pessoas.

Ao todo, foram contabilizadas entre 34 e 60 mortes, dependendo do balanço considerado. O governo local confirmou ao menos 34 vítimas fatais, enquanto autoridades de Ceuta ouvidas pelo New York Times elevaram esse número para pelo menos 60 mortos.

O governo espanhol atribui a explosão das travessias à atuação de máfias especializadas em tráfico de pessoas, que teriam explorado uma interpretação de uma recente decisão da Suprema Corte da Espanha sobre a deportação de migrantes que chegam pelo mar.

Chegada pelo mar: milhares tentaram entrar em Ceuta a nado (AFP)

OSupremo restringiu a devolução automática de pessoas que entram nadando em Ceuta e Melilla. Segundo o primeiro-ministro Pedro Sánchez, traficantes passaram a divulgar nas redes sociais que a entrada pelo mar aumentaria as chances de permanência no país.

Outras hipóteses também ganharam força. Pesquisadores consultados pelo New York Times afirmam que seria praticamente impossível uma travessia dessa dimensão ocorrer sem algum grau de flexibilização dos controles por parte das autoridades marroquinas, hipótese que Rabat não confirmou nem comentou oficialmente.

Analistas também lembram que uma crise semelhante ocorreu em 2021, em meio a uma disputa diplomática entre Espanha e Marrocos.

Repercussão na Europa

A repercussão foi imediata. A Itália anunciou a suspensão temporária do Espaço Schengen com a Espanha, fechando seus pontos de entrada por mar e ar para cidadãos não europeus que chegarem do território espanhol.

Giorgia Meloni: a premiê italiana fechou a circulação com a Espanha e reforçou a fronteira com a Franca (AFP)

Ogoverno de Giorgia Meloni também reforçou o controle na fronteira terrestre com a França. Embora juristas apontem dúvidas sobre a viabilidade jurídica da suspensão dentro das regras da União Europeia, Finlândia e Dinamarca manifestaram apoio à iniciativa italiana.

A França adotou posição diferente. O presidente Emmanuel Macron declarou solidariedade ao governo espanhol e anunciou o reforço do policiamento na fronteira franco-espanhola.

Nos Estados Unidos, Donald Trump usou a crise como argumento na disputa política doméstica, afirmando que imagens semelhantes poderiam ocorrer em território americano caso os democratas retornem ao poder. A Casa Branca também responsabilizou as políticas migratórias do governo espanhol pelo episódio.

Na própria Europa, partidos conservadores aproveitaram a crise para atacar Pedro Sánchez. Líderes da direita francesa e de outros países argumentaram que a política de regularização migratória do governo espanhol teria criado um "efeito de atração".

Sánchez rejeitou essa interpretação e voltou a responsabilizar redes criminosas de tráfico humano pela disseminação de informações enganosas.

Protestos em Madrid: direita espanhola pede a deportação em massa de migrantes (AFP)

A Crise de Refugiados de 2015

As cenas registradas em Ceuta lembraram a grande crise migratória de 2015, mas em um contexto político bastante diferente.

Naquele ano, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), mais de 911 mil refugiados e migrantes chegaram às costas europeias, enquanto cerca de 3.550 pessoas morreram durante a travessia do Mediterrâneo. Mais de 75% dos recém-chegados fugiam de conflitos na Síria, no Afeganistão e no Iraque.

Imagens como a do menino sírio Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia da Turquia, e tragédias como o naufrágio que matou centenas de pessoas no Mediterrâneo transformaram a migração no principal tema político europeu naquele momento.

Desde então, porém, a resposta dos governos mudou profundamente. Nos últimos dez anos, países como Grécia, Alemanha, França, Itália, Dinamarca e Reino Unido endureceram leis migratórias, ampliaram controles de fronteira e passaram a dificultar pedidos de asilo.

Segundo o New York Times, esse endurecimento reduziu significativamente o fluxo migratório por mar, mas não eliminou a imigração irregular nem o uso do tema por partidos nacionalistas e de extrema direita.

Hoje, legendas como o Reagrupamento Nacional, na França, a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Reform UK, no Reino Unido, continuam colocando a imigração no centro de suas campanhas.

AutorPaloma Lazzaro
FonteExame
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