Crise no boi e freio no frango: por que os frigoríficos nos EUA estão sob pressão
BTG avalia que a Tyson Foods pode perder o impulso do negócio de frango antes de recuperar a rentabilidade da carne bovina

Jeff Schomburger ainda nem assumiu a cadeira de CEO da Tyson Foods, frigoríficos dos Estados Unidos, e já chega com uma missão difícil: recolocar nos trilhos um negócio de carne bovina que segue pressionado pelo menor rebanho dos EUA em 75 anos sem perder o impulso da divisão de frango, responsável por sustentar os resultados da companhia nos últimos trimestres.
A troca de comando, prevista para 30 de setembro, acontece em um momento delicado para a maior processadora de carnes dos EUA. Enquanto a operação da proteína bovina continua consumindo resultados, o segmento de frango — que vinha compensando parte dessas perdas — começa a dar sinais de desaceleração.
"A Tyson corre o risco de perder o impulso da divisão de frango muito antes de a rentabilidade da carne bovina se recuperar", afirmam os analistas Guilherme Guttilla e Thiago Duarte, do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), em relatório divulgado na terça-feira, 4, após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre fiscal.
Os números divulgados pela companhia na segunda-feira, 3, ajudam a entender essa avaliação. Embora tenha reportado um EBIT ajustado de US$ 547 milhões, 15% acima da estimativa do BTG, a Tyson reduziu sua projeção de lucro para o restante do ano.
A expectativa para o EBIT ajustado consolidado caiu para um intervalo entre US$ 2,1 bilhões e US$ 2,3 bilhões, enquanto a divisão de carne bovina passou a projetar perdas entre US$ 500 milhões e US$ 650 milhões, ampliando a previsão anterior de prejuízo.
O pano de fundo é um problema que se arrasta há alguns anos. A seca persistente no oeste dos Estados Unidos reduziu as áreas de pastagem, encolheu o rebanho bovino americano ao menor nível em 75 anos e elevou o custo do gado para frigoríficos como a Tyson.
Mas não é só isso. A escassez de animais para abate elevou custos e comprimiu as margens dos frigoríficos. O cenário levou grandes frigoríficos como a própria Tyson, Cargill e JBS, fecharem unidades fabris nos EUA.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os EUA perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.
Na avaliação do BTG, porém, o cenário continua sem sinais claros de reversão. "É difícil enxergar gatilhos positivos relevantes para o segmento", afirmam os analistas.
Mesmo a reabertura da fronteiramexicana para importação de gado, segundo os analistas, deve produzir apenas um efeito limitado sobre as margens da companhia.
Frango nos EUA
Se a divisão de carne bovina continua sendo o principal problema da Tyson, a de frango pode deixar de ser a principal solução. No terceiro trimestre, o segmento registrou margem operacional ajustada de 11,2%, bem acima da margem negativa de 2,6% da operação de Beef, mas esse diferencial tende a diminuir.
Segundo Guttilla e Duarte, do BTG, o aumento da oferta de frango nos Estados Unidos deve pressionar preços e margens nos próximos trimestres, reduzindo gradualmente a capacidade da divisão de compensar as perdas da operação de carne bovina.
O relatório também chama atenção para outro ponto: a qualidade dos resultados apresentados pela companhia.
No 3º tri, o EBIT ajustado foi beneficiado por US$ 185 milhões em itens classificados como não recorrentes, dos quais US$ 98 milhões relacionados a contingências judiciais, US$ 73 milhões à transição da liderança executiva e US$ 14 milhões à otimização da rede industrial. Juntos, esses efeitos representam cerca de um terço do lucro operacional ajustado reportado pela Tyson.
"As despesas relacionadas a litígios têm se tornado um evento extraordinário recorrente, representando um risco para a qualidade dos lucros", afirmam os analistas.
Embora o banco considere apropriado excluir esses efeitos da análise do desempenho operacional recorrente, destaca que a frequência dessas provisões levanta dúvidas sobre a qualidade dos resultados da companhia.
Diante desse cenário, o BTG manteve a recomendação de venda para as ações da Tyson. "O colchão de resultados parece estar desaparecendo", afirmam os analistas, ao destacar que a companhia pode perder o suporte da divisão de frango antes de conseguir recuperar a rentabilidade do negócio de carne bovina.
