Crise no Estreito de Ormuz impulsiona energia nuclear na Ásia

O conflito no Irã resultou no fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais vias marítimas do mundo, por onde passa cerca de 20% do petróleo global. Com mais de 80% desse volume tendo como destino a Ásia, o choque energético passa a alimentar o apoio a alternativas independentes da estabilidade do estreito, como explica um estudo do think tank Centre for International and Strategic Studies (CSIS).
Principal entre essas é a energia nuclear, vista como controversa por muitas parcelas da população, por afetar indústrias de energia tradicionais e pelo risco de acidentes, como o terremoto e o tsunami de Fukushima, em 2011, que resultaram na liberação de toneladas de materiais tóxicos no oceano e no ambiente, levando ao deslocamento de milhares de pessoas.
Mesmo assim, a energia nuclear continua a desempenhar um papel suplementar importante no abastecimento de eletricidade do Japão, da Coreia do Sul e de Taiwan, atuando como complemento ao gás natural em sistemas altamente dependentes de importações, uma característica que ganha importância em meio às incertezas que cercam Ormuz.
Os três territórios dependem integralmente do transporte marítimo para garantir o fornecimento de gás natural liquefeito (GNL), o que os tornou especialmente vulneráveis à crise energética desencadeada pelas tensões no Estreito de Ormuz.
A redução da oferta global de GNL e a disparada dos preços desde março aumentaram os custos de geração de energia. Os preços da energia na Ásia permaneceram entre 50% e 100% acima dos níveis registrados em fevereiro de 2026, pressionando governos e empresas.
Mesmo assim, de acordo com o estudo, a energia nuclear não é protagonista em nenhum dos países, representando apenas 1% da oferta em Taiwan, 10% no Japão e 31% na Coréia do Sul, que, apesar do número maior, ainda é menor do que o carvão, aos 33%.
Além disso, o aumento dos custos de transporte marítimo, impulsionado pela alta dos combustíveis e dos prêmios de seguro de navegação, elevou ainda mais o custo das importações, inclusive das cargas provenientes de fornecedores fora do Oriente Médio.
Diante desse cenário, especialistas avaliam que a crise poderá reforçar o papel da energia nuclear nas estratégias energéticas do Japão, da Coreia do Sul e de Taiwan, à medida que os três buscam reduzir a dependência do GNL importado e fortalecer sua segurança energética no longo prazo, mesmo que a intensidades e climas políticos diferentes.
O caso a caso de cada um: Japão
Fukushima, o pior acidente nuclear da história do Japão. Na foto, manifestante com uma bandeira que diz "lembre-se de Fukushima". (Getty Images)
O Japão, a Coreia do Sul, e Taiwan encaram o problema e a possível alternativa nuclear de maneiras diferentes, devido à aceitação popular, clima político e capacidade do Estado.
No Japão, a crise energética provocada pelo conflito envolvendo o Irã reforçou a importância da energia nuclear como um dos pilares da segurança energética nacional. Mês passado, a primeira-ministra Sanae Takaichi determinou que o Ministério da Economia elaborasse, até agosto, um pacote de medidas para aumentar a resiliência do sistema energético do país, incorporando as lições da crise no Estreito de Ormuz. Entre as principais propostas esperadas está a aceleração da construção de novos reatores nucleares.
A mudança ocorre em meio a uma crescente aceitação pública da energia nuclear, após anos de ceticismo. Embora as preocupações com a segurança das usinas permaneçam, o CSIS indica que a alta dos custos de energia e a necessidade de reduzir emissões de carbono vêm aumentando o apoio à tecnologia.
O Sétimo Plano Estratégico de Energia, adotado pelo Japão em fevereiro de 2025, passou a defender o uso máximo dessa fonte. A meta do governo é que a energia nuclear responda por 20% da eletricidade do país até 2040.
Para atingir esse objetivo, o Japão precisará modernizar rapidamente seu parque nuclear. Atualmente, 15 dos 33 reatores aptos para operação estão em funcionamento. Com o vencimento das licenças de operação de diversas unidades nas próximas décadas, o governo avalia a construção de dois a cinco novos reatores para evitar a perda de capacidade instalada.
Coreia do Sul e Taiwan
Material nuclear na Coreia do Sul, o país analisado mais aberto à energia atômica (Getty Images)
Na Coreia do Sul, o cenário é semelhante. A forte dependência de combustíveis fósseis importados e o crescimento esperado da demanda por eletricidade, impulsionado sobretudo pela indústria de semicondutores, reforçaram o apoio à expansão da energia nuclear. Em março, o governo anunciou a intenção de elevar a utilização das usinas nucleares para 80% da capacidade e antecipar a retomada das operações de seis reatores em manutenção.
A estratégia está alinhada ao 11º Plano Básico de Oferta e Demanda de Eletricidade, que prevê ampliar a participação da energia nuclear para cerca de 32% da matriz elétrica em 2030 e 35% em 2038. Em janeiro de 2026, o presidente Lee Jae Myung confirmou a construção de dois novos reatores de grande porte, mantendo uma política iniciada pelo governo anterior. Pesquisas de opinião mostram amplo respaldo popular à iniciativa: cerca de 70% dos sul-coreanos apoiam a construção das novas usinas.
Em Taiwan, a energia nuclear historicamente divide a classe política. Em maio de 2025, com o encerramento da licença de operação do último reator em atividade, a ilha tornou-se oficialmente livre de energia nuclear, concretizando uma promessa do Partido Democrático Progressista (DPP). No entanto, o aumento da demanda por eletricidade, o avanço da indústria de semicondutores e as preocupações com a segurança energética vêm provocando uma mudança de rumo.
Pesquisas realizadas em março apontaram que mais de 60% da população passou a apoiar o uso da energia nuclear, incluindo uma parcela crescente de eleitores favoráveis ao DPP. Após mudanças na legislação aprovadas em 2025, a usina nuclear de Maanshan entrou em processo regulatório para uma possível reativação.
O presidente William Lai tem sinalizado maior abertura à retomada da energia nuclear, citando a necessidade de fortalecer a resiliência energética e reduzir a dependência de combustíveis importados, embora reconheça que a reativação das usinas não representará uma solução imediata.
De forma geral, a crise no Estreito de Ormuz fortaleceu o papel da energia nuclear nas estratégias energéticas de Japão, Coreia do Sul e Taiwan, avalia o CSIS. Apesar das diferenças políticas entre os três governos, a tecnologia vem sendo cada vez mais tratada como uma alternativa para conciliar segurança energética, competitividade econômica e redução de emissões.
