Mundo
06/11/2026
3 min
Crise no Paraguai: Banco Central inicia pagamentos a correntistas do Ueno Bank
Intervenção em banco digital com quase 3 milhões de clientes bloqueou saques e desencadeou turbulência, provocando as renúncias do presidente do país e do chefe da autoridade monetária

O Banco Central do Paraguai (BCP) deu início ao pagamento de adiantamentos aos correntistas do Ueno Bank. A instituição sofreu uma intervenção recente que bloqueou o acesso de quase 3 milhões de clientes ao próprio dinheiro, desencadeando uma crise financeira e política sem precedentes no país vizinho.
A informação foi confirmada nesta sexta-feira à agência AFP pelo responsável pelo fundo garantidor de depósitos. "O processo de pagamento dos adiantamentos da garantia aos correntistas do Ueno Bank começou na tarde desta quinta-feira", explicou José Maciel, diretor da Unidade Administradora do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) do Banco Central.
Turbulência política e renúncias em série
A liquidação do Ueno Bank, determinada no dia 2 de novembro, ocorreu após o BCP identificar uma grave insuficiência de capital na instituição — o índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei. O colapso, no entanto, extrapolou o sistema bancário, especialmente porque o banco administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos.
A crise derrubou as principais lideranças do país. Na quinta-feira (5), o presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia ao cargo em meio à pressão do Congresso para a abertura de um processo de impeachment. Peña foi acionista da holding do banco até o ano passado. A renúncia, no entanto, foi rejeitada pelo Senado, que tenta avançar com o processo de destituição. Caso a saída seja formalizada, o vice-presidente Pedro Alliana assumirá o Executivo.
Dias antes, o presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, também entregou o cargo a pedido de Peña. Carvallo havia comandado a Financiera Ueno (como a instituição era conhecida antes de virar banco) e renunciou em meio à pressão sobre a atuação do órgão regulador, sendo substituído interinamente por Liana Caballero.
Com o agravamento das investigações, Miguel Vásquez — maior acionista e um dos fundadores do Ueno — e outros sete diretores se apresentaram voluntariamente à Polícia Nacional e à Justiça paraguaia.
Impacto na economia
O Ueno Bank adotou uma agressiva estratégia digital que impulsionou rapidamente o seu tamanho. Em junho deste ano, a instituição alcançou 2,94 milhões de clientes em um país com cerca de 6,1 milhões de habitantes, concentrando mais de 9% de todos os depósitos do Paraguai.
O congelamento das contas afetou duramente o comércio. Segundo a Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar), duas em cada três operações eletrônicas locais passavam pelo Ueno, criando o risco de uma "semiparalisação" do mercado comercial.
Os efeitos chegaram também ao esporte. A crise reteve cerca de US$ 13 milhões pertencentes à Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) depositados na instituição. No futebol local, o impacto foi direto: o Ueno havia se tornado o principal patrocinador de grandes clubes da primeira divisão, como Olimpia, Cerro Porteño e Guaraní, resultando em dificuldades no pagamento de salários de jogadores.
AutorDiego Pavão
FonteExame
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